Wellington Duarte

15/05/2021
 
Na terra dos mortos, a fúria do mandrião
 
 
Destemperado, com um olhar em que se notava uma raiva quase irracional, o presidente da República, discursou para uma pequena aglomeração, em Maceió, num ato comemorativo de uma ponta já inaugurada, pelo governador local, em dezembro do ano passado.
 
A fúria do Mandrião, o que pouco fez e faz, bastando para isso ver sua agenda diária, foi dirigida ao senador Renan Calheiros, uma velha raposa política do MDB, que no dia anterior ameaçou prender o ex-secretário de Comunicação do Palácio do Planalto Fabio Wajngarten que passou o dia tentando fazer os senadores da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado de palhaços, mentindo e dissimulando sobre suas atividades quando esteve no governo.
 
Em determinado momento a horda enviou o senador Flávio Bolsonaro para acanalhar a reunião e este assim o fez, distribuindo impropérios e chamando o senador Renan Calheiros de “vagabundo”, quase provocando uma troca de catiripapos e conseguiu, pelo menos em pouco tempo, a suspensão da CPI.
 
Essa manobra do filho do Mandrião não surtiu muito efeito e os trabalhos continuaram e continuam, e estamos vendo a revelação de um grande estratagema de sabotagem do combate à vacina, comandada por celerados fascistas e que deixou o país desamparado e entregue à Morte e o saldo macabro chegou a mais de QUATROCENTOS E TRINTA MIL MORTOS.
 
O que vem deixando o presidente que correu atrás da ema com uma caixa de hidroxicloroquina, momento este fotografado e que será, certamente, um dos momentos mais patéticos da história de todos os presidentes da República, é a ameaça que ele sabe que a CPI representa.
 
Impedimento, como o feito com Dilma Rousseff em março de 2016? Eu não tenho muita esperança de que a Câmara de Deputados, entupida pelos R$ 3 bilhões que o governo deu como forma escancarada de cooptação para apoiar e votar nos então candidatos a presidente da Câmara e do Senado, e cuja maioria é simplesmente movida a negociatas, venha a aprovar a abertura de um impedimento.
 
Muitos querem, inclusive, que Bolsonaro vá diminuindo de tamanho até a realização do processo eleitoral em outubro de 2022 que, aliás, está sendo ameaçado pelo ensandecido presidente que quer a volta do voto impresso, obviamente para reforçar o voto comprado, sob pressão e fora de controle, exatamente porque o presidente não tem nenhum apreço, por menor que seja, pela democracia representativa, algo que que o Mandrião sequer sabe o que é.
 
Só não devemos esquecer que cada dia que esse elemento governa (sic) esse país milhares vão morrendo e, mesmo com a chegada, com a velocidade de uma tartaruga, das vacinas, é assustador imaginar quantos mortos teremos quando ocorrerem as eleições do ano que vem.
 
A estratégia do presidente é a de sempre: acanalhar. Ele e sua matilha vão tentar chafurdar em todas as frentes, buscando jogar a população contra os governadores, algo que em parte já conseguiu; sublevar as polícias militares, hoje infestada de bolsonaristas; convencer, inclusive com aumentos salariais, os militares a cerrar fileiras em torno dele; ataca continuamente o STF, fazendo com que os ministros sejam ameaçados, inclusive fisicamente; e mobilizando seus batalhões de fanáticos, para encherem as ruas como forma de mostrar força política.
 
Infelizmente perderemos ainda muitos familiares, amigos e conhecidos para a pandemia, vítimas de um governo, talvez caso único na história recente, em que um presidente e um governo decidiram deliberadamente sabotar o próprio país durante uma pandemia. 
 
Bolsonaro decidiu, diante do maior desastre sanitário da humanidade, desde a Gripe Espanhola, não fazer nada quanto ao combate e sabotou deliberadamente quem tentou fazer. Ele, que por um conjunto de artifícios políticos e jurídicos, foi eleito presidente, e que repentinamente foi alçado à condição de “mito”, algo que só caberia num daqueles filmes pastelões de quinta categoria, colocou o país numa distopia sombria, onde os mortos são a expressão do nosso fracasso político.
 
Em algum momento este país terá que se olhar no espelho da história. Terá que olhar para trás e procurar entender como chegamos nesse esgoto civilizacional; identificar porque pessoas mergulharam na ignorância e se tornaram adoradoras da Morte.
 
Em algum momento.