Emanuela Sousa

23/08/2020
 
Ensaio do (des)amor
 
 
De repente me peguei abraçada aos poemas de Cecília Meireles ainda na segunda feira. Quem dera ler todos aqueles poemas de Cecília, recheados de afeto e simplicidade sem ter o nó na garganta...
 
Quem dera voltar à ter os olhos brilhando quando li Shakespeare pela primeira vez, ainda quando eu tinha os meus dezenove anos... Época das primeiras paixões, para mim platônicas, quando você ainda não sabe direito o que é o amor.
 
Por aqui, durante a semana tudo desalinhou. Dois dias cinzas fizeram um buraco na minha semana. Dias tão cinzas quanto o céu carregado que fez em São Paulo.
Foram dias que me vi como uma jovem adolescente, perdida entre milhões de emoções e sem saber como lidar com elas.
 
Acordei e notei os sentimentos gritando. A cena era como se meu corpo estivesse sumindo em um mar em fúria, entre raios e trovões.
 
Era a hora de entrar em reclusão e  junto com ela, a melancolia, a opressão dos sentidos, a ansiedade... E apenas esperar... Esperar a dor passar,  o mar se acalmar, as fantasias se desfazerem sozinhas.
 
Ligar para ela e terminar tudo? E você acha que tenho sangue frio pra isso? Na verdade, eu não quero encarar aquele rosto, não quero ouvir aquela voz, sei que vou me desmanchar, mas tenho algumas coisas para dizer...
 
O que eu estou ensaiando?  Pergunto-me na frente do espelho com a voz embargada. Estou ensaindo o término do que não teve começo.  Estou pondo um fim talvez, nas esperanças, nas expectativas, no sonho de tê-la ao meu lado. Ensaio então o momento em que irei disparar mil coisas que tenho presa na garganta. Entre tantas coisas que disse, lembro -me de pegar o celular e dizer:
 
"Não me procure mais (...) Não vou estar aqui."  
 
Jamais imaginei que palavras duras, cruas e ao mesmo tempo de tanta  tristeza saíssem de minha boca. Já não lembrava mais como era a tristeza de perder um amor. Fico tentando imaginar como foi para ela digerir tudo aquilo. Será que recebeu com o mesmo impacto de quando recebi seu silêncio em suas entrelinhas? 
 
É sempre importante lembrar que pecamos em lançar palavras que pesam no coração alheio mas, esquecemos como o silêncio pode ser ainda mais cruel. Ali eu estava entrando em cena para romper, antes de mais nada o silêncio que me torturava há alguns dias.
 
O que resta depois de um rompimento? Resta o desamor, o descaso no meio da saudade.
 
O que resta de nós? Resta juntar os pedaços, entender a história. No meio das nossas angústias, entoar o hino da ressignificação. A ferida deve ser tratada, cuidada para ser curada.
 
Já cantava Pitty em uma de suas músicas: "E uma hora essa abstinência vai passar."