Marta Cortezão: "As redes sociais se tornaram as janelas da Cultura e da Arte"

31/10/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal
Escritora, poeta, militante cultural e comandante de lives culturais no Instagram que tem execelente repercussão, Marta Cortezão vem se destacando no cenário literário. Amazonense nascida em  Tefé e registrada na cidade de Uarini, lugar onde passou boa parte de sua infância, residiu ainda em Tefé. Atualmente mora na Espanha e nas suas palavras, é cidadã do mundo porque os sonhos não admitem fronteiras, dessas que os seres humanos costumam erguer com seus muros invisíveis e intransponíveis. Foi professora na rede pública do Estado do Amazonas durante pouco mais de duas décadas, na Universidade do Estado do Amazonas (UEA/CEST/TEFÉ) de 2002 a 2010 e na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 2011.  Em 2014 começou a publicar seus escritos em seu blog www.tefetupeba.wordpress.com e em sua página “Banzeiro Manso”, no Facebook; de onde nasceu o título do seu livro. Neste mesmo ano, estreou no mundo da escrita com publicação da poesia “Atreva-se”, na revista “Subversa, literatura luso-brasileira”. Participou em várias antologias, nacionais e internacionais, como “Revista Subversa – literatura luso-brasileira” (2015), “O silêncio de uma mulher”, “Inquietudes”, “Coexistência”, “A imortalidade amazônica”, “Antologia Brasil-Galiza” (2016). É também membro da Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-amazônicos – ABEPPA. Marta concedeu entrevista onde falu sobre sua literatura, mercado, conjuntura atual e muito mais. Confira:
 
 
Você vem divulgando a literatura amazonense e do Norte do país. Como é produzir e divulgar cultura tão longe do eixo da literatura nacional, o chamado núcleo Rio-São Paulo?
 
Acredito que já foi muito mais difícil divulgar a Literatura Brasileira produzida no/sobre o Amazonas e Norte do país como um todo, entretanto o acesso à Internet tem facilitado estas conexões e derrubado estes muros invisíveis e resistentes que impediam tal alcance, especialmente, nestes tempos pandêmicos, onde as redes sociais se tornaram as janelas da Cultura e da Arte, em suas diversas manifestações por este vasto mundo. Assim, a ideia do “chamado eixo Rio-São Paulo” vai perdendo certo protagonismo neste novo contexto. É importante ressaltar o surgimento de pequenas editoras que cada vez ganham mais espaço e credibilidade no mercado editorial, com edições de excelência, publicando excelentes escritores e escritoras da literatura contemporânea, mostrando que há espaço e público para todos/as, desde que se faça um bom trabalho de edição e de divulgação nas redes sociais. No meu caso, que resido na Espanha, observo isso com enorme encantamento, porque posso estar conectada com este efervescente processo de divulgação e produção literária que vem de todos os estados brasileiros e também do exterior (na voz literária lusófona), que, no anterior contexto, talvez fosse um pouco mais difícil de acontecer, porque a prioridade eram os eventos presenciais. 
 
E este boom das lives, que, como diria aquele antigo, porém famoso vídeo que ainda rola na internet, “para nossa alegria” vem ganhando força e proporção maravilhosas por ser um movimento de grande relevância para a literatura contemporânea, esta entrevista já é um exemplo simplório disso, uma vez que as atividades literárias que venho desenvolvendo nas redes sociais lhe chamaram a atenção, pelo fato de o querido Cefas Carvalho também mover-se neste mesmo espaço virtual, a quem, de antemão, agradeço o amigável convite. 
 
E foi justamente neste novo panorama, certamente um dos poucos aspectos positivos trazido pela pandemia, que vi uma possibilidade de iniciar algo novo. “Existe uma Literatura no Amazonas” foi o primeiro projeto virtual, que começou timidamente, realizado neste período atípico que estamos vivendo, em parceria com a Drª em Poética e Hermenêutica, professora e crítica literária Lourdes Louro, onde falamos sobre a Literatura Brasileira produzida no Amazonas. Nestas lives, que aconteciam todas as sextas-feiras, em meu perfil do Facebook (https://www.facebook.com/marta.cortezao), passamos em revista vários autores/as que fazem parte da Literatura Brasileira produzida no e/ou sobre o Amazonas, dos vários gêneros literários: no conto: Arthur Engrácio (20 conto amazônicos – 1986 / Edições Puxirum),  Erasmo Linhares (“O Tocador de Charamela” – 1995 / UA, “O Navio e outras estórias” – 1999 / Editora Universidade do Amazonas); no romance: Rogel Samuel (“O Amante das amazonas” – 2005 / Editora Itatiaia), Paulo Jacob (“Chuva Branca” – 1968 / Gráf. Récord), Alberto Rangel (“Inferno Verde” – 2001 / Valer) e Milton Hatoum (“Cinzas do Norte” – 2015 / Companhia de Bolso, “Dois Irmãos” e “Relato de um certo Oriente”– 2008 / Companhia de Bolso); na poesia: Alcides Werk (“Trilha d’Água” – 1985 / Casa madrugada Editora), Elson Farias (“Balada de Mira-Anhanga e outras aparições” – 1993 / Livraria Brasileira), Thiago de Melo (“Silêncio e Palavra” – 2001 / Valer), Isaac Ramos (“Teias e Teares – 2014 / Carlini&Caniato Editorial), Kenedi Azevedo (“O Corpo em Poesia” – 2017 / Letra Capital Editora) e Marta Cortezão (“Banzeiro Manso – 2018 / Porto de Lenha Editora); na crônica: José Aldemir de Oliveira (“Crônicas de Manaus – 2011 / Editora Valer; “Crônicas da minha (c)idade – 2017 / Extra Capital Editora), Max Carphentier, com a participação da pesquisadora Drª Auriclea Neves (“O Sermão da Selva” – 1995 / Valer) e ainda um episódio especial para análise da figura feminina nas obras ficcionais do ciclo da borracha de algumas obras que tinham como ambientação os seringais da Amazônia. 
 
Enquanto isso, lá pelo meu IG @mcortezao, no Instagram, aconteciam (e ainda acontecem todas as quartas-feiras) inúmeros encontros nos bate-papos e, por lá, já passaram escritores/as, poetas, professores/as, ensaístas, músicos, profissionais da área da saúde, ativistas, enfim, uma aquarela pintada nas cores da diversidade humana que só me tem acendido a chama de amor pelos meus iguais. E, para finalizar minha pequena saga de lives, temos o projeto “Tertúlia Virtual”, que acontece todas as sextas-feiras, no meu perfil marta.cortezao, no facebook, que tem o objetivo de reunir a poética de escritoras e poetas de diversos lugares do mundo de uma forma especial, fraterna, humana, deveras um momento de simbiose poética que nos transborda sororidade, também disponível no meu recente canal no YouTube “Banzeiro Conexões” (https://www.youtube.com/watch?v=5lKayuwy-hU). As “Tertúlias Virtuais” contam com o apoio moral da Revista Ser MulherArte, sob a direção editorial de Chris Herrmann, lá iniciamos uma coluna, do mesmo nome, para falar destes gratos encontros que a Poesia vem nos presenteando, assim como da poética destas autoras da literatura contemporânea.
 
No entanto, faço questão de ressaltar aqui que há um trabalho de pesquisa e divulgação literárias acontecendo nas universidades no Amazonas e que só cresce com o empenho e dedicação dos grupos de pesquisa das áreas de Literatura, Linguística, Semiótica, como o “Grupo de Estudos Semióticos: Literatura, Cultura e outras Artes”, da Universidade do Estado do Amazonas (GES/UEA), coordenado pela Drª Socorro Viana, o “Grupo de Estudos e Pesquisas em Literatura de Língua Portuguesa”, da Universidade Federal do Amazonas (GEPELIP/UFAM), coordenado pela Drª Rita Barbosa, o “Grupo de Pesquisa em Poesia Feminina do Norte, Nordeste e Centro-Oeste”, da Universidade do Estado de Rondônia (GPFENNCO/UNIR), coordenado pelo Dr. Eduardo Martins, cujo Simpósio de Poesia Contemporânea de Autoria Feminina tem início no dia 30 de outubro, via plataforma virtual. Ainda ressaltamos as atividades culturais e literárias promovidas pelas academias literárias do Amazonas (Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-Amazônicos /ABEPPA, Academia de Letras do Brasil /ALB/AM, entre outras), o “Grupo Formas e Poemas”, composto por poetas e escritoras amazonenses e coordenado pela escritora Franciná Lira, também a Rádio Cultural da Amazônia que, sob a liderança do escritor Paulo Queiroz, tem divulgado os/as autores/as da Literatura Brasileira produzida no Amazonas.
 
 
Você realiza lives literárias dialogando com literatos. Fale sobre a importância das lives nestes tempos de pandemia e isolamento;
 
Bem, já me havia adiantado no assunto na pergunta anterior, mas vamos falar dessa importância desde uma abordagem mais humana. Digo que conectar com pessoas de diversos lugares e de tantas e longínquas paragens é fabuloso, até porque, além de divulgar o “fazer literário” também nos abraçamos virtualmente e isso nos supre, em certa parte, a necessidade das relações sociais que muito nos afeta neste ano atípico de pandemia mundial. A cada live que faço, um aprendizado que guardo em meu paneiro e uma amizade para a vida, ainda que ela se construa, agora, no mundo virtual. É importante ressaltar que o bacana das lives é que qualquer amante das Artes pode divulgá-las, basta entrar para o “festival democrático das lives” e ser feliz, porém com responsabilidade e respeito! Aproveito para agradecer a todos/as que me concederam a alegria do encontro, aceitando meu humilde, mas afetuoso, convite. E também ao escritor e professor Odenildo Sena que deu-me a honra do convite de mediar a live de lançamento de seu livro excepcional “Aprendiz de escritor – sobre livros leituras e escritos”, publicado pela editora Valer, que contou com as ilustres presenças de Milton Hatoum, Tenório Telles, Neiza Texeira e Marcos Frederico Krüger.   
 
 
Como acha que serão os eventos literários no pós-pandemia, o chamado ´novo normal`?
 
Penso que devemos adotar o que tem funcionado com êxito no “momento pandemia”, até porque o chamado “novo normal” ainda é o “velho anormal”. O vírus está bem presente, se fortalecendo de nossos descuidos e continua ceifando vidas, vidas queridas de familiares e amigos. Aqui no Velho Mundo, muitos dos países voltaram ao estado de alarme, de confinamento parcial, pois o número de vítimas tem crescido acentuadamente. Os eventos virtuais que tenho participado têm funcionado a contento. Mas, caso o evento seja presencial, é importante ter esta triste realidade muito em conta. 
 
 
Sua página no Facebook “Banzeiro Manso” se tornou um livro de mesmo nome. Fale sobre ele.
 
Peguei minha canoa e decidi correr mundo, foi, justamente quando me vi distante do meu país, que voltei a escrever, muito acanhadamente, até porque sempre trabalhei como professora, tanto nos colégios estaduais quanto em universidades do estado do Amazonas e, por isso estava sempre sem tempo para escutar meu mundo interior. Então, em 2014, já afastada da docência, criei a página “Banzeiro Manso” no Facebook, com outro nome, inclusive. Fui publicando diariamente os textos e recebendo, de uma querida legião do bem, palavras animadoras sobre meus poemas; comecei a enviar para revistas, depois antologias e foi quando me animei por publicar. A escolha do título “Banzeiro manso” surgiu porque fiz uma minuciosa leitura em meus textos e observei que estas palavras apareciam constantemente em minha poética. “Banzeiro” é um vocábulo desconhecido na maioria dos estados brasileiros, mas, no Amazonas, nas margens dos rios, onde passei minha infância, dá nome à onda de rio, portanto, água em movimento. O rio é parque de diversões da “curumizada” (criançada), assim que as águas marcam o compasso e a poética de meu livro e são estas águas fonte de muitas metáforas, também a vida em constante movimento. Peço licença para inserir aqui o poema “Rito” que foi musicado pela Associação Cinematográfica Fogo Consumidor de minha cidade Tefé/AM, sob a coordenação do cineasta tefeense Orange Cavalcante (https://www.youtube.com/watch?v=Kol-ZWlC0oM):
 
RITO
 
(Marta Cortezão)
 
Eu que já viajei tantas águas,
que conheço os segredos
do rio profundo, o canto da Iara,
os mistérios e encantamentos
do Boto sedutor e da Boitatá,
a cordialidade do Tucuxi,
o arrepio do canto da mata...
Sou incapaz de conhecer
teu dissimulado riso
de louca Mona Lisa!
 
Eu que miguei tabaco
meloso e melado pro Matinta,
tomei cachaça e proseei,
no toco do pau, com o Curupira,
descobri o enigma do Acauã,
pássaro agourento,
a boca da noite escondida
no caroço de tucumã,
o gosto do café oferecido
pelas mãos da simpática
Anciã da cacimba...
Ignoro teus desejos!
Perco-me na superficialidade
do teu dissimulado olhar!
 
Por que te escondes
e te camuflas em meus beijos?
Ainda invadirei teus anseios
e visitarei teu limbo,
matarei teu cão de guarda,
e com sangue pactuarei
com tua alma de cunhã
e descobrirei teus mais
íntimos segredos muiraquitãs...
 
(In: “Banzeiro Manso”, 2018, Porto de Lenha Editora / disponível para compra no site www.portodelenha.com.br)
 
 
Você tem poesias e textos em diversas antologias e portais literários. Qual a importância destas coletâneas e das redes sociais e internet para divulgação da literatura.
 
Para mim, de grande relevância, porque, como disse antes, a Internet trouxe este caráter agregador para a literatura, não dependemos apenas das editoras, é óbvio que são extremamente importantes, mas há outro espaço para publicarmos que vem ganhando cada vez mais adeptos no mundo do ciberespaço. Cito aqui os coletivos dos quais participo mais ativamente, o Mulherio das Letras Portugal, o Mulherio das Letras Áustria, o Mulherio das Letras Espanha e o Mulherio das Letras União Europa, que é a reunião de todos os mulherios na Europa. Não poderia deixar de citar o trabalho cuidadoso da editora In-Finita, com sede em Portugal, que tem crescido bastante editando autores e autoras do mundo inteiro, por um preço acessível e com excelente qualidade editorial e que possui um grande alcance nas redes sociais, assim que uma coisa leva à outra: as interações nas redes sociais acabam reunindo autores/as e, por sua vez, tais interações resultam na edição e publicação de livros físicos e também de e-books. Cito também o trabalho fabuloso da escritora e editora Chris Herrmann à frente da premiada Revista Ser MulherArte, revista feminina de Arte Contemporânea.
 
 
Você atualmente reside na Espanha. Qual o impacto disto em sua obra e, dentro da mesma pergunta, acredita que o distanciamento pode ser benéfico para uma escritora narrar sobre seu lugar?
 
O processo da escrita é lento e longo. Para que ele possa se manifestar, passamos por várias etapas, não nos assumimos escritores/as da noite para o dia, muitas vezes é necessário viver uma experiência que consuma nosso mundo interior, que nos remova por dentro e foi justamente isso que aconteceu comigo. Vivi um impacto emocional muito forte, fruto de mudanças radicais, como adotar um outro país para viver, um novo idioma, novos hábitos, enfim um acúmulo de novas experiências que me consumiam a diário. Esta convivência com uma cultura tão distinta da minha provocou-me a necessidade de expressar-me através da escrita. Logo, neste novo contexto de tantas mudanças, as memórias brotaram com muita força em minha poética. Neste sentido, a duras penas, posso dizer que distanciar-me de meu lugar foi também crescer como ser humano e encontrar a fortaleza para reinventar-me através da escrita. José Saramago, em seu livro “O Conto da Ilha Desconhecida” afirma “que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios”. Eis aí o segredo da vida: foi perdendo-me pelo mundo que acabei encontrando-me. E estava onde menos pensava encontrar-me, escondida pelos entulhos que vamos acumulando devido à correria da vida, estava sempre onde estive, em mim mesma. Portanto, o livro “Banzeiro Manso” é esta viagem da busca interior e do (re)encontro com minhas raízes amazônicas.
 
Quais seus próximos projetos literários?
 
Continuar desenvolvendo os projetos literários que tenho em andamento, buscar parcerias para cada vez mais integrar-me ao mundo da divulgação de literatura de língua lusófona. Espero também conseguir editar meu livro de Trovas, cujo título é “Amazonidades Poéticas: Cultura e Identidade” a fim de usar a desculpa do lançamento para retornar ao Brasil e rever familiares e amigos/as, mas a pandemia está aí gritando ao meu pé do ouvido: “tome tento, manazinha, pois ainda não é o momento!” e a gente, resignadamente, obedece, porque tudo tem o momento certo para acontecer.