Ensino híbrido: Será o novo normal da Educação?

16/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Luciana dos Santos (Universidade do Minho)

Ensino híbrido: será o novo normal da educação? 

Entrevista internacional concedida por Luciana dos Santos, Doutoranda em Ciências da Educação, especialidade de Tecnologia Educativa pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Braga/Portugal, ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. A entrevistada é professora do Instituto Federal Farroupilha (IFFar), localizado em Santa Maria no estado do Rio Grande do Sul / Brasil, e cursa doutoramento no Instituto de Educação da Universidade do Minho, sendo pesquisadora do Centro de Investigação em Educação e Bolseira de Doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do Programa Doutoral Doutoral TELSC - Technology Enhanced Learning and Societal Challenges  “Ensino híbrido: será o novo normal da educação?” é o tema da sua reflexão. A pesquisadora, com base em recomendações de diversas estudos, considera que o ensino híbrido pode ser o começo para a renovação da aprendizagem, pois esta modalidade tem mostrado ser capaz de promover uma cultura de inovação na educação escolar. Considera, também, existir algum consenso, em diversos países, que o retorno às escolas (enquanto a pandemia não estiver erradicada) seja feito de forma gradual e em etapas, com o apoio das tecnologias,  surgindo o ensino híbrido como uma possibilidade. Contudo, em seu entender, este “novo normal” não deve estar somente no ensino híbrido, mas numa aprendizagem muito mais ativa e contextualizada, que valorize os vínculos, os encontros, o trabalho colaborativo em todo o processo de aprendizagem. Esta é uma oportunidade para renovarmos as nossas práticas. 

1.  O novo normal é uma problemática que tem suscitado reflexões para diversos setores da dinâmica social. De acordo com suas pesquisas,  a que campo teórico da educação se poderia situar esse novo normal?

Com a reabertura das escolas após a pandemia podemos falar de um retorno a um “novo normal” - termo destacado por Manuel Castells ao afirmar que o digital será o novo normal por ser diferente daquilo que já vivemos: chegou o momento de assumirmos o digital e o híbrido.

2. Se o novo normal em educação remete para o ensino híbrido, como caraterizas essa modalidade educacional?

O ensino híbrido, também designado b-learning (do termo inglês blended learning, expressão muito usada na literarura científica), promove uma mistura entre o ensino presencial e o ensino online, ou seja, uma fusão entre o mundo digital e o físico. As discussões sobre o ensino híbrido têm em comum a aposta de que ele será o legado da pandemia para a educação por ter possibilitado para muitos o primeiro contato com o digital.

3. E essa modalidade está prevista nas orientações sobre a retomada do ano letivo em 2020-2021?

Apesar do Brasil ainda não ter feito a reabertura das escolas, diversos países já o fizeram e construíram protocolos a partir de diretrizes propostas por órgãos internacionais como UNESCO e Banco Mundial. Há um consenso que o retorno seja feito de forma gradual e em etapas, mas ainda com o apoio das tecnologias e assim o ensino híbrido surge como uma possibilidade. Em Portugal, discute-se como alternativa a ser adotada no próximo ano letivo (que começa no mês de setembro). 

4. O que as pesquisas dizem sobre experiências de ensino híbrido que foram tomadas como objeto de investigação?

O ensino híbrido pode ser o começo para a renovação da aprendizagem em todos os níveis. O relatório Blended Beyond Borders, organizado pelo Clayton Christensen Institute (CCI), relata uma pesquisa realizada em 250 instituições  do Brasil, da Malásia e da África do Sul. Conclui-se que o ensino híbrido, apesar do enfrentar obstáculos de implantação, é capaz de promover uma cultura de inovação e crescimento tecnológico para países em desenvolvimento. A discussão sobre o ensino híbrido já estava de certa forma “na moda” no Brasil. Em  2015, foi divulgada a obra “Ensino híbrido: personalização e tecnologia da educação”, com o relato de professores que construíram práticas de uso integrado de tecnologias digitais em sala de aula da educação básica e mostraram que é possível engajar alunos na aprendizagem nesse modelo. 

5. Segundo a literatura há vários modelos de implementação do ensino híbrido. Em seu entender qual seria o modelo mais adequado para ser adotado? 

O estado de São Paulo já apresentou um  plano de retorno das aulas em setembro usando o ensino híbrido, mas não menciona qual modelo. Especialistas alertam para a construção de um planejamento adequado a cada realidade sob o risco de que este novo normal não agrave ainda mais as desigualdades existentes. Caberá ao coletivo de professores construir esse novo normal, pois o ensino híbrido é muito mais que unir aulas presenciais e a distância. É uma abordagem de ensino baseada na interação e participação ativa de todos.

A construção deste novo normal enquanto oportunidade de mudança e inovação possui pelo menos dois desafios em seu processo de construção: primeiro, reconhecer as práticas desenvolvidas na cibercultura repensando a pedagogia e o papel das tecnologias; segundo, investir numa educação híbrida que permita misturar diferentes possibilidades de aprendizagem.

6. Que mensagem de entusiasmo sobre o ensino híbrido é possível socializar com os interlocutores do jornal potiguar notícias?

Que o “novo normal” não seja somente ensino híbrido, mas uma aprendizagem muito mais ativa e contextualizada que valorize os vínculos, os encontros, o trabalho colaborativo e o próprio processo de aprendizagem. Essa é a oportunidade para renovarmos as nossas práticas. 

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Luciana dos Santos (Universidade do Minho)