Ponto do não-retorno

04/05/2020


 
 
Após as manifestações democráticas realizadas ontem (03), que pediam o fechamento do STF, Câmara e Senado Federal, além do apontamento nominal de velhos (Dória, Witzel, Rodrigo Maia) e novos inimigos (Moro), abrilhantada pela reiterada participação do PR, anunciando que tinha “perdido a paciência e que contava com o apoio das Forças Armadas e ainda, que faria a Constituição ser cumprida”, a política brasileira chega a um ponto conhecido como o do não-retorno.
 
E não quero entrar na filosofia de Heráclito e sua analogia sobre as águas que passam em um rio. Estou falando do ponto onde não existe mais combustível para voltar ao ponto de saída para um recomeço. Para que entendamos o que está acontecendo, é importante uma leitura no cenário.
 
Os filhos do presidente estão sob investigação. O senador Flávio, com investigação sobre rachadinha no seu gabinete no Rio de Janeiro, segundo o MPRJ, recolhida pelo famosíssimo Queiroz. Os dois outros, após denúncias, inclusive de quem esteve ao lado deles, como a deputada federal Joyce Hasselmann, podem ser implicados no inquérito sobre fake news conduzido pelo STF, tendo na figura do ministro Alexandre de Moraes o responsável.
 
O presidente não consegue governar mais. Sua tentativa de flexibilizar o distanciamento social foi impedida pelo STF que deu autonomia aos Estados sobre o assunto. Outros revesses foram sentidos como a suspensão de parte da MP que liberava órgãos públicos de cumprirem prazo pela Lei de Acesso à Informação, a suspensão da abertura de lotéricas, negativa em ampliação de prazo de MPs, veto a campanha publicitária milionária com o título de “O Brasil não pode parar”, e a mais nova, a tentativa de nomear uma amigo da família, Alexandre Ramagem, para a diretoria geral da Polícia Federal, suspensa em molde parecidíssimo com a nomeação pela ex-presidente Dilma, do também ex-presidente Lula para ministro, no episódio que ficou conhecido gracejosamente como Bessias. Aliado a esses revesses, o ministro Alexandre ainda determinou que os delegados da Polícia Federal que investigam o caso das Fake News não sejam trocados.
 
Com o vazamento (o Brasil fabrica canos de péssima qualidade) do andamento das ações do MP do Rio de Janeiro e da investigação da PF que provavelmente vai bater na porta de deputados de camisa amarela, e a mais urgente, o depoimento do ex-ministro Moro que provavelmente entregou provas referentes a nomeação do amigo da família para o cargo de DG da PF, configurando interferência política, Bolsonaro se agarra a única coisa que tem nas mãos: cerca de 33% de aprovação do seu governo por militantes (Datafolha, 27/04).
 
Mas é aí que está outro problema. A mesma pesquisa que aponta que Bolsonaro tem apoio de 1/3 dos brasileiros, mostra reprovação da sua administração de 38%. Ao decompor o resultado, nota-se que Bolsonaro está perdendo os jovens. A pesquisa aponta que 41% dos que estão entre 16-24 anos, e 43% dos que estão entre 25-34 anos, avaliam o governo como ruim ou péssimo. Para quem tem ensino superior, esta negativação chega a 47%. Com relação a renda, para quem recebe até 2 salários mínimos, os que avaliam como bom e ótimo é de 30%. Na faixa de 2 até 5 salários mínimos, a positivação é de 39% e cai para 33%, na faixa entre 5 a 10 salários mínimos. Cabe aqui uma outra observação: Bolsonaro também está caindo muito na faixa dos mais ricos, já que hoje tem 40% de aprovação, distante dos 62% de outrora e mais longe ainda dos 67% da sua vitória nas urnas.
 
Com relação a região, Bolsonaro ainda domina no norte/centro-oeste com 41% de desaprovação a 30% de aprovação. Na região sul, Bolsonaro também comanda com 38% de aprovação a 30% de desaprovação. O problema está no Nordeste (43% de reprovação contra 25% de aprovação) e no Sul (41% de desaprovação contra 33% de aprovação).
O grande problema para o PR e que no sudeste e nordeste, regiões ondem existem mais de 132 milhões de eleitores, a aprovação do seu governo está em franca queda. Mesmo nas outras regiões a se comparar com a eleição e pesquisas anteriores, Bolsonaro não consegue estancar o aumento da desaprovação ao seu governo.
 
Visto os números, qual seria a saída do Presidente? Governar babaca, diria um verborrágico e tratorista senador cearense. Mas isso parece ser impossível para Jair Messias Bolsonaro em um cenário onde a economia deve cair neste ano, em perspectivas otimistas, em torno dos 7%. Aliada a queda da taxa de empregos, Jair sabe, perde-se taxa de aprovação. Como se esse cenário não desse para já ir se acostumando, será colocado na sua conta, aberta com a demissão do ministro Mandetta, as mortes do Covid-19 imputadas por tentar contrariar o mundo no combate pandemia e as recomendações da OMS.
 
Mas, e daí? Perguntaria afirmando o presidente da distópica Ilha de Vera Cruz. E daí que existem algumas opções para o presidente: o caminho do enfrentamento as instituições, vistas como corruptas e passíveis de serem extirpadas por um soldado e um cabo; um recuo programado como já foi feito inúmeras vezes, contando dessa vez com um apoio subliminar das forças armadas para lhe manter no cargo e a abertura de diálogo com o centrão, ávido por cargos, para lhe dar sustentação no Congresso; enfrentar um longo, doloroso e traumático processo de impeachment, caso as forças armadas não o tutelem; Renunciar, caso exista um posicionamento contrário a ele pelas forças armadas, o que não duvido que ocorra, principalmente com um general como vice-presidente; e por fim, a última opção não está sob seu controle e passa por uma revisitada ao que aconteceu nas últimas eleições brasileiras e na história dos presidentes americanos.
 
Em todos os casos da saída constitucional de Jair Messias, preparem-se para ver cenas mais fortes do que a retirada de Dilma do poder. Os jornalistas agredidos hoje, em um simbólico dia para a classe, representam os mesmos que foram encurralados por partidários de camisa vermelha há alguns anos.
 
É melhor já ir se acostumando...