A infância mal curada dos homens da 5ª série

19/04/2020

Por: THÉO ALVES
 
 
Em meio à situação conturbada pela qual nós – e por nós entendamos o mundo todo – estamos passando, as incertezas são frequentes e cada vez mais assustadoras. A cada novo infectado pela Covid 19, a cada nova vítima fatal da doença ou mesmo diante de qualquer rumor a respeito de possíveis novos casos, trememos frente ao que pouco conhecemos, ao que se avizinha como só nos filmes exagerados de Hollywood parecia possível. Talvez resida em dois aspectos a nossa dificuldade em compreender a realidade do que estamos vivendo: a de que esta situação só seria factível pela fantasia e a de que não consigamos enxergar os rostos e histórias por trás de cada pessoa adoecida.
 
Essa nova realidade de difícil compreensão tem se demonstrado mais grave em países cujas tendências totalitárias e negacionistas são tratadas como algo aceitável, a ser seguido, como é o caso do Brasil. Discutir a existência do vírus Corona neste momento é algo tão tolo e ridículo como as asneiras terraplanistas e antivacinistas que temos ouvido há mais tempo. 
 
A politização da crise de contágio é outro fator que tem nos distanciado – enquanto brasileiros – de algumas das questões fundamentais neste contexto: a busca por uma resposta, um plano, uma diretriz real que seja para a economia durante e pós pandemia, por exemplo. Não faz sentido dizer agora que “se as pessoas se mantiverem na quarentena, a economia quebrará”, isso porque já caminhávamos para cenários terríveis antes mesmo de sermos ameaçados pela onda de contágio e, agora, não há a menor dúvida de que essa economia de fato virá abaixo: com ou sem quarentena. 
 
Se essa preocupação com a economia é algo real, muito além da simples birra política burra, neste exato momento deveríamos estar fazendo outras perguntas: qual é o cenário para lidar com a situação em que estamos? Que planos estão sendo feitos para um redirecionamento dos parques industriais no país? Que novos alinhamentos estão sendo traçados para os mercados que ruirão e para os novos que vão surgir? Quem fabricará equipamentos de proteção hospitalar? Que engenheiros e fábricas serão redirecionados para a produção de equipamentos como respiradores? Que empresas passarão a produzir insumos para pesquisas de remédios e vacinas, já que a corrida para adquirir esses insumos de quem atualmente os fabrica é uma disputa perdida para nós, que assistimos à vertiginosa queda do valor de nossa moeda? Quanto ao crescimento dos serviços de entrega, o que faremos, como os equiparemos e de que maneira as leis trabalhistas retrocederão para proteger seus trabalhadores, hoje desamparados pela uberização do trabalho? Quem capitaneará as mudanças no mercado de tecnologia, nos serviços de internet, que tendem a ser ainda mais necessários em um mundo de teletrabalho, aulas e entretenimento online?
 
Claro que estas são questões secundárias diante da imensa e urgente necessidade de preservação de nossas vidas, de nossos familiares, amigos, colegas, compatriotas. Infelizmente, parecemos não estar sabendo lidar com isso também.
 
No entanto, aquelas são algumas das perguntas que não temos respondido porque estamos perdidos em disputas bobas lideradas por um presidente cuja idade mental encontra-se presa à quinta série. Uma péssima infância mal curada. Mas não penso que seja exatamente um líder o que nos falta. É antes de tudo um plano, um vislumbre e a aceitação dos desafios que virão diante de uma nova realidade que já está posta. É preciso apenas descortinar o ego, a burrice e o péssimo senso de oportunismo para poder, assim, proteger vidas agora e depois.