Bia Crispim

18/02/2022

 

NOSSO CORPO, NOSSAS REGRAS

Mulheres Trans NÃO PRECISAM ser iguais a mulheres cis. Até porque nenhuma de nós, Trans ou cis, somos. 

Apesar da moda, da indústria da beleza, da indústria da medicina estética dizer que todas têm que ter peitão siliconado, que todas devem ter cílios alongados, que todas devem fazer massagens redutoras, que todas têm de usar botox, que todas têm que colocar facetas nos dentes, que todas “têm que” ou “devem” se submeter a sei lá o que para dar lucro só para essas indústrias... 

Não, nós não “temos que”, nem “devemos” nos escravizar a nada disso.

Começo a coluna de hoje fazendo uma reflexão sobre nossos corpos. Especificamente sobre os corpos de mulheres Trans/Travestis, os quais sofrem os abusos estéticos muitas vezes pautados na premissa de que temos que parecer mulheres cis, se não, não somos autênticas, legítimas ou verdadeiras.

A verdade dos nossos corpos Trans é justamente essa: somos corpos dissidentes, somos corpos possíveis, somos corpos cujas regras não deveriam ser ditadas por essas premissas estéticas ou da obrigatoriedade de “parecer” uma mulher cis. 

Infelizmente, como todas as mulheres, nossos corpos são vigiados, julgados e impelidos a tais procedimentos, muitas vezes por uma questão de adequação as exigências externas. Muitas mulheres Trans, só serão socialmente compreendidas e interpretadas como mulheres se sua aparência tiver o ingrediente da “passabilidade”.

Para quem não sabe o que é isso, é quando uma pessoa Trans passa por uma pessoa cis sem levantar “suspeitas”. É o caso da mulher Trans que vai entrar e sair, sem nenhum constrangimento, de um banheiro feminino, sem que o proprietário venha expulsá-la de lá por que ela não é “ela”.

E essa passabilidade surge para uma mulher Trans/Travesti muito mais para conquistar e manter a condição de segurança e de cidadania (com direito simplório de ir ao banheiro feminino sempre que tiver apertada) do que como uma necessidade estética. Em busca dessa passabilidade, muitas de nós recorremos ao silicone industrial, às bombadeiras e à automedicação, muitas vezes procedimentos danosos e irreversíveis para nossa saúde e bem-estar.

 

Generalizar a ideia de que toda mulher Trans quer passar por inúmeros procedimentos médico/estéticos só para parecer uma “mulher de verdade” é uma construção do discurso da sociedade cisheteronormativa.

Gostaria de esclarecer, primeiramente, que as questões estéticas que nos fazem “parecer” algum modelo de “ser mulher de verdade” que a sociedade toma como única e intransferível não tiram o nosso direito de termos nossas identidades respeitadas. Não será um peito de silicone que nos fará mais ou menos mulher do que já somos. Segundo, por que não somos menos verdadeiras, ou cópias falsas da figura feminina tradicionalmente construída por essa mesma sociedade. 

Somos verdadeiras porque existimos nos nossos corpos dissidentes. Somos verdadeiras porque temos nossas histórias pessoais construídas a duras penas. Somos verdadeiras porque, coletivamente, lutamos e resistimos a essa máquina opressora e transfóbica que olha pros nossos corpos com o direito de dizer como eles, os nossos corpos, devem ser, como eles devem parecer e como eles devem se comportar.

Ah, e em que lugares, horários e períodos do ano eles podem estar à mostra ou em que momento eles podem ser excluídos definitivamente do “convívio social”.

Se antigamente, nós mesmas, mulheres Trans/Travestis, recebíamos essas exigências estéticas e essa ordens sobre nossos corpos como uma verdade, era por medo, era por nos compreendermos a partir da visão que os outros formulavam, postulavam e nos obrigavam a acreditar. Era por que a medicina dizia que éramos doentes, a psicologia e psicanálise prometia nos curar e a sociedade nos via na margem... Recebíamos todas as esmolas que nos empurravam.

Hoje, através do movimento de Trans/Travestis, da nossa presença dentro das universidades, da atuação das ONg’s e associações, não permitimos mais que sejamos aquilo que os outros falavam por nós. Não é mais os outros que dizem como devemos ser. Nos apropriamos das nossas vozes silenciadas.

Nossa tomada de consciência sobre nossas identidades, sobre nossas vidas e vivências, nossos estudos sobre nós mesmas promoveram e promovem a grande revolução das mulheres Trans/Travestis, a revolução da nossa consciência, a revolução do direito de termos nossos corpos dissidentes autênticos, possíveis e verdadeiros, em que os procedimentos estéticos não são mais premissas de obrigatoriedade e legitimidade desses corpos, mais sim, uma escolha. Boto peito se quiser (e tiver como pagar!), mas não sou mais obrigada a isso, porque hoje, quem dita as regras para nossos corpos somos nós.