Bia Crispim

10/12/2021

 

JÁ É DEZEMBRO. VAMOS FALAR DE AMOR AO PRÓXIMO?

Dezembro chegou, as festividades estão disputando uma data no calendário, o clima natalino de “amor ao próximo” se reavivando, muitas famílias se reunindo... Enfim... O clima é de festa, e também de reflexões, como diz a cantora Simone em seu ícone natalino: “Então é Natal, e o que você fez?/ O ano termina e nasce outra vez.”

 

Entra ano e sai ano, o Natal se repete, o clima natalino se renova, a compaixão diante da pobreza e da miséria também renascem em formas de ações voluntárias e doações... Sabemos de tudo isso. Mas é triste constatar, também, que quando o ano “nasce outra vez”, tudo isso é esquecido e substituído pelos nossos orgulhos, pelos nossos individualismos, pelos nossos preconceitos, e a pela falta de empatia e solidariedade nossa de cada dia.

 

Os sentimentos que afloram nesse período, o acolhimento, os sorrisos e o amor dado e recebido por aqueles que voluntariamente se reúnem e se confraternizam no Natal e nas festividades de réveillon morrem com a queima dos fogos. Sei que estou generalizando, mas, é importante refletirmos sobre generalizações... Elas pressupõem naturalização de certos comportamentos e atitudes que colocaremos em ação até dezembro do ano seguinte, quando novamente, o Espírito Natalino nos torna cristãos sensíveis à dor do outro.

 

Vou utilizar outro trecho do ícone natalino simoneano para fazermos mais uma reflexão. Na canção há uma estrofe que diz: “Então é Natal, pro enfermo e pro são/ Pro rico e pro pobre, num só coração/ Então bom Natal, pro branco e pro negro/ Amarelo e vermelho, pra paz afinal” Muito linda essa mensagem de igualdade e confraternização entre polos antagônicos da nossa existência. Etnias, cores de pele, pessoas de condições sociais tão distintas vivendo harmonicamente “num só coração”, cultivando “a paz afinal” durante o mês de trégua (ou seria a quinzena de trégua?) soa lindo demais, porém utópico.

 

Quantas pessoas por estarem enfermas, por serem pobres, por serem pretas, amarelas ou vermelhas, por serem dissidentes quanto ao gênero não desfrutarão desse amor natalino? Quantas dessas pessoas não estarão no Natal ou no réveillon festejando, mas sim na sarjeta, na solidão, no desamparo, na fome e na miséria, esquecidas? Quantas? Quantas pessoas ditas “minorias” (tenho pavor a esse termo, prefiro chamar de minorizadas) não passarão esse final de ano nas mesmas condições que viveram o ano todo e que viverão durante o ano que se aproxima? (Sozinhas, sem condições mínimas de dignidade; precarizadas, vulnerabilizadas e abandonadas à própria sorte?) 

 

Quantas pessoas Trans e Travestis não serão lembradas, nem acolhidas, nem convidadas para a festa da empresa, dos amigos/as/gues, da “família”, da sua própria família que, reunida, comemora o nascimento do Cristo? Que ceia e festeja em nome de sentimentos aparentemente tão grandiosos e significativos, mas que escondem tanto desamor, tanto desafeto, tanta discriminação e ódio por outros seres humanos.

 

Essas provocações me levam (e convido você a refletir junto comigo) a pensar que o Natal não foi feito pra todo mundo, e que o espírito natalino, cristão e de compaixão são sazonais para corpos e existências pretas, pobres, LGBTQIAPN+, indígenas, migrantes, corpos encarcerados, ou “livres demais”, vagando nas ruas desse país. Constatar isso é muito doloroso. 

 

O convite fraterno para as comemorações que mal cabem no calendário não chegará para muitas pessoas. Não chegará da empresa para a pessoa desempregada, nem dos amigos/as/gues para a “esquisita” pessoa Trans que está transicionando ou que já transicionou, nem da família que esqueceu até da existência de alguns parentes... 

 

Mais uma vez digo: “Estou generalizando” e é justamente para isso que chamo a atenção: tudo que se generaliza é uma constatação de uma visão global, panorâmica e naturalizada de certas experiências, vivências e ocorrências que se materializam no nosso cotidiano. Episódios, cenas, comportamentos que de tanto se repetirem, passamos a enxergar como sendo “normais”, “naturais”, que “é assim mesmo”.

 

Não devemos naturalizar o preconceito, a discriminação, a exclusão, a invisibilidade, a falta de amor, de empatia e de solidariedade ao próximo em momento algum. Sobretudo no Natal, quando deveríamos nos espelhar no dono da festa, no Cristo que pregou justamente o contrário de tudo isso, no Cristo que nos deixou o maior ensinamento e que infelizmente, muitos de nós não colocamos em prática: O amor ao próximo.

Dito isso, convido Simone para encerrar a coluna de hoje, reforçando a ideia de generalizarmos a felicidade, a harmonia, a paz, a solidariedade, a empatia, a união e o amor entre todas as pessoas. (Utópico, você dirá com certeza. Mas afinal, é Natal e o desejo de um mundo melhor é um presente que gostaria sim de ganhar do Papai Noel.) “Então, bom Natal/ E um Ano Novo também/ Que seja feliz quem/ Souber o que é o bem.”