Bia Crispim

22/10/2021
 
Morta com um paletó e um lápis de olho 
 
De acordo com matéria publicada em 26 de junho desse ano no site opovo.com.br: “O termo "travesti", ... , constitui uma identidade de gênero própria, que está no espectro das feminilidades e é entendido como parte da cultura local. Há debates, entre quem estuda o tema, se seria aplicado somente ao Brasil ou, de maneira mais ampla, a outras identidades transfemininas em países da América Latina.” E, se nos identificamos, nos referenciamos e nos apresentamos com uma identidade feminina, que assim sejamos respeitadas. 
 
Não é o que acontece no dia a dia, infelizmente, de pessoas Travestis e de pessoas Trans. Pelo contrário, a falta de respeito diante de quem somos, diante da nossa autoidentificação é uma constante. Recebemos doses diárias de ilegitimação, de dedos, olhares e discursos os quais nos apontam como falsas mulheres ou falsos homens, no caso das identidades transmasculinas. Vivemos uma luta diária de defesa das nossas próprias identidades, das nossas vivências e existências. E nem mortas nos deixam partir em paz.
 
Talvez vocês tenham ouvido falar de Alana Azevedo, uma Travesti de Aracaju/SE que foi enterrada pela família vestindo paletó e gravata. E se, nem nessa hora ela foi respeitada, vocês podem imaginar o que ela não sofrera viva?! Se a família não a aceitava como sendo uma Travesti em vida, morta é que não dariam o braço a torcer. E se você que me lê acha que o paletó foi suficiente, imagine-a, Lana (como assim era conhecida pelas amigas), Travesti, de bigode e cavanhaque feito a lápis de olho. 
 
Não! Não era uma mãe pintando seu filho ainda infante para brincar o São João da escolinha. Não! Não era uma brincadeira de se masculinizar para sair bem na foto ao lado da rainha da quadrilha vestida de laços e de fitas e sardinhas também feitas de lápis para ficar mais graciosa... Não! Era uma Travesti sendo velada e enterrada como se sua identidade fosse outra. E isso não é brincadeira. Isso não é para rir. Isso é um pá de terra legítima sobre a identidade nunca aceita por uma pseudo-família.
 
Aracaju, cidade onde ocorreu o fato, é a mesma em que nas últimas eleições deu 5.773 votos à candidata do PSOL Linda Brasil, a mais votada. Espantoso como até nisso o Brasil é um país de opostos. Se por um lado somos o país com o maior índice de violências e assassinatos de pessoas Trans/Travestis, também somos o país de maior consumo da chamada pornografia Trans e com um número expressivo de candidaturas Trans/Travestis na história das eleições diretas de um país. O Brasil não é para amadores, minhas senhoras e meus senhores.
 
Linda Brasil, em entrevista datada de 14 desse mês para a página Universa do site Uol, afirma: "Achei um verdadeiro absurdo esse desrespeito para com o que ela foi durante sua existência. Ela era engajada, batalhadora, sempre aparecia na Câmara de Vereadores para buscar soluções e ajuda para os que mais precisavam"
 
A página Universa ainda revela que Alana morava sozinha em um bairro periférico de Aracaju, numa casa simples e em condições precárias. Diz ainda que ela recebia cesta básica da Casa Janaína Dutra, uma instituição de ajuda e amparo a portadores de HIV, vírus com o qual convivia Alana. Sua mãe, que já havia falecido, era a única figura feminina da família com quem contava. Da família, restaram apenas o pai e um irmão, que não aceitando a condição da filha e irmã, mataram-na pela segunda vez com um paletó e barbicha e bigodes feitos a lápis de olho. 
 
A diretora da organização Transunides, a transexual Jéssica Taylor declarou para o Universa: "Não é fácil sobreviver como uma mulher trans num mundo tão repleto de ódio e preconceito. Ela foi abandonada pela família e, no momento da despedida, ainda fizeram isso com ela. Impossível não se indignar"
 
Indignação e pedido de justiça é o mínimo a se esperar de uma sociedade que se diz democrática. O corpo de Alana foi vilipendiado. Para quem não sabe o que seja vilipendiar, “trata-se de verbo transitivo direto que significa destratar ou humilhar; tratar com desdém; fazer com que algo ou alguém se sinta desprezado ou desdenhado; menosprezar; julgar algo ou alguém por baixo; não validar as qualidades de; ofender através de palavras, gestos ou ações.”, define o site jus.com.br.
 
Já está na hora de “vilipendiar” deixar de existir no cotidiano de Travestis e pessoas Trans, estando elas vivas ou mortas.