Bia Crispim

13/08/2021
 
E quando uma travesti se reencontra com amigos de infância?!
 
Para qualquer pessoa encontrar-se com amigos de infância, que permanecem seus amigos até a fase adulta, mas que, pelos caminhos traçados por cada um, perderam a convivência, é sempre um motivo de festa.
 
Colocar os assuntos em dia, relembrar fatos... a memória viaja para momentos ímpares vividos juntos, muitos engraçados, outros nem tanto, mas, momentos que não são só seus, mas de uma coletividade fraterna, como aqueles dos tempos de escola, os primeiros namoros, as brigas, as festas, os costumes e as modas de outrora...
 
Porém, para uma pessoa que passou por transições de gênero, como é meu caso, esses encontros são atravessados por outras questões. Vou exemplificar.
 
Essa semana, um grande amigo esteve na casa dos meus pais e logicamente que eu fui acionada (através de vídeo chamada) para partilhar a alegria de termos um amigo de infância, quase irmão, quase filho para meus pais de volta ao lar, depois de tantos anos afastados (ele mora em outro estado há alguns anos). 
 
No meio da conversa surgiu um “Vamos marcar de nos vermos!”, proposta prontamente aceita visto que juntaríamos mais alguns amigos em comum, que a escola e a vida nos deram de presente. Até que, pela empolgação (sei que não houve nenhuma intenção de me ferir) surgiu um “Quero Juninho nesse encontro!”. Constrangida, permaneci calada, mas sorridente, afinal, o clima era de festa!
 
Poucos dias depois, uma outra amiga, que estava na organização dos preparativos desse encontro, entrou também em contato comigo e cometeu a mesma garfe. Nos dois momentos, eu me senti muito constrangida, pois tive o impulso de dizer que, infelizmente, aquela pessoa que estavam esperando, não iria comparecer ao encontro, porque, hoje, aquela pessoa já não mais existe.
 
Ela ainda colocou: “Mas pra mim isso é só um nome!” Aí, me permiti explicar a ela que a questão é justamente essa, não são somente nomes, são identidades, são subjetividades, alteridades, autonomias de/para ser quem se é... 
 
Sem querer (na maioria das vezes) elas (as amizades de infância e até mesmo familiares) deslegitimam quem nós nos tornamos, e às vezes não entendem as frustrações, as lembranças, os traumas que um nome pode carregar, como também a potência que está na construção de uma nome que origina uma identidade a qual passou pelo processo de transição.
 
Ser reconhecida como Bia é ser respeitada da maneira como me reconheço enquanto pessoa. E isso está além do gênero, além da sexualidade, além do corpo... É uma questão existencial. 
 
É muito difícil para uma pessoa Trans/Tavesti existir, em todos os âmbitos. Estamos o tempo todo lutando para SER quem SOMOS. Lutando por reconhecimento, lutando pela própria identidade, lutando pelo direito de ser chamada e atender aos outros por um nome que tem uma representação potente na existência de uma pessoa que passou ou passa por transições.
 
Não estou aqui julgando ou culpando ninguém, sobretudo meus amigos e amigas (e/ou familiares), mas estou deixando um alerta para que não deixem os “costumes” falarem mais alto do que o amor e o respeito cultivado nas relações de afeto, convívio, amizade e familiaridade. Respeitar quem nos tornamos é um passo importante para o bom convívio.
 
Entenderam por que falei que encontrar amigos de infância com quem não se convive diariamente não é tão simples para uma pessoa Trans/Travesti? Os “costumes” do passado podem criar situações constrangedoras; às vezes, fáceis de serem resolvidas (se processadas com respeito e carinho); às vezes, motivos de afastamentos e rupturas.
 
No meu caso, o encontro está de pé!