Bia Crispim

30/10/2020
 
Encantamentos de um escritor
 
Guimarães Rosa, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, disse: “O MUNDO É MÁGICO – AS PESSOAS NÃO MORREM, FICAM ENCANTADAS”
(E se a pessoa que morreu for um escritor??? Ela também se encanta quando morre???)
 
Acho que o encantamento de quem escreve começa antes, ainda em vida, quando a morte é, tão somente, um susto, um pesadelo, um destino longínquo, uma sombra, uma personagem que se apresenta num livro qualquer ou um destino, sempre do outro, porque há tanta vida dentro de um escritor que não cabe numa existência só e nem a morte dá cabo, pois o escritor fica no papel, fica na memória do povo, fica na boca, vira língua. Não deixa nunca de SER.
 
(Será que um escritor morre mesmo??? Tô começando a achar que não.) 
 
O encantamento do “não morrer” é só mais um, é parte de tantos encantamentos seus, é essência, tá na composição de quem escreve. 
(Consegue nem morrer, um escritor! – tô quase tendo certeza.)
 
Os encantamentos de um escritor voam feito pipas, movem-se como brancas dunas, numa leveza tão infinita que parecem coisas nem humanas, coisas de fada, coisas de sonhos, coisas mágicas.
 
Seriam eles, os escritores, bruxos, magos, feiticeiros, seres que brincam com o tempo, com a vida, com as palavras, com as invencionices todas, que criam tantos mundos que faz os deles eternizarem-se? 
 
Escritores vivem tanto! Vivem pra sempre! (Agora tenho certeza!) Estão perpetuamente impressos de tantas formas (no papel, digitalmente, em nós), em tantas superfícies (papel, quadro, tela, palco), em tantos corpos, olhos, ouvidos e memórias.
 
Essa semana um escritor potiguar encantou-se, como diz Rosa. Eternizou-se, como eu digo aqui. Seu nome é Júnior Dalberto e ele fez uma travessia. Sua travessia. Chegou noutra margem, noutro mundo que ainda não temos acesso, mas que, certamente, um dia teremos, porque, como escreveu Rosa “ viver é etcétera...” e essa travessia faz parte disso. 
 
Uso Rosa pra falar de Júnior, porque ninguém como um grande escritor pra traduzir um outro. Ninguém como um criador de mundos para decifrar seu semelhante. E por falar em mundos, será que Júnior habita agora um dos mundos que ele criou? Espero que sim, e que seja o mais mágico de todos!
 
SALVE O ETERNO JÚNIOR DALBERTO!