Bia Crispim

07/08/2020
 
Com que pai se faz uma campanha do dia dos pais?
 
 
Desde que a empresa de produtos cosméticos NATURA iniciou sua campanha de dia dos pais de 2020 um alvoroço de comentários, muitas discussões acaloradas e um derramamento de ódio gratuito brotaram feito erva daninha nas redes sociais. Motivo: entre os pais da campanha, há um homem trans PAI.
 
Pois é! Chamo de erva daninha porque assim como elas, a maioria dos comentários e as reações de muitos tomaram de conta do jardim da NATURA de forma danosa, asfixiando o que há de mais bonito nessa peça publicitária: a representatividade de tipos de pais diferentes. Na propaganda, PAIS que assumem sua paternidade, que participam ativamente da educação e dos cuidados com seus filhos, figuram como as estrelas desse comercial (como era de se esperar) e entre eles está Tammy Miranda, homem trans que há poucos meses se tornou PAI de um belo menininho.
 
O grande alvoroço, como disse, se deu pelo fato de Tammy ser um PAI sem pênis. E isso pareceu inadmissível para uma parte considerável da população, sobretudo para os seguidores de alguns líderes religiosos que clamaram aos seus fiéis o boicote à empresa.  
É estarrecedor o quanto um líder religioso, que se diz cristão, pode promover apenas ódio, intolerância e preconceito. 
 
Nenhum PAI, de nenhuma campanha já existente no Brasil, precisou mostrar que tinha pênis para vincular sua imagem à imagem de uma determinada empresa. E isso é o que mais chama atenção nessa discussão. O problema de Tammy é a ausência de uma parte do corpo que o comercial não mostra, que ninguém mostra, a não ser em seus momentos de intimidade com outra pessoa. 
 
Acessando o site do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família, encontrei um artigo de 07 de agosto de 2019, que inicia assim: “No próximo domingo, é comemorado o Dia dos Pais. No entanto, um número muito grande de crianças e adolescentes não tem motivos para festejar a data. De acordo com o último Censo Escolar, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ e divulgado em 2013, há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento. Isso traz um debate de como devemos encarar a paternidade no século XXI e superar a referência de pai provedor.”
Fiquei estarrecida com essa informação.
 
E diante dessas duas questões: o não-pênis do PAI Tammy e o número de NÃO-PAIS homens com pênis, vejo que a sociedade desperdiça muito do seu tempo preocupando-se com questões tão minimamente importantes quando, na verdade, deveria estar discutindo coisas muito mais questionáveis e mais preocupantes para a sociedade que a aparição de um homem trans PAI num comercial de perfumaria... 
 
O debate sobre paternidade, sobre machismo tóxico, sobre novas configurações familiares, sobre os espaços que poderiam ser ocupados por pessoas trans na sociedade, sobre estratégias de frear a disseminação do discurso de ódio, de radicalismos e de violências gratuitas, deveria sim, ser levado a sério. Deveria ser discutido acaloradamente pela sociedade, tornando-a, a meu ver, muito mais saudável e respeitosa com todas as diferenças. 
 
Esses debates deveriam brotar a todo instante, não como ervas daninhas, mas como belas flores, como frondosas e frutíferas árvores, que com suas diversas cores, formas e seus perfumes pudessem nos dar várias lições, entre elas, a de que podemos conviver no mesmo espaço com seres diferentes de nós mesmos, a de que somos plurais e diversos, e a de que juntos, somos mais belos.
 
Feliz dia dos PAIS para todes aqueles que assumiram esse papel!
 
Feliz dia dos PAIS para meu PAI (pai de 6 filhas, entre elas, eu, uma mulher trans), homem que me ama e a quem amo incondicionalmente, pelo Pai que soube ser, pela admiração e respeito que tem por mim e pelo amor que me acolhe a cada encontro nosso.