Atravessando as travessias dessa longa estrada

19/08/2021

Por: SANDRA DUTRA
 
Quando você foi embora / Fez-se noite em meu viver / Forte sou, mas não tem jeito / Hoje eu tenho que chorar
 
As músicas de Milton Nascimento sempre soaram como hinos pra mim. As lindas letras, as belíssimas melodias e cada detalhe nos arranjos musicais me deixam até hoje simplesmente encantada pela sua obra. A canção Travessia, cujo trecho coloquei acima, faz com que eu me arrepie assim que ouço a voz forte e ao mesmo tempo serena do Milton. Escutando-a essa semana, muitas coisas vieram em minha mente. Uma delas é de como devemos seguir adiante mesmo com a tempestade batendo em nossas caras e nos partindo em pedaços. Mesmo com algumas pessoas indo embora e fazendo noite em nosso viver. Apesar de tudo isso, sempre é possível recomeçar!
 
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares: é o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. Escreveu o imortal Fernando Pessoa. 
 
Tanto a canção do Bituca quanto a poesia de Pessoa causam grande impacto no meu ser e me fazem pensar profundamente sobre a vida e as nossas escolhas. Muito é necessário a se fazer, e tantas vezes ficamos presos à margem de nós mesmos ou, pior, à margem do outro. 
 
Uma das grandes travessias de nossas vidas é nos afastarmos de quem nos faz mal, nos causa sofrimento – qualquer que seja – para continuar seguindo nossas vidas e cumprir nossa missão aqui nessa Terra.
 
Sabemos, amigos, que há pessoas que, basta olharmos para elas, sentimos uma paz inexplicável, um bem-estar que não sabemos ao certo de onde vem, tampouco por quê. São pessoas tão iluminadas, que me atrevo a chamá-las de anjos que vieram nos auxiliar. Ao mesmo tempo, há outras que só de ouvirmos falar o nome um mal-estar invade o nosso ser, e passamos o dia com uma sensação estranha, ruim, com dores no corpo, entre outras coisas. 
 
Há pessoas que são tão tóxicas, mas tão tóxicas, que não nos contaminam pelo fato de falarem. Isso não! Mas o modo como falam, como lançam suas vozes e suas palavras mundo afora é realmente muito perturbador. Agora, imaginam se convivermos com elas?!
 
Isso vale para qualquer relação. Ouço muito pessoas, e pessoas teoricamente esclarecidas, dizendo: Ah, mas ela é sua mãe, você não pode abandoná-la! / Mas ele não é seu irmão? Você vai ter coragem de deixá-lo na rua da amargura? / Ela é da família. Temos que ir na casa dela. / Ele pode ser o que for, mas é seu pai!
BASTA!!!! Basta dessa lavagem cerebral e de tanta chantagem emocional!
 
Tóxico é tóxico, isso nem deveria ser uma discussão tão densa! Até porque quem é tóxico já tem uma energia densa por demais! E não é de nossa obrigação carregar essa energia tão pesada nas costas, muito menos ter que lidar com essas pessoas. E, acreditem, essas pessoas dificilmente mudam!
 
Escutava minha tia falar: eu daria tudo que tenho, ficaria nua se soubesse que iria ter paz de espírito. Ela disse isso muitas e muitas vezes. Ela sabia muito bem que a paz é algo que não se compra, não tem e jamais terá preço. E, sinceramente, se pra ter paz é preciso que eu me afaste de tudo aquilo que me faz mal, assim farei. Sem remorso, sem olhar pra trás, sem culpa.
 
Como diz um trecho de Travessia: Vou seguindo pela vida me esquecendo de você /  Eu não quero mais a morte / Tenho muito o que viver
 
VIVER!!! Que verbo mais incrível e lindo!!! Felizes dos que sabem viver a vida com alegria e sabedoria! 
 
Sigamos as nossas vidas esquecendo as coisas ruins das quais fomos vítimas. Mas também, sejamos vigilantes para não cairmos nas ciladas que as vida nos traz. Umas, como testes de resistência; outras, para tentar nos afundar. Mas o essencial é que não desistamos, que continuemos seguindo nas travessias dessa vida. Afinal, a vida é uma linda dádiva do Universo!