Biografização: atividade alternativa para o autoconhecimento

20/06/2020

Por: Andrezza Tavares
Foto: Site de busca da Internet

   

Biografização: atividade alternativa para o autoconhecimento

     Entrevista desenvolvida por Priscipla Tiziana Seabra Marques da Silva Aliança, professora e pesquisadora do IFRN, Doutoranda do PPGEP/IFRN, para o Portal de Jornalismo Potiguar Notícias que escreveu sobre “biografização: atividade alternativa para o autoconhecimento”.

1. Qual a relação entre a “narrativa de si” e o sentido da própria existência?

    O filósofo francês Paul Ricoeur ressalta que é quando a gente narra o que viveu que a gente consegue dar sentido ao que foi vivido. É como quando alguém pega um novelo de linha e começa a bordar, a transformar a linha num desenho.

2. Explica a metáfora pontuada anteriormente que compara a atividade criativa de bordar com o exercício de narrar:

    A linha é o vivido. O processo narrativo é o processo de bordar que ocorre quando a linha vai sendo configurada numa trama que faz dela uma flor, ou um passarinho, ou uma frase. Então, quando essa pessoa termina, ela consegue tomar distância do sentido que ela construiu e decidir o que fazer com ele: manter o bordado ou mudar alguma coisa. O material é o mesmo, é tudo linha do mesmo novelo, mas o desenho, como foi construído pela pessoa, pode ser reconstruído, com novos sentidos.

3. Em poucas palavras, qual o potencial da biografização para o autoconhecimento de si?

   Neste momento tão incerto da nossa história, a biografização é um exercício que permite que a pessoa dê sentido a essas angústias todas.

4. Compartilha com os interlocures desta entrevista uma situação aplicada de biografização que chamou a sua atenção recentemente?

    Vou dar um exemplo. Há alguns dias eu ouvi um episódio de um podcast com três jovens negros discutindo a pauta antirracista das manifestações recentes. Foi mais de uma hora de uma descrição revoltante de toda uma dinâmica monstruosa de abandono e morte. Eu cheguei a chorar de tristeza. Os três ativistas narraram vivências absolutamente injustas e violentas. No começo, a revolta parecia um nó na garganta de cada um, dava para ouvir na voz. E sabe como foi o final? Eles riam! Riam, agradecidos por terem compartilhado aquelas histórias, por terem narrado tudo aquilo numa experiência de comunhão entre eles e com os ouvintes. Uma disse textualmente “eu estou tão feliz!” Eles não organizaram nenhum documento, eles não articularam nenhum protesto: eles narraram suas vivências, tão somente. Mesmo assim o tom, no final, não era de impotência diante do racismo estrutural e do descaso com as periferias, era de esperança e energia para a organização e a luta. Esse é o poder da biografização.

5. Os registros realizados pelas pessoas nas redes sociais, assim como, os registros realizados nas agendas ou nos diários de uso pessoal são dispositivos para praticar a saudável “narrativa de si”?  

    Uma prática bastante representativa da biografização, da narrativa de si, é escrever num diário. Nem sei se ainda se vendem aqueles caderninhos com cadeado, será? [risos] É uma prática que ajuda a gente a "botar as ideias em ordem", como se diz. Mas os textos dos diários podem vir em diversas plataformas, em diversas mídias. Nosso Instagram é um registro da nossa vida que combina imagem e texto. Vídeos dos nossos "stories" com cenas do nosso cotidiano, com nossos desabafos, com compartilhamento de notícias, também são biografização. Desenhar, fotografar, escrever, fazer colagem, tudo isso tem um potencial importante de ajudar a gente a ir construindo sentido em meio a tanta incerteza, tanta instabilidade, tanta angústia. Ajuda a gente a se perceber autor e protagonista da nossa história num momento tão delicado.

6. Além de pesquisar sobre a temática “narrativas de si”, a professora e pesquisadora Priscila Aliança tem aproximado o objeto de estudo de seu cotidiano de isolamento social? Comente.

    Particularmente, eu tenho um diário pessoal, um diário de pesquisa, minhas redes sociais (inclusive uma conta no Instagram dedicada às minhas reflexões profissionais) e estou aprendendo a fazer "lettering" (arte de desenhar letras). Eu não uso todos o tempo inteiro, eu alterno de acordo com as minhas possibilidades. Quando me sobra um tempinho e alguma energia, eu pego o trecho de uma música que representa o que eu estou sentindo, ou uma frase que eu tenha lido num livro e tento escrever com um estilo bonitinho, com lápis de cor e tudo! [risos] É o que tem me ajudado a permanecer em contato comigo mesma, é um momento lúdico em que meu corpo e minha alma estão ali presentes e unidos. Tem me ajudado a dar um sentido a essa loucura toda. E olha, chorar faz parte do “pacote pandemia”; ficar angustiado, sem esperança, com medo está na ordem do dia sim, porque os tempos estão SIM muito difíceis e não adianta maquiar esse fato. Mas as lágrimas, a angústia e a desesperança podem também se transformar em linha na nossa mão para a gente bordar alguma coisa que traga a nossa paz de volta.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Priscipla Tiziana Seabra Marques da Silva Aliança