Liliana Borges

11/07/2020
 
ATALAIA, Dondoca Maria!
 
A freguesia de Atalaia está situada no Distrito de Setúbal e inserida no Concelho do Montijo, a 33 Km de Lisboa, com uma população de aproximadamente 2.239 habitantes (2011). Eu tive o prazer de conhecer com a Professora Zélia Duarte que lecionou a disciplina Turismo e Lazer pela Universidade Sénior, neste último ano letivo, em parceria com a Escola Profissional do Montijo, representada pelo Diretor e Professor Óscar Cabral, responsável pelos Cursos Técnicos de Cozinha e Pastelaria e, Restaurante e Bar, quando na ocasião participei de um Workshop sobre Introdução a Prova de Vinhos.
 
Esta Escola realiza aulas práticas no espaço cedido pela Sociedade Círio Novo de Atalaia. Alguns dias da semana abrem suas portas ao público oferecendo almoços com preços acessíveis, os quais são elaborados e servidos pelos alunos com a orientação dos seus instrutores renomados na Arte da Culinária e Restauração (restaurantes e afins). No final de 2019 tive a oportunidade de retornar para conhecer esta preciosa atividade, onde o tema foi “Natais do Mundo”. Excepcional! Tanto na qualidade, apresentação e sabor dos pratos quanto ao atendimento realizado. Conhecendo a pitoresca freguesia, vale desfrutar destas deliciosas iguarias, porém é necessário a marcação e efetuar o pagamento da taxa no ato da reserva na Escola Profissional do Montijo.
 
Segundo registros e historiadores, Atalaia era um lugar de passagem para o Alentejo, devido sua proximidade com a Estrada Real que ligava Lisboa a Badajoz, na atual Espanha, onde foi caminho de monarcas e personagens ilustres rumo a fronteira ou ao sul do país. Desde 1249, encontram-se referências como “carreira da Atalaia” ou “caminho de carros”. Além de ter sido rota de passagem, havia um grande movimento populacional provocado pela fé e religiosidade, pois o Santuário da Atalaia já existiria anteriormente a 1470 e as romarias, provavelmente, iniciaram em 1507. Até hoje é referência no turismo religioso na Europa.
 
Naquela época havia uma conjuntura de doença e devastação, as comunidades próximas da região pediram à virgem que os protegessem da peste, assim após a graça alcançada, as pessoas de várias localidades começaram, em grupo, dirigirem-se em oração para agradecer à Virgem. Levavam consigo uma grande vela de cera, denominada por círio, para pagarem suas promessas.  Nasceu então a Festa da Atalaia que por juntar tanta gente passou a ser chamada de “Festa Grande”, era o maior evento religioso daquele tempo. A tradição ainda se mantem, celebrada no último final de semana de agosto.
 
Sua atividade econômica estava voltada para a agricultura, produção de vinho e azeite que alavancou o povoamento na região. Apesar que parte da população era sazonal com a imigração de trabalhadores rurais que vinham do norte do país para trabalhar nas plantações e no fabrico dos produtos derivados, apenas permaneciam na região em determinados períodos relativos as suas ações laborais, mas alguns foram constituindo famílias, fixando-se nesta terra. Eram conhecidos como “ratinhos” porque vestiam roupas na cor cinza e ficavam todos juntos trabalhando curvados em decorrências de seus afazeres, vistos de longe pareciam grupos de ratinhos no meio das searas douradas.
 
Haviam grandes propriedades rurais que impulsionaram o desenvolvimento da região. Entre elas, a Quinta Nova de Atalia, com alusão nos registros históricos desde o Século XVIII, pertenceu a vários proprietários. Entretanto, nos anos 90 os terrenos que no passado eram cultivados olivais, vinhas, pomar e hortas foram objeto de um loteamento urbano, porém foi condição da Câmara Municipal do Montijo que o edifício principal fosse preservado, como também, incorporado ao Patrimônio Municipal com o fim de sua musealização, procedendo-se o Museu Agrícola de Atalia.
 
Neste Museu podermos fazer uma viagem no tempo conhecendo o trabalho no campo de nossos antepassados. Possui um rico acervo de instrumentos agrícolas, equipamentos da época, e somados a representações de lagares, lugar onde se pisam os frutos, como a uva e azeitona, para separar a parte líquida com a finalidade de produzir o vinho e o azeite. Destacando-se um lagar de azeite mecânico da primeira metade do Século XX que estando em boa fase de conservação, funciona demonstrando o processo de produção. Ademais, temos a honra de visitas guiadas pela museóloga Fátima Contramestre nos brindando com seus vastos conhecimentos. 
 
Retornando para nossos dias, não poderia deixar de mencionar a “Dondoca Maria”, uma marca portuguesa criada e registrada pela artista plástica Lídia Ramalho, onde seu atelier está situado na Atalaia. Após sua aposentadoria, como Professora Secundária de Secretariado e Informática, procurando ocupar seu tempo, em uma noite, foi para garagem de sua residência e começou a pintar medalhas. Sua filha e alguns amigos, incentivaram-na a divulgar estas peças nas redes sociais com o intuito de difundir a sua arte e, consequentemente, se fosse do agrado, comercializaria as lindas peças.
 
Portanto, depois de bastante resistência acabou por ceder. Nasceu então a “Dondoca Maria”, com o tempo evoluiu para outros acessórios femininos, como uma vasta variedade de bijuterias, malas (bolsas) e cintos, customizados. Ainda, cabe ressaltar que são peças únicas, personalizadas, pintadas ou bordadas a mão com muita sofisticação, porém com preços justos. Hoje é uma grife portuguesa com alcance internacional, estes mimos são demasiadamente cobiçados pela maioria das mulheres e, além do mais, são de muito bom gosto.
 
 Aproveitando para visitar esta freguesia não deixe de subir as escadarias até o Santuário de Nossa Senhora da Atalaia, uma colina com 60 metros de altitude que lhe presenteará com uma das mais belas vistas do Rio Tejo e da Região. 
 
Simplesmente bela…