Arthur Dutra

08/04/2020
 
Os verdadeiros heróis dos tempos de escuridão 
 
No desejo de examinar outros assuntos para fazer esse pequeno texto, cujo tom é bem diferente do que habitualmente escrevo em artigos e posts, fui me reencontrar com uma das mais belas e edificantes passagens bíblicas: o Sermão da Montanha, insculpido na Sagrada Escritura pela pena de São Mateus no capítulo 5 do seu Evangelho. “Bem aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”, disse Cristo aos homens da Galileia, que não são tão diferentes de nós que estamos por aqui hoje. Esta é uma lição profunda e repleta de significados. Uma mensagem verdadeiramente universal e, ademais, bastante útil. Narrativas épicas foram construídas em torno dessa preciosa pregação; exemplos temos aos montes na história real da humanidade; e a arte dos grandes mestres criaram personagens carregados dessa humildade simplória que ao final prevalece sobre as armadilhas da soberba e da prepotência. E aqui eu quero trazer dois exemplares genuínos que ilustram, na literatura e na música, a mensagem de Jesus na Montanha. Acredito que são imagens bem oportunas para esta hora tão angustiante. 
 
No universo fictício repleto de seres poderosos, sábios e mágicos criado por J. R. R. Tolkien, a Terra Média, é um pequeno e simplório Hobbit que salvará a todos das trevas do Senhor de Mordor, o maligno Sauron. Tanto na trilogia “O Senhor dos anéis” como em “O hobbit”, duas obras lapidares, é um pequeno Hobbit (Bilbo e Frodo Bolseiro) que será o instrumento da salvação. O menor dos seres da Terra Média, um simples habitante de uma vila distante e alheia aos acontecimentos misteriosos do seu mundo, será o protagonista quando tudo parecia perdido. É a bem-aventurança maior, o triunfo da humildade do sujeito que não pediu para si o papel de herói, mas que, chamado pelo destino, não se furtou a empenhar sua coragem no momento crucial. E sem perder a pureza d´alma. Gandalf, o mago, ao justificar a escolha de um ser tão minúsculo e simples para tão perigosa e quase impossível missão, diz que não são as grandes forças, em tudo incontroláveis, que salvam o mundo, e sim os pequenos atos de bondade do dia a dia que vencem o mal que existe espalhado por aí. E é justamente o que acontece nessa fantástica história. 
 
Richard Wagner era um anarquista, mas também um gênio da música. Sua derradeira obra tem por base justamente o simplório de que falou Jesus na Montanha. Parsifal, a última ópera composta por Wagner, conta a história do jovem da floresta que está destinado a vencer o mal. Os Cavaleiros Templários, que ficaram encarregados de guardar o Santo Graal, o cálice que colheu o sangue de Jesus, e a lança do soldado romano que perfurou o lado de Cristo na crucificação, foram enganados por Klingsor, um ser das sombras que foi rejeitado pela Ordem por ter o coração impuro. Em vingança, ele atraiu os Templários para seu jardim enfeitiçado, distraiu o rei Amfortas, guardião do Graal, com a sensualidade de Kundry, tomou-lhe a lança sagrada e o feriu no lado. A ferida nunca cicatrizou, causando-lhe sofrimentos insuportáveis, e desde então o Santo Graal ficou escondido. E é Parsifal, do alto da sua humildade, que aparecerá e resistirá aos encantos de Kundry, tomará a lança de volta e destruirá o maligno Klingsor, justamente por ser puro. Após longa viagem, chegará ao Castelo de Monte Salvat, fortaleza dos Templários, curará com um toque da lança o Rei Amfortas, libertando-o do sofrimento, e assumirá o trono e a função de protetor do Graal. A humildade triunfante, estampada no próprio nome, pois Parsifal significa “o simplório puro”.
 
Eis aí, portanto, uma pequena reflexão sobre esse valor universal que é a humildade, que certamente não é exaltado apenas na cultura cristã. Muito se aprende, e muito se faz, quando adotamos essa inestimável postura diante da vida. Em momentos como esse, em que as maiores autoridades do planeta se contorcem e se debatem em agudos conflitos nas altas esferas de poder, em algum lugar, distante dos olhos e dos holofotes, há um simplório dando a sua valiosa parcela de contribuição para salvar o mundo, o seu pequeno mundo, dessas dores. É no esforço de muitos humildes, anônimos, de um ajuntamento de pequenos, involuntários e invisíveis heróis, que vamos superar essa dificuldade. E eles serão exaltados e colherão a bem-aventurança, se não hoje, nesta vida, mas lá no derradeiro juízo, diante Daquele que, quando entre nós esteve, deixou plantada essa valiosa semente na alma e na memória dos homens de todos os tempos, e que nunca nos faltou nos momentos decisivos.