Arthur Dutra

04/12/2019
 
Natal precisa pagar sua dívida com o Rio Potengi
 
 
Muitas cidades do mundo surgiram às margens de algum grande rio. Nova York, no Rio Hudson, Londres, no Rio Tâmisa, Paris, no Rio Sena, Roma, no Rio Tibre, Lisboa, no Rio Tejo, são exemplos de grandes metrópoles que têm um rio associado à sua história. Em algum momento, porém, essas cidades terminaram por cometer ingratidões com esses grandes rios e os deixaram abandonados, poluídos, inacessíveis para sua gente. Só que a História um dia cobra seu preço, e a ingratidão vira remorso, que depois faz pesar a consciência até que chega a hora de reparar os erros. E então essas grandes cidades se voltaram novamente para seus rios e deram o tratamento adequado que eles merecem. Com esse gesto de nobreza, ganharam a cidade e a sua gente, que voltou a frequentar esses espaços cheios de beleza e história.
 
Também Natal pode se considerar uma cidade que surgiu às margens de um grande rio, o nosso Potengi. Rica em orla marítima, foi a partir das margens do Rio Potengi que Natal se fez cidade e ali construiu boa parte de sua história de mais de quatro séculos. Desgraçadamente, também abandonou esse patrimônio natural, no mesmo trajeto de ingratidão daquelas outras cidades citadas no começo desse texto. Falta-nos, porém, o retorno às origens, o pedido de perdão após muitos anos de um divórcio injustificado, que só fez sofrer os filhos desta terra, despojados que foram do convívio do velho ancião feito das águas doces e salgadas.
 
E já que seguimos – voluntaria ou casualmente – os passos daquelas grandes cidades que um dia abandonaram seus rios, é hora de seguir também o caminho inverso: o da volta, a busca pelo momento de dar novo sopro de vida às margens do imenso Rio Potengi e fazer com ele as pazes. Sim, é preciso olhar para os exemplos bem sucedidos, mesmo que, claro, não sejam possíveis de importar como um pacote pronto e acabado para nossa realidade. Adaptações são necessárias, só que o mais valioso dessa importação é a postura de resgatar um ente esquecido. Vejamos como Nova York voltou a abraçar o East River através da construção de parques.
 
O East River corta Nova York e por ele passam 23 pontes. Túneis cruzam o rio, ligando a ilha de Manhattan aos distritos do Brooklyn e Queens. Suas margens, porém, quedavam no maior abandono, até que foi idealizado e tirado do papel o Domino Park (2018), um parque de 24 mil metros quadrados custeado pela iniciativa privada, que em contrapartida foi liberada para investir no mercado imobiliário da região. Então, o que antes era uma antiga refinaria de açúcar, totalmente inacessível ao cidadão novaiorquino, foi transformado num belo espaço público que devolveu vida e dignidade àquele trecho do East River.
 
Lisboa está pronta para prestar contas ao seu magnífico Rio Tejo, de tantas histórias de aventura no período das grandes navegações, quando Portugal desbravou o mundo. O projeto do Novo Cais de Lisboa, que prevê a construção de diversos equipamentos públicos e privados, promete devolver a área das antigas docas ao cidadão português já em 2020, num investimento de recursos públicos da ordem de 27 milhões de euros. Trata-se de um projeto altamente conceitual, baseado na ligação umbilical da cidade com seu rio. Eis o slogan do projeto, que já diz tudo: “Lisboa realiza o Tejo. O Tejo explica Lisboa. Não podia ser de outra maneira”.
 
Santiago, no Chile, também tem seu rio-mãe, o Mapocho. Como todos os demais, teve que ser revitalizado, e para isso foram construídos ao longo de sua margem sul um complexo de parques, sendo o mais notável o Parque de la Familia, concluído em 2015.
 
O Rio Potengi também está cobrando o pagamento dessa dívida histórica da cidade, e nós somos os fiadores que estamos arcando com essa conta amarga, que mais aumenta quanto mais o tempo passa. Passam as águas, para lá e para cá na maré cheia e na maré baixa, mas não passa a nossa vergonha de sequer podermos olhar para nossa Santa Padroeira, que está ali, há alguns séculos, abençoando Natal e seu povo, mas também cobrando de nós uma solução para o seu velho berço de águas turvas.
 
E digo mais: realizar a obra de recuperação do Rio Potengi é mais do que um projeto urbanístico. Há muito de civilizacional nisso também, além de ser uma oportunidade para recuperamos a nossa autoestima. É a chance de mostrarmos que somos capazes de resolver nossos problemas, que somos capazes de cuidar da nossa história e do nosso patrimônio, que aqui já estava quando nascemos, e aqui permanecerá quando partirmos. 
 
Rios ressuscitados não faltam pelo mundo, e é neles que temos que nos inspirar. Para honrar a nossa dívida com o Potengi, reencontrar nosso passado, aproveitar melhor o presente e abraçar o futuro, precisamos ousar, quebrar as travas e os preconceitos, remover essa nuvem espessa que bloqueia toda proposta realmente inovadora na cidade. Precisamos fazer isso. Sem medo de patrulha ou do fracasso. Juntar rio e cidade; moradores e turistas; público e privado; negócios, moradia, cultura e lazer; e com isso devolver vida ao Potengi. Mas não basta propor, é preciso ter resolutividade, capacidade de dialogar com os atores envolvidos e chegar a um projeto que seja viável social, ambiental e economicamente. Sem discussões infindáveis, meramente protelatórias, que são esticadas ao infinito apenas deixar as coisas como estão. Dialogar, sim, mas também tirar as coisas do papel e executar! Se os outros conseguem, porque não podemos? Podemos sim!