Arthur Dutra

06/02/2020
 
A cultura da inovação precisa fazer parte do setor público também
 
Já usei este espaço diversas vezes para falar da necessidade de colocarmos Natal no mapa da tecnologia. Não é um luxo ou algo supérfluo. Além de termos vocação, é uma necessidade para cidades que queiram experimentar o desenvolvimento num ambiente de oportunidades globais. Esse impulso vale para incrementar o setor privado da nossa economia, mas também para o aparato estatal provedor de serviços públicos. Não se pode pensar em máquina pública daqui pra frente sem acoplar a ela os avanços tecnológicos que já são amplamente utilizados com sucesso no mundo empresarial e no dia a dia das pessoas. Além do ganho em eficiência, há uma inegável redução de custos, algo que é bastante necessário num cenário em que as contas públicas estão em graves apuros. 
 
A máquina estatal precisa, claro, ser enxugada e redesenhada para caber no bolso da sociedade, mas é certo que alguma estrutura sempre vai restar, e ela precisa funcionar de forma racional e entregando resultados. A tecnologia, portanto, é um imperativo para que esses objetivos sejam alcançados. Mas é preciso ir além. É preciso levar inovação ao setor público.
 
Este, aliás, é um tema que vem sendo objeto de estudos por muitas entidades e governos pelo mundo afora. A OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, possui um Observatório da Inovação do Setor Público, que visa justamente ajudar os países associados a trazer essa mentalidade para o âmbito estatal. Para isso, além das novas ferramentas tecnológicas, a inovação vem na esteira de uma mudança de mentalidade, baseada não só na otimização de processos internos, mas principalmente na resolução de problemas reais visando a satisfação do usuário. É dizer: a inovação precisa, para ser realmente digna deste nome, atingir e beneficiar o cidadão pagador de impostos que utiliza os serviços públicos. Este é um ponto fundamental. 
 
Mas esse tipo de inovação não surge do nada, por geração espontânea. Ela vem dos inovadores, e eles precisam estar, obrigatoriamente, dentro do setor público. O desafio é, então, encontrar potenciais inovadores dentro da máquina pública – e eles existem! – e dar-lhes o estímulo e as condições para inovarem, mas também importar essa mentalidade através de startups, por exemplo, e outros agentes que trabalhem com esse ativo intelectual. Com isso estaríamos promovendo a cultura da inovação no setor público e, aos poucos, quebrando a incultura da burocracia, do comodismo e da ineficiência. E ainda entregando resultados.
 
No nosso caso, teríamos um longo caminho pela frente, mas é preciso começar. A Colômbia, para usar um exemplo próximo de nós, trata de forma bastante séria a implantação da cultura da inovação no setor público, e já está colhendo frutos. No Brasil, governo federal, estaduais e até municipais também criaram laboratórios de inovação para auxiliar a gestão a obter melhores resultados nas suas atividades fins. O caminho é esse, e Natal precisa seguir os bons exemplos.
 
Um estudo do Instituto Arapyaú, confeccionado após ouvir prefeitos, vereadores, secretários municipais e chefes de gabinete de várias cidades do Brasil, traçou um mapa do que se entende por inovação no setor público e os desafios para implantar essa cultura nas rotinas governamentais. Dentre todos os que foram elencados, destaco a dificuldade de diálogo entre áreas do governo e parceiros privados. Além da ausência de marcos legais claros e seguros, há uma certa desconfiança entre esses atores. Mas isso precisa acabar. Ambos podem – e devem – unir esforços para compartilhar problemas e soluções visando a satisfação do usuário. 
 
As GovTechs, por exemplo, são uma realidade e precisam aprofundar suas relações com os governos, que precisam se abrir de verdade para receber as valiosas contribuições dessas organizações, principalmente na linha da difusão da mentalidade inovadora, que deve permanecer e florescer na máquina pública, mesmo quando os parceiros privados se retirarem. 
 
Enfim, a tarefa não é fácil, mas é possível. Diria mais: assim como a abertura da cidade para as possibilidades do mercado da tecnologia é uma necessidade, o cultivo da mentalidade de inovação no nosso setor público é pressuposto daquela. Sem uma máquina estatal enxuta e repleta de mentes com sede de inovação, seremos uma Ferrari com o freio de mão puxado. E isso seria um desperdício imenso.