Minha relação com Parnamirim

07/05/2018

Por: Francisca Henrique
Foto: Redação do PN
Vi Parnamirim pela primeira vez aos oito anos de idade. Era março de 1965. Morávamos no Sítio Jacaré, em Vera Cruz, cidade interiorana, distante ... de Natal. Meu pai, Luiz Marcelino da Silva, era agricultor. Cegou após ser picado por uma cobra. E teve frustrado o compromisso de manter a família
 
Minha mãe, Regina Alves de Andrade, viu-se responsável pelos filhos: eu, meu irmão caçula, José Francisco Alves da Silva, então com dois anos de idade, Francisca Alves Medeiros, de dezesseis, e Manoel Marcelino, de vinte e um. Em Vera Cruz trabalhávamos juntos na roça, fazendo “leirões” para plantio de macaxeira, batata-doce, inhame e hortifrutigranjeiros básicos. Naquela época não existiam amplas políticas públicas de assistência, como as atuais. Nossa situação econômica era precária e isso trazia muita inquietação principalmente à minha mãe, a qual tornou-se o esteio da família. De uma hora para a outra vimo-nos sem horizontes. Somente ela poderia buscar um porto seguro, o qual não poderia ser naquele município acanhado e com o mínimo a oferecer. 
 
Certo dia minha mamãe decidiu sair com minha irmã mais velha para procurar um lugar promissor e mais próximo a Natal, visando possibilidades mais amplas de trabalho para ela e os filhos, obviamente.
 
Quando chegaram a Parnamirim houve uma química involuntária. Ela apaixonou-se por sua topografia plana, o sabor da água, a movimentação da cidade, enfim sentiu que a terra do rio pequeno era a grande solução. Nessa ocasião uma prima de minha mãe, Maria Nazaré de Souza residia aqui e isso a animou ainda mais, pois era uma referência. 
 
Naquele mesmo dia, muito constrangida pela precisão, mas empurrada pela necessidade, mamãe recorreu ao saudoso prefeito José Augusto Nunes, o qual se tornaria para sempre uma referência para a minha família. Era um homem público muito prestativo. Ela contou sua história. Ele se compadeceu e ofereceu, por empréstimo, um galpão que poderia abrigar-nos enquanto as coisas melhorassem. O galpão era composto por um quartinho e um banheiro coberto com telhas. 
 
O gestor prometeu um terreno para minha mãe construir uma casa, pois o galpão fora uma doação do Clube dos Caçadores de Natal para a Matriz de Nossa Senhora de Fátima construir a igreja de Santos Reis. Esse galpão ficava onde atualmente se localiza a avenida Senador Georgino Avelino e ficou no meio da avenida na lateral do Ph3. 
 
Tendo obtido êxito naquela audaciosa atitude, mamãe e minha irmã retornaram à Vera Cruz. Ela conversou com papai, e em comum acordo decidiram deixar Vera Cruz. Viemos ‘de favor’, num caminhão Ford antigo. Ela conversou com o motorista; ele vinha trazer tijolos para Natal e aceitou nos trazer. A maior parte da carroceria estava tomada de tijolos. Assim acomodamos nossas poucas tralhas num espaço menor e deixamos para sempe Vera Cruz. 
 
Enfim, chegamos a Parnamirim pela velha BR 101. Descemos na esquina da rua Aspirante Santos e fomos recebidos justamente pela prima de mamãe, a qual morava na referida rua. Ali almoçamos, guardamos as bagagens e as poucas coisas que trouxemos. Aos poucos fomos transferindo para o bairro de Santos Reis, onde ficava o galpão, que meu irmão mais velho cercou com palhas de coqueiro. Essa foi a nossa primeira residência em Parnamirim, onde moramos durante nove meses. 
 
Nesse interim, mamãe conseguiu uma doação de 5 mil tijolos. Mas quando o prefeito Augusto Nunesviu o material alegou que não seria possível doar o terreno, pois em imóveis doados não se construía em alvenaria. Exatamente nessa semana o trator da Base Aérea estava terraplenando as ruas e avenidas do bairro Santos Reis. Quando a lâmina rasgava a terra, emanava um cheiro que, hoje, soa-me como perfume. Perfume de luta!!!, cheiro de alecrim e tabuleiro 
 
A máquina Caterpilar revolvia as raízes das árvores e arbustos que outrora se espraiavam na antiga campina. Ali estava o combustível do nosso fogão a lenha. Diariamente recolhíamos os gravetos e pedaços de tocos que se espalhavam em abundância, arrancados pelas máquinas. Com o tempo, íamos buscar lenha numa mata fechada, onde atualmente está a Bonor.
 
Essa foi a primeira avenida aberta naquele bairro. Enquanto os serviços aconteciam eu e meus irmãos nos despedíamos do imenso tabuleiro coberto de alecrim, berço e cúmplice da nossa infância. Nele colhíamos guabirabas, cajuítas, azeitonas e araçás. Ali nos divertíamos, subindo nas árvores, Nas ruas de barro, brincávamos de “roladeira” e Pipa. Essa mata foi o mais delicioso parque de diversão que tive junto ao mano caçula. 
 
Já extinto naquela época, o Clube dos caçadores deixou uma quantidade infindável de chumbinhos esparramados na mata. Mamãe pedia que recolhêssemos para vender. Com um carrinho de mão, percorria toda Parnamirim com meus irmãos, recolhendo alumínio, vidro quebrado e osso. Mamãe vendia para manter a casa. Também apanhávamos esterco de gado para a sua bela horta, onde ela plantava de tudo para vender.
 
Mas, retornando ao contexto de nossa morada no galpão, nessa época o advento da energia elétrica e o asfalto ainda não havia chegado a Santos Reis. A única fonte potável era o “cacimbão de Luís Rodrigues”. A água subia em latões amarrados a cordas, obtidas a 30 metros de profundidade. Em 1974 foi construido o chafariz público. Todo o material para a sua construção ficou guardado em nossa casa, pois o chafariz era ao lado da nossa casa. 
 
Para lavarmos roupas, íamos num dos braços do rio Pitimbu exatamente em Passagem de Areia. Mamãe fazia trouxas de diversos tamanhos e levávamos na cabeça. Ali, cada um tinha a sua pedra de apoio, onde se agachava e passava o dia ensaboando e enxaguando as peças. Depois de lavadas eram estendidas no arame farpado que divisava os sítios, 
 
Como éramos crianças, transformávamos esse evento numa festa. Na hora do almoço comíamos peixe “avoador” com farinha; com direito a uma das mais deliciosas e notáveis frutas brasileiras, a manga, É verdade, é dignidade. Sinto-me transparente!
 
Nossa casa possuía uma calha inclinada para um tambor, onde era guardada água pluvial durante um bom tempo. Ela coava e servia para tudo. O filtro de barro se encarregava de fazê-la potável. 
 
Enquanto isso comprávamos materiais de construção na loja de Aderbal, tomava injeção com Wilson Menezes, fazia consulta com seu Padilha e viajava para Natal de papafila que parecia uma centopéia. 
 
Lembro da minha aventura de criança junto com meu irmão mais novo recém chegados a Parnamirim não tinha consciência da base aérea certo dia por voltas das 19h estávamos na escuridão de Santos Reis ouvimos uns estrondos com uma iluminação no nascente. Desesperados começas a corre achando que era o fim do mundo sem forças nas pernas correndo chegamos a cair por terra. E sabem o que era?  O aniversario do Comandante da base!!!
 
Um detalhe interessante era a lagoa que se formava de frente ao atual Banco do Brasil no bairro COHABINAL. O fenômeno ocorria nas grandes invernadas, quando as águas se demoravam meses nas bacias moldadas pela própria natureza. Como as terras eram arenosas e esbranquiçadas, a “lagoa” era límpida e transparente. Ali mamãe lavava roupas enquanto nos banhávamos. A alegria não cabia em nós. 
 
Nessa ocasião o prefeito Augusto Nunes sugeriu a mamãe comprar um terreno no loteamento Santos Reis. Minha mãe falou da impossibilidade, pelo menos naquele momento, pois vivia de bicos e o pouco dinheiro obtido era apenas para as coisas básicas. Era impossível manter o compromisso, principalmente a uma mulher tão honesta. 
 
Creio que ao longo do tempo o gestor observou a abnegação e a idoneidade da minha mãe, sem contar a sua pobreza material. Então propôs ser o avalista. Um dia ele a levou a Natal e disse ao saudoso corretor Domingos Praxedes: “venda um lote para dona Regina; se ela não puder pagar eu pago”. Nesse dia mamãe, que sempre dizia Deus proverá, se prostrou ante a cama, orando em agradecimento. Ela escolheu o lote na esquina da rua Pedro Bezerra Filho com rua Senador Georgino Avelino, onde foi construída – lentamente – a sua casa própria. Dizia que área de esquina era propícia para ponto comercial devido à visibilidade. 
 
Confesso que quando assisti a demolição dessa casa, cinquenta e um anos depois, para dar lugar ao Yázigi, senti um incômodo que poderia ser inexplicável se não partisse de alguém que sabe o sacrifício imensurável de sua construção. Só eu sei os esforços para se obter cada tijolo, cada viga, cada porta, cada saco de cimento. 
 
Atualmente, sob as metralhas da casa de mamãe construí um belíssimo prédio para abrigar o auditório do Ph3 e sede do Yazigi. Essa casa também foi minha durante anos. Meus filhos nasceram e cresceram ali. Mesmo casada, mamãe quis que seu estivesse ao seu lado. 
 
Lembro-me que o maior desafio da minha mãe foi construir a nossa casa. Como erguê-la sem recursos? Nessa época, minha irmã mais velha foi trabalhar de doméstica e meu irmão mais velho vendia pão e bolo na feira, ao lado do Mercado Público, no centro. 
 
Nesse período o sargento reformado da Polícia Militar, “João Cabelo Caque”, como era conhecido, visitou o galpão e fez uma proposta para minha mãe. Como era sanfoneiro, propôs fazer um baile nos finais de semana. A cota ficaria para o sanfoneiro e a renda do botequim para a minha mãe. A proposta soava de certo modo estranha para ela, a qual nunca lidara com comércio, mas a necessidade a empurrou novamente, e como não havia nada de ilícito no empreendimento, ela o assumiu, dizendo que “vergonha é roubar” e “Deus ajuda quem trabalha”. 
 
Seu sonho era garantir moradia digna à família. Por mais que existisse a boa vontade do prefeito Augusto Nunes, o galpão não era o lugar adequado. Para iniciar o projeto do Forró, minha irmã fez uma rifa de um colar para comprar as bebidas e os tira-gostos. Como não existia energia elétrica no bairro, iniciamos com candeeiros alimentados a querosene, iniciativa perigosa, pois o alpendre coberto com palhas de coqueiros poderia sofrer incêndio.  
 
Mas dizem que quando somos do bem, Deus usa anjos para realizar os nossos projetos. Eis que surgiu o Sr. Manuel do Rosário. Ele viu a necessidade e emprestou um lampião a gás. Outro anjo era conhecido como “João do depósito”, responsável pelo único depósito de bebidas da cidade. Chamavam o lugar de “Enchimento”, vizinho a casa Parnamirim de irmão Zezinho Siqueira e Antônio de Soute Mesmo sem conhecer minha mãe ele forneceu refrigerantes para o chamado botequim. Ela pagaria após o evento apenas o que fosse vendido. Foi uma benção! Outro anjo foi o Capitão Salatiel Rufino dos Santos, Delegado de Polícia, que a apoiou em termos de segurança. Ele vinha pessoalmente fazer cobertura junto com seus praças. Entendo que tanta gentileza e bondade nasce, além da Providência Divina, da respeitabilidade que minha mãe construía junto às pessoas. Ela teve a sorte de receber apoio de pessoas de bem, que viam os seus esforços.
 
Lembro-me com riqueza de detalhes dos bailes, das músicas saudáveis, das famílias presentes. Eu e meu irmão caçula ficávamos deitados numa rede num cantinho do salão, observando até o sono aparecer. Que saudades do guaraná, da Crush, da Grapette...
 
Com o pequeno lucro obtido na realização dos bailes mamãe foi construindo uma casa de quatro cômodos. Mas após nove meses, uma vizinha sentiu-se incomodada e denunciou ao padre Geraldo. Ele pediu que ela encerrasse a atividade. Alegou que o material daquele pequeno prédio seria usado numa futura igreja, e não combinava um ambiente de dança. Mamãe ficou triste, mas não externou o sentimento nem dirigiu qualquer palavra contra a denunciante. Mas, para surpresa de todos, fez o baile daquele mesmo dia. Para quê! Num rompante o padre apareceu, vestido com sua tradicional batina e, em tom alto, disse: “a senhora não me obedeceu? Fez o baile? Pois vou denunciá-la ao Coronel Paulo Salema Garção Ribeiro, Comandante da Base Aérea. No mesmo instante, surpreendida com a atitude do padre, e apavorada por correr o risco de perder as comidas anteriormente preparadas, olhou para o religioso firmemente e disse: “Reverendo, eu tenho muita mercadoria que será perdida, se tivesse recebido a orientação dias antes, não a teria desobedecido. Mas saiba de uma coisa, mais tem Deus para dar! Não se preocupe que esse foi o último baile de dona Regina. Na realidade o evento tinha começado às dezenove horas. Era quase nove da noite e o prejuízo não seria tanto. Seja como for, surpreendi-me com mamãe, pois ela poderia ter ficado sem palavras, chorado etc... mas, pelo contrário, defendeu-se muito bem. Restou-lhe agradecer a todas as pessoas que a ajudaram, e o baile foi extinto.
 
Até esse episódio, mamãe não queria se mudar porque a casa ainda não tinha portas e trazia o piso de terra batida. O término dependeria, a partir daí, dos bicos da própria família, principalmente dos meus dois irmãos. Enfim, após muito suor, trabalho e renúncia, nos mudamos em 1966, ou seja, há 51 anos. 
 
Em 1972, aos 15 anos, conheci Henrique, o qual se tornaria o meu meu esposo 7 anos depois. Esse encontro ocorreu no famoso cinema da Base Aérea, herança deixada pelos norte-americanos. Iniciamos namoro alguns dias depois. Nosso ponto de encontro era no “Solanche” e no fiteiro, onde lanchávamos e tomávamos Crush. Na época da Festa do Boi íamos a pé. Era um acontecimento! A primeira vez que vi uma pastilha Garoto foi no “Fiteiro do Sargento Jorge”. Inesquecível! Na atual praça central.
 
Naquela época participávamos das festas de elite no “Potiguar Esporte Clube”. Eram lindas. “The Fevers”, “Impacto Cinco”... Época de vestidos reformados para ficarem novos, e sapatos usados durante o ano todo. Esse espaço, também puramente familiar, marcou a história de Parnamirim.
 
Em março de 1973 ainda sem registo civil tive a ideia de ir ao cartório atraz do mercado velho apenas uma portinha e uma janela. Me debrucei sobre a janela e perguntei como eu faria para me registrar. O escrivão pediu que meus pais fossem ao cartório. Voltei para casa cheia de esperança  e pedi para meus pais comparecerem ao cartório e fizeram meu registro. Com a certidão de nascimento imediatamente fui ao edifício café filho na Ribeira e tirei minha carteira de trabalho e fui ao ITEP tirar meu RG  e em Parnamirim fiz meu CPF. 
 
Em Setembro de 1973, aos 16 anos, consegui o meu primeiro emprego na “Casas Cardoso tecidos”, em Natal. Foi o dia mais feliz da minha vida. Viajava pela manhã no ônibus da “Autoviação Sena” e só retornava à noite, após as aulas, pois estudava no colégio Nossa Senhora de Fátima, em Petrópolis. Às 22h00 ia pra Ribeira a pé, de onde saia o último ônibus. Acabei me tornando parte do esteio da casa, pois o que eu recebia era administrado por minha mãe nas despesas do lar. Meu primeiro décimo terceiro eu queria comprar um som porem minha mãe aconselhou que eu comprasse uma geladeira. Não pensei duas vezes comprei uma geladeira cônsul na cor azul. Minha mãe empreendedora e iniciou em fazer dindin de coco queimado e ksuco para ajudar na renda familiar. 
 
No dia 28 de junho de 1975 experimentei pela primeira vez a experiência da morte de um familiar. Meu pai faleceu. Confesso que sou incapaz de traduzir em palavras o que essa perda significou para mim. Embora papai viu-se obrigado a ser um homem ocioso, era conselheiro e de sua boca só saia o bem. Nessa ocasião Parnamirim, apesar de ser um município novo, conservava uma prática dos primórdios da história do Brasil. Havia no cemitério o chamado “Caixão das almas”. Servia para as pessoas pobres enterrarem os seus entes. A peça era levada para casa, onde se recolhia o defunto e o transportava para o campo santo, depositando-o na cova. Eu não tinha reservas, mas não conseguia imaginar o meu pai sendo enterrado daquela forma. Para aumentar a angústia, era final de mês e chovia muito. Quase tudo convertia para dificultar as providências que se faziam urgentes. 
 
Pensei em pedir um adiantamento de salário. Chegando à funerária constatei que o frete importava no valor da urna caixa. Voltei a Parnamirim ‘ensopada’, desci ao lado da prefeitura e procurei o prefeito Sr. Marceliano de Almeida Neto, expus o fato e ele autorizou que o único veículo da Prefeitura, uma Kombi verde, cujo motorista, Sr. Carlito, ficasse à disposição. Nesses conformes fomos a Natal comprei o caixão. Foi difícil, mas lhe permitimos essa última dignidade.
 
A ausência do velho Luiz Marcelino doeu muito. A casa ficou vazia, mas as coisas tinham que continuar. Permaneci morando ali com a minha mãe e José Francisco, irmão caçula. Nessa época meu irmão mais velho já havia se casado e morava em Vera Cruz. Minha irmã já casada preferiu permanecer em Parnamirim. Cada vez mais se agigantava em mim a vontade de ampliar meus conhecimentos, pois sentia que somente através da educação eu emergiria daquelas águas turbulentas e sofridas. Permaneci trabalhando na mesma empresa, a qual me doei como nunca, mas sabia que aquilo não era o meu destino. Mesmo lidando diariamente com tecidos, vivia cercada de livros, lendo tudo o que aparecia pela frente. 
 
Todo o meu ensino fundamental foi feito em casa, de maneira autodidata. Tudo orientado por meu irmão, o qual me alfabetizou. Aos dez anos tinha perfeito domínio da escrita e fazia todas as operações; aos quinze, resolvia contas avançadas. O que me ajudaria muito na conquista do meu emprego quando adquiri mais idade. Só em 1977, aos vinte e um anos, passei a estudar em Parnamirim, no famoso Colégio Cenecista Augusto Severo,referência naqueles tempos. Que saudade dos professores Zefinha Paisinho, Raimunda Basílio, Elienai, Nestor Lima, Carlos Andrade e outros... foram seis meses ali.
Em julho desse ano casei-me na Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima, sob as bênçãos do Padre Alcides. Parnamirim encontrava-se com oportunidades muito limitada, portanto decidimos morar em São Paulo. Foi dolorido deixar minha mãe, mas no ano seguinte ela foi morar comigo, realizando o seu grande sonho. Mas, antes fez a escritura da casa no cartório de Dona Iracema de Gastão Mariz.
 
Quando minha mãe faleceu, em setembro de 1997, tive a sensação de que o chão tinha desaparecido. Eu não acreditava. Mulher forte, decidida, de iniciativa e posições firmes. Minha experiência junto a ela fertilizou o meu espírito para que eu triunfasse. Seu nome, Regina, em latim, significa “Rainha”. Eu a chamava de “minha rainha”. Mas a vida precisava continuar, como ela era meu suporte espiritual após sua morte me senti fragilizada porem busquei recursos emocionais, terapias e aumentei a minha fé e hoje com a graça de Deus sou suporte para a minha família e para a minha empresa. Resultado da educação e valores e de caráter que recebi dos meus pais.
 
Em 1981 retornamos a Parnamirim onde Henrique montou uma cantina, aplicando todo o dinheiro que conseguimos no Sudeste. Quando o gerente da “Casas Cardoso” soube do meu retorno, convidou-me a retomar “o meu posto” de “balconista”. Naquela empresa eu tinha construído uma família. Então conclui o segundo grau na escola Winston Churchil. Devagarinho ampliamos a casa de mamãe, trazendo mais conforto.
 
Em 1982 experimentei a graça de ser mãe. Nasceu Paulo Henrique, meu primogênito. É indescritível a maternidade. Ela nos transforma, nos amadurece a olhos vistos. preciosa experiência da minha vida.
 
Iniciado o ano de 1983 comecei a lecionar na Escola Municipal Joana Alves, aqui em Santos Reis. Nesse tempo eu cursava o Logus II, projeto realizado em alguns estados do Brasil, com objetivo de formar professores leigos. 
 
Devo minha adesão na área educacional a professora Niceia, Marli Santana e Maria de Jesus conhecida por “Marleide” coordenadora do Logus em Parnamirim. Não tenho palavras para agradecer a essas três nobres educadoras que viram em mim um potencial a ser descoberto.  
 
Em 1984 a graça da maternidade me presenteou com a minha Heloisa Henrique, a qual foi batizada pelo Padre Alcides. Escolhi como padrinhos Ronaldo Souza e Maria Laide, pessoas muito estimadas por minha família. Lembrando que para registrar lembranças dos nossos filhos precisava recorre os serviços do Vídeo Foto Lira.
 
Neste mesmo ano concluí o Logus II. Em 1985 obtive aprovação no concurso da rede estadual de ensino, assumindo minhas funções na Escola Estadual Dr Antônio de Souza. Nesse templo sagrado de educação ampliei meu rol de amizade entre alunos, funcionários e colegas de profissão, como exemplo Salete Vieira, Eva Lúcia, dona “Tecinha”, Raimunda, Nilda, Ana Maia, Rildo, Ivanildo, Ricardo Wagner e tantas outras pessoas. São presentes que a profissão me ofertou. 
 
Mas, conforme expliquei anteriormente, cada vez mais se ampliava a minha vontade de estudar. Eu sempre tive uma sensação inexplicável de realizar algo grande, mas não sabia exatamente o que era. Engraçado! Creio que aquela garra de mamãe me foi transmitida por osmose, embora numa ótica diferente. Não parei por aí. Em 1986 fui ao INIEP do Prof Samuel Fernandes e me matriculei na disciplina de Inglês e Português para prestar vestibular. Estudei como nunca. Muitas vezes atravessava a madrugada devido aos afazeres domésticos. Minha pequena Heloísa, bebê, era embalada por “canções de ninar” incomuns. Eu cantava os textos e os questionários de literatura para que ela dormisse. Era uma forma que encontrei para ela dormir e eu aprender. Fui aprovada e iniciei o curso de Letras na UFRN em 1987. 
 
Quando ressalto certos detalhes da minha experiência de vida não os digo como pensasse que "descobri o Brasil". Nada disso! Enalteço-os porque eram momentos completamente diferentes de hoje. Não existiam muitos incentivos. As dificuldades eram incomparavelmente maiores. Hoje os estudantes têm facilidades que quisera eu tê-las obtido na minha mocidade.
 
Enfim, conclui em 1991, cujo estágio foi no método Paulo Freire, experiência indescritível e que me marcou muito. Em seguida assumi a implantação da SEB e SPG em Parnamirim. O primeiro formava o aluno no ensino fundamental I, o segundo, no ensino fundamental II (espécie de EJA).Muito bem preparada na UFRN trouxe esses projetos para a nossa terra. Percorria as escolas de todo o município, orientando os professores e formando-os. Muitas vezes fui de ambulância, devido à precariedade do transporte. As pessoas riam, como se estivesse chegando à escola uma pessoa doente. Hoje soa divertido! Tais experiências acabaram se tornando o laboratório onde foi revelada aquela coisa inexplicável que me empurrava para realizar algo grande em Parnamirim. E eu precisava começar. 
 
Como educadora entendi que o alicerce de nossa vida educacional deve ser feito nos anos iniciais, pois, bem construído é parâmetro para o sucesso de qualquer pessoa. Em 1991 fundei o Núcleo Educacional Arco-Íris que inauguramos em 1992 com 120 alunos. Como sempre fui expansiva e, escolhi esse nome pela alegria que o arco-íris nos transmite, e pelo fato de Parnamirim ser um arco-íris de raças, cores e culturas, afinal para cá convergem pessoas de todos os rincões potiguares e até mesmo de outros países. Onze anos depois, com o êxito da instituição mudei o nome para Ph3, homenagem aos meus dois filhos. Também costumo dizer “Potencial Humano ao Cubo” e “Paz e Harmonia”.
 
Associar a função de professora estadual e municipal com a minha escola tornou-se muito difícil. Nunca fui pessoa do fazer por fazer, Jamais! Foi exatamente nesse ano que pedi exoneração da função de professora da rede municipal onde exerci por 20 anos, e me dediquei mais amplamente ao meu colégio, e com tempo para o ensino de qualidade. Hoje o Ph3 é uma escola de referência, de acordo com órgãos externos
 
Em 2009 recebi o prêmio do MPE Brasil em termos de Gestão de Qualidade. Em 2012 recebi novamente o mesmo prêmio pelo Sebrae e cheguei a finalista a nível nacional. Fui a Brasília receber o troféu, Nesse mesmo ano recebi o Prêmio de Responsabilidade Social, também pelo Sebrae. Desde 1999 recebo anualmente o prêmio melhores do ano em 2017. Recebi o prêmio Noilde Ramalho, ícone em Educação e recentemente a medalha Eva Lúcia, pelos serviços prestados à Parnamirim. Também recebi o título de cidadã parnamirinense, em 1998, justamente fruto desse histórico.
 
Muitas pessoas me perguntam qual é o segredo do PH3. Numa breve síntese, o Ph3 é uma escola de excelência pois dei a Parnamirim uma instituição que trabalha os conteúdos, aliados a eles a formação humana, educação Holística que vê o ser humano nas suas quatro dimensões: física, cognitiva, emocional e espiritual. Uma educação humanizada, na qual colaboradores e alunos são respeitados na sua individualidade.
 
Confesso que, embora esses prêmios e méritos notáveis - tão almejados por muitos - sejam preciosos na minha história de educadora, eles nunca me tornaram uma pessoa prepotente ou tentada a me projetar como superior ao que quer que seja. Tudo é fruto de muito trabalho, de muito estudo, investimento, luta e coragem. Hoje, tenho a graça de ter comigo minha segunda rainha, minha Heloísa, bem como o meu filho querido Paulo Henrique. Assim a nossa história se perpetua.
 
Em 2017 assumi a Semec foi uma grande experiência, mas assuntos de outra ordem abortaram os planos. Lamentei muito não poder colocar um tijolinho na educação pública do meu amado município, terra que escolhi morar e empreender. Mas a vida continua. As coisas se revelam necessariamente com o tempo.
 
Hoje, quando relembro daquela menininha de oito anos, na carroceria de um caminhão, cutucando tijolos e fantasiando mil coisas, compreendo que tudo foi o prenúncio da história que desencadearia a partir dali. Aqueles tijolos, aquelas metáforas já assinalavam muito, pois tijolo é construção. 
 
Valeu a pena! E como valeu a pena. Só tenho a agradecer a todas as pessoas que passaram pela minha vida, em destaque muito especial ao meu marido, meu grande aliado. Em destaque à minha genitora, meu porto seguro, aquela que me ensinou a ser um ser humano pleno. 
 
Minha história não é mais nem menos bonita dentre as de tantos pioneiros. Mas eu sei o quanto me custou cada tijolo, cada página da minha vida. Só tenho a agradecer a Deus por tudo. 
 
Como educadora, tenho consciência de que o meu legado – e o de outros pioneiros – simples ou robustos – pode inspirar muitas crianças e jovens, os quais colocarão muitos tijolos em muitas obras, sejam físicas ou intelectuais.
 
Finalizando, agradeço ao amigo jornalista Pinto Júnior, pela oportunidade de, pela primeira vez, levá-la ao público. Tenho impressão que estamos colocando muitos tijolos na continuidade dessa grande obra que é Parnamirim. Muito obrigado a todos!