Bordar e cantar o delírio do mundo – Bispo do Rosário e Milton Nascimento

23/06/2022

Por: Elizabeth Olegário*

 

Era das linhas dos lençóis e dos fios azuis dos uniformes dos internados da Colônia Juliano Moreira (RJ) que vinha a força criante de Artur Bispo do Rosário, homem, negro, filho de ex-escavros, pobre, diagnosticado com esquizofrenia paranóide e que permaneceu internado durante cinco décadas (1939 a 1989), no hospital psiquiátrico Juliano Moreira.

 

A arte foi para Artur Bispo do Rosário o seu contra-movimento. Ele bordou a ordem desvairada do mundo e esse gesto artístico inaugurou uma nova presença, inaugurou um novo modo de ele ser percebido pelos outros. A sua experiência de loucura - um dos muitos estados do ser (Antonin Artaud) -  gerou uma presença de si para os outros. Artur Bispo do Rosário é hoje um dos nomes mais importantes da história da arte brasileira do século XX.



Homem, negro e reconhecido mundialmente como um dos mais influentes e talentosos músicos da Música Popular Brasileira, Milton Nascimento em suas últimas apresentações públicas traja um manto inspirado no "Manto da Apresentação", a peça mais significativa do conjunto da obra do artista negro, Artur Bispo Do Rosário.


"O Manto da Apresentação" é um inventário do mundo e é também uma extensão desse  sujeito – corpo- homem. Bispo do Rosário acreditava que sua missão era apresentar a terra a Deus e com as linhas dos lençóis da instituição psiquiátrica em que esteve re-criou um novo mundo. Tecendo desenhos oníricos, ele driblou a violência do aparato manicomial, identificou espaços, reconstruiu mundos e instaurou um porvir na linguagem artística - bordou o delírio do mundo. O Manto da Apresentação é um testemunho da vida do Bispo do Rosário, o Manto de Milton também. A sua última aparição nos palcos do mundo é uma afirmação afectiva da vida e a distribuição da beleza e da delicadeza em tempos de penúria.



Esses dois artistas nos ensinam que o sagrado é um modo de ser no mundo. Nos ensinam que o sagrado é uma forma "de conhecer as dimensões possíveis da existência humana". (Mircea Eliade). Bispo do Rosário construiu a sua obra a partir dos elementos que encontrava no manicómio. Sua arte revela uma busca incessante pelo divino. A voz de Milton Nascimento é um argumento que prova a existência divina. A palavra religião do latim:  religare significaligar novamente.  Esses dois artistas através da arte nos re-liga, ou melhor, nos conecta ao sagrado.



O manto que traja o maior mineiro de todos os cariocas revela o mundo afetivo de Milton Nascimento. A linhas é a carne das coisas. Produção de presença - Guimarães, sertãões, Rosa, veredas, Portinari, utopias, cores, canções e o apito imaginário do trem soando em Três Pontas, Minas Gerais.  Tecer o manto como quem tece a vida. As linhas da bordadeira Stella (Guimarães), que não é a do Patrocínio - mulher, negra, diagnosticada como esquizofrenia e internada compulsoriamente no Juliano Moreira  no dia 03 de março de 1966,  na mesma instituição de Bispo do Rosário –  é vida. Salve Ronaldo Fraga e esse precioso resgate.

 

Se Bispo do Rosário inventou o mundo através dos seus bardados, Milton Nascimento ao abrir  a boca e soltar os pássaros que habitam na sua garganta re-cria naqueles que lhes ouvem novos mundos. "Milton Nascimento é voz. Som que escapa à compreensão humana".



A voz que partiu do fundo da noite

Para Paul Zumthor "o que importa mais profundamente à voz é que a palavra da qual ela é veículo se enuncie como lembrança", e é dançando com as lembranças que recordo a voz que partiu do fundo da noite. Era 2013, eu vi/ouvi Deus cantar na Praia de Tambaú, João Pessoa /Paraíba- Brasil. Terra de Vera Cruz.

 

Ouvir Deus alumiou todo o meu viver. Até hoje a voz de Milton Nascimento habita uma janela que se abre no meu peito-corpo-alma, e embora a marca da sua voz pareça ser vela apagada, basta o chilrear de alguns acordos que a lembrança viva e vibrante de estar diante de Deus se reanima em mim. “Longe, longe ouço essa voz. Que o tempo não vai levar.” A voz de Milton Nascimento "constitui a figura de uma promessa para além não sei de que fissura". Milton Nascimento canta hoje em Lisboa. Eu vou e voo.

 

*Professora, escritora, poeta e doutoranda em Letras na Universidade de Lisboa