Vale do Javari: Bombeiros encontram mochila com notebook em área de busca por desaparecidos

12/06/2022


Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Bombeiros encontraram neste domingo (12) uma mochila, notebook e pertences submersos na área em que ocorrem as buscas pelo indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, na região do Vale do Javari (AM). Ambos estão desaparecidos desde 5 de junho.

 

Também foram achados chinelos e uma lona, segundo agentes do Corpo de Bombeiros do Amazonas que retornaram no fim da tarde deste domingo ao porto de Atalaia do Norte (AM).

 

Pereira e Phillips viajavam pelo rio Itaquaí à cidade no dia do desaparecimento, mas não chegaram ao destino.

 

Os objetos foram encontrados por mergulhadores dos bombeiros. A mochila estava amarrada numa árvore submersa no igapó —área de mata inundada por água, à margem do rio— e os pertences estavam dentro dela. Ela foi entregue à Polícia Federal.

 

Segundo os bombeiros, indígenas e representantes da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) disseram no local que a mochila pertence a um dos dois desaparecidos.

 

Mais tarde no domingo, pessoas ligadas à Univaja reforçaram o relato e disseram acreditar que o material seja de Pereira.

 

Um dos envolvidos nas buscas, que conhece o indigenista, disse à Folha ter visto um documento de Pereira entre o material recolhido.

 

A mochila é da marca Equinox, com capacidade entre 60 e 70 litros, ainda de acordo com os agentes dos bombeiros.

 

Pereira é servidor licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio) e, até o desaparecimento, atuava como colaborador da entidade.

 

Às 17h11, horário de Atalaia do Norte (19h11 em Brasília), a equipe de policiais federais chegou ao porto da cidade com os pertences encontrados na perícia.

 

Havia no local um clima de comoção entre pessoas ligadas à Univaja.

 

Nove bombeiros atuaram na busca deste domingo, sendo quatro mergulhadores. ​Eles também afirmaram que o modo como os objetos estavam depositados sob a água indica intenção de ocultamento.

 

Os objetos foram encontrados numa área que tinha sido isolada no sábado (11) pela Polícia Federal, nas margens do rio Itaquaí. Indígenas que auxiliam nas buscas haviam sinalizado que a vegetação no local tinha sinais de que um objeto de grandes proporções havia adentrado pela mata.

 

A Folha acompanhou, no sábado, o momento em que policiais federais avançaram por um igapó para uma perícia inicial do local. Os agentes isolaram o trecho onde existe a suspeita de passagem da lancha dos desaparecidos com uma fita amarela.

 

As autoridades retornaram à região neste domingo para realizar novas buscas, que resultaram na descoberta da mochila e dos demais objetos.

 

A suspeita de indígenas, relatada à Folha no sábado com o auxílio de tradutores, é que a embarcação usada por Pereira e Phillips pode ter perdido a direção, após um possível ataque, e ter avançado pelo igapó de forma descontrolada.

 

Segundo as primeiras investigações policiais, Pereira e Phillips foram vistos pela última vez na altura da comunidade de Cachoeira, às margens do rio, onde vivem cerca de 15 famílias de pescadores e pequenos agricultores.

 

Os relatos de testemunhas relacionadas aos últimos momentos em que Pereira e Phillips foram vistos se tornaram elementos de prova sobre a suposta participação de Amarildo Oliveira, o Pelado, no desaparecimento.

 

A família de Pelado diz que ele não tem qualquer envolvimento com o desaparecimento, com atividades criminosas e com armamento ilegal. O suspeito também diz ter sido torturado pela Polícia Militar do Amazonas.

 

Pelado vive numa comunidade vizinha, a São Rafael, e teria sido visto em uma outra embarcação atrás do barco usado pela dupla, na altura de Cachoeira.

 

O local isolado pela PF no sábado não bate com esses relatos. Descendo o rio, como a dupla desaparecida fazia no domingo rumo a Atalaia do Norte, o ponto em que a mochila foi encontrada é anterior à comunidade de Cachoeira. Se uma lancha desapareceu nesse ponto, ela não teria passado pela comunidade.

 

O trabalho da PF foi feito numa parceria com indígenas que vêm empreendendo as buscas por qualquer vestígio relacionado a Pereira e Phillips. No momento do isolamento, os indígenas estavam em duas embarcações usadas no projeto de vigilância mantido pela Univaja. Uma dessas canoas foi utilizada pela policial federal para isolar o local.

 

A área em questão não está dentro da terra demarcada, onde vivem os indígenas envolvidos nos trabalhos.

 

A Polícia Federal afirmou na quinta (9) que encontrou vestígio de sangue no barco de Pelado. O material será cruzado com elementos de DNA de Pereira e Phillips.

 

Equipes de busca localizaram no rio Itaquaí, nas proximidades do porto de Atalaia do Norte, material orgânico aparentemente humano, também encaminhado para perícia.

 

A Justiça do Amazonas acatou pedido da PF e decretou a prisão temporária de Pelado por 30 dias. Dias antes, ele havia sido preso, mas sob acusação de manter munição de fuzil e calibre 16, que são de uso restrito.

Fonte: Folha de S. Paulo