Entrevista com Marta Cortezão, que prepara lançamento de “Amazonidades: Gesta das águas”

17/12/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Nascida em Tefé, no Estado do Amazonas, mora em Segóvia, na Espanha, desde 2012. É escritora, poeta, tradutora, trovadora, ativista cultural. Tem obras (poemas e contos) publicadas em antologias, tanto nacionais como internacionais. Publicou o livro de poesia “Banzeiro manso” (Porto de Lenha Editora, 2017) e prepara lançamento de “Amazonidades; gesta das águas” (Penalux, 2021). Foi sobre esse novo livro que ela concedeu entrevista. Confira:
 
 
Você se prepara para lançar o livro de poesia “Amazonidades: gesta das águas”, pela editora Penalux. Como foi o processo de produção das poesias que formam o livro?
 
O processo de criação do “Amazonidades: gesta das águas” (Penalux, 2021) teve início, em 2018, quando comecei a dedicar quadrinhas às minhas amizades do/no Facebook por pura diversão. Neste momento, as quadrinhas não estavam pensadas metricamente, minha única preocupação era ser sucinta; o tema surgia de acordo com a pessoa que me solicitasse uma quadrinha, e, de modo geral, naquele momento, minhas amizades eram colegas de trabalho, da literatura, alunos, amigas e amigos de infância, ou seja, havia uma convivência para além do virtual. 
 
Na sequência, passei a fazer parte da ALB/AM (Academia de Letras do Brasil – Amazonas), como membro correspondente. Nesse processo, tinha que escolher uma patronesse e, nas pesquisas sobre autoras da Literatura Brasileira produzida no Amazonas (porque queria uma autora que pertencesse ao meu estado), deparei-me com a escritora amazonense Aurolina Araújo de Castro (1933-2004), autora das obras “Janela” (Rio de Janeiro, 1990), “O Lago e os outros poemas” (Manaus, 2000), “Colheita” (Manaus, 2004) que, para além dos poemas, também escrevia trovas, esteve membra da União Nacional de Trovadores e da Academia Brasileira de Trovas e recebeu vários prêmios no gênero. 
Apesar do pouco que consegui saber desta autora, desconhecida da contemporaneidade, a escolhi como patronesse pela  beleza e encantamento de sua poética. A partir de então, decidi escrever um livro de trovas, iniciei minhas leituras sobre o processo de criação das trovas e fui transformando e lapidando as quadras iniciais e compondo outras novas. Assim que foram quatro anos de trabalho dedicados ao processo de produção das poesias que compõem este livro.    
 
 
Na epígrafe você cita o folclorista potiguar Câmara Cascudo: “Quem não tiver debaixo dos pés da alma, a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos”. Como esse conceito da “areia de sua terra” molda a sua poesia?
 
Esta citação de Câmara Cascudo tem o número certo para os pés da minha alma, porque, estar em conexão com minhas raízes, é o que me faz resistir às intempéries de meu estado de constante diáspora. 
 
Sendo a literatura esta bela barca que me transporta a qualquer lugar do globo terrestre, neste livro, a poesia é um passeio de pés descalços pela areia de minha terra, também por outras praias idealizadas; enfim, pela cultura popular, esta tradição situada à margem da cultura canônica que, por sua vez, tem sua origem na oralidade. 
 
Portanto, o livro “Amazonidades: gesta das águas” reboja a poesia do povo das doces águas, das comunidades ribeirinhas, onde me criei e viajei tantas estradas líquidas, bebendo na fonte do imaginário amazônida que pulsa e vibra na tradição oral que me foi legada. E como a literatura pertence ao povo e com ele estabelece uma relação de horizontalidade, de simbiose, este livro é um registro literário, em trovas, destas manifestações culturais a fim de perpetuar a memória popular e tradicional de meu lugar.   
 
 
No texto do prefácio a escritora Sandra Godinho registra que “Marta leva seu canto amazônico como parte da alma e de seu estado de espírito”. Como é olhar e escrever sobre a Amazônia estando na Espanha?
 
Sandra Godinho, autora de diversos romances de destaque no cenário da Literatura Contemporânea Brasileira, deu-me a honra da apresentação do “Amazonidades” e a quem aproveito, mais uma vez, a oportunidade para agradecer, em público, sua gentileza literária. 
 
Olhar e escrever sobre a Amazônia é assegurar minha permanência, pela palavra, no chão de minha ancestralidade; é reforçar a certeza de que sou uma pessoa privilegiada por ter crescido rodeada pela natureza, por ser filha de agricultores, por passar dias e dias de minha infância viajando pelos rios da Amazônia, por ter compartilhado dos hábitos e costumes do luxo de uma vida simples, mas, sobretudo, por poder trazer estas “amazonidades” ao cenário literário contemporâneo, legitimando a importância de preservar a maior bacia hidrográfica, a maior floresta tropical e maior biodiversidade de todo o planeta e, para além da consciência ecológica, reforçar que a Amazônia é o lar das populações ribeirinhas e dos povos originários, já que a literatura também é compromisso social que se estabelece com a humanidade.
 
 
“Mergulhar no universo poético de Marta Cortezão é mergulhar na multipluralidade da Amazônia”, escreveu Isaac Melo sobre sua obra. No que consiste essa multipluralidade?
 
Isaac Melo  é poeta, escritor, historiador e estudioso da literatura brasileira de expressão amazônica e tê-lo como prefaciador deste meu segundo livro foi uma grande alegria. 
Para mim, não é nada fácil explicar esta sua afirmação, portanto, desde já, peço-lhe vênia para fazer minhas divagações, fazendo uso de seu próprio discurso. Após esta afirmação citada em sua pergunta, Isaac Melo complementa com o seguinte: “Suas trovas são pedaços prenhes da vida fecundante e fecunda que lateja incoercível em nossos barrancos, rios, florestas e povos.” Para Isaac, o “Amazonidades: gesta das águas” é um registro poético-ficcional – mas muito fiel da realidade – dos aspectos sociais, culturais e linguísticos “da Amazônia. Não a Amazônia das metrópoles efervescentes, porém, a Amazônia dos ribeirinhos, indígenas e caboclos”.
  
 
Sua poesia flerta com as quadras, com versos de cunho popular e conectados com a cultura amazônida. Como se deu essa opção poética?
 
Acredito que, na primeira pergunta, já me adiantei em falar um pouco sobre isso. No entanto, acrescento que, mais que uma opção, foi um desafio abordar sobre as manifestações culturais amazônicas através de trovas, que são poemas autônomos de quatro versos, construídos em redondilha maior (versos de 7 sílabas métricas). 
 
Para Luiz Otávio, a trova “é a criação literária popular, que fala mais diretamente ao coração do povo. É através da Trova que o povo toma contato com a poesia e sente sua força”. Meu desejo é que o público leitor, que estabeleça contato com estas “Amazonidades”, sinta a força do povo amazônida que pulsa nestes versos, já que a “poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação anterior. A poesia revela este mundo; cria outro” . Que assim seja!
 
 
Pretende fazer lançamentos virtuais do livro? Está nos planos vir para o Brasil lançar o livro em Manaus e outras cidades?
 
Em decorrência de uma nova onda pandêmica pelas bandas de cá, ando muito receosa, pois o vírus está sempre à espreita. É importante não esquecermos disso, pois enquanto celebramos o prazer do encontro físico, há um vírus maquinando à nossa revelia; lembrando também que a vacina não contém a propagação do vírus, apenas pode reduzir o risco de sintomas e consequências para nossa saúde, é preciso seguir com todos os cuidados e precauções. Contudo, tenho em meus planos fazer lançamentos virtuais sim e ir ao Amazonas, ainda em janeiro, e, se possível, visitar amizades em outros estados brasileiros, divulgando o “Amazonidades: gesta das águas”. Torço muito para que o Universo tome para si meus humildes planos. 
 
 
Qual a importância das editoras independentes e de pequeno e médio porte para a divulgação da literatura produzida atualmente?
 
Vejo que as editoras independentes são imprescindíveis para a literatura produzida na atualidade, esta literatura que se levanta das margens e que conta com a ferramenta das mídias sociais para sua difusão. Em especial as pequenas e médias editoras que conseguiram acompanhar a dinâmica do mercado atual, driblando a crise vivida em consequência da pandemia, através da realização de parcerias com livrarias independentes (descontos, brindes para leitores), expansão de vendas diretas ao consumidor, criação de newsletters com recomendações de livros e notícias atuais, lives com lançamentos de livros e diálogos diretos entre autores e leitores, financiamento independente (plataforma de crowdfunding Catarse que arrecada fundos para a comunidade editorial independente), entre outras inovações, mas tudo sempre regado a uma relação de proximidade, cortesia e seriedade com seus/suas autores/as e leitores/as, condição sine qua non é impossível convencer o público consumidor do exigente mercado.
 
A editora Penalux é uma das editoras que tem acompanhado as novas tendências do mercado editorial e que realiza um trabalho responsável e compromissado com a qualidade literária. No entanto, devemos lembrar que o sucesso da divulgação de uma obra, não depende apenas da editora envolvida no processo, mas do/a autor/a independente e de sua disponibilidade para participar no processo, que vai desde a edição do livro até sua venda e, em especial, na relação cordial e atenciosa com seu nicho de leitores. Fato que contribui bastante para a divulgação da literatura de produção independente, pois, nestes tempos tão cibernéticos, o maior prazer é tecer uma boa prosa com o/a leitor/a de sua obra. Esta relação humana de proximidade faz toda uma diferença e nós, autores e autoras, só agradecemos o carinho recebido ofertando sincera atenção. 
 
 
Como observa a produção feita por mulheres hoje no cenário literário?
 
A inserção feminina no cenário da literatura brasileira foi um processo lento e muito árduo. Em pleno século XXI, a história da presença feminina no mercado editorial ainda se ressente, apesar das conquistas alcançadas, já que as dificuldades ainda existem. Em seu livro “Literatura Brasileira Contemporânea: um Território Contestado” (Editora Horizonte, 2012), Regina Dalcastagnè traça uma abordagem analítica e aprofundada da narrativa brasileira, com base na pesquisa de 258 livros de três grandes editoras nacionais (Companhia das Letras, Record e Rocco), publicados entre os anos de 1990 e 2004, onde traz à tona um resultado bastante excludente, já que 72,7% das publicações destas editoras foram realizadas por “homens brancos, heterossexuais, de classe média e de cultura judaico-cristã.”
 
E neste campo de lutas, de inúmeras contestações e de décadas de elaborações teórico-práticas reivindicativas, é possível falar de ações muito positivas que vêm acontecendo, como a criação de coletivos artísticos e literários femininos. Sabemos que o século XXI, o século mais cibernético de nossas vidas, é marcado pelo movimento de incentivo à leitura e à valorização da literatura produzida por mulheres. Lembremos aí da campanha virtual via hashtag #leiamulheres (inspirada no projeto criado pela escritora inglesa Joanna Walsh, em 2014), que sacudiu o ano de 2015 e que também se somou à divulgação de autoras em encontros presenciais. Temos vários outros movimentos que vieram, pouco a pouco, despontando e furando o cerco, através da criação de novos espaços virtuais. Como exemplo, citamos o Grupo Mulherio das Letras Nacional criado, em 12 de março de 2017, por um grupo de mulheres escritoras e revolucionárias. 
 
Este grupo virtual que, atualmente, conta com um número de 7,3 mil mulheres, tem como objetivo primordial “dar visibilidade ao trabalho das mulheres no mercado editorial, em colaboração umas com as outras”. São muitas as escritoras publicadas por meio do coletivo Mulherio Nacional, o qual tem se multiplicado dentro do Brasil, através dos mulherios regionais e no exterior, como é o caso dos Mulherios das Letras na Europa, além de outros coletivos como, por exemplo, o Enluaradas (@coletaneaenluaradas2021). 
É importante ressaltar que através de projetos de publicação de coletâneas/antologias desenvolvidos por estes importantes coletivos de mulheres, um expressivo número de autoras, no qual me incluo, tem logrado a publicação, bem como a divulgação de sua escrita. Não é a solução de todos os problemas, mas uma atitude positiva de luta e resistência por parte de mulheres que buscam explorar múltiplas estratégias a fim de romper com o discurso falocêntrico e misógino, em uma sociedade ainda incapaz de liberar-se da estrutura patriarcal e que tanto oprime e mata mulheres através da cultura do estupro e do feminicídio.
 
Embora ainda haja muita estrada pela frente, a Literatura Brasileira Contemporânea produzida por mulheres, nestes dois últimos anos, vem intensificando cada vez mais sua presença. A marcha dos coletivos pela divulgação da literatura feita por mulheres, inclusive as atuações individuais, vêm ganhando território e cada vez mais espaços. E as redes sociais, as produções editoriais realizadas pelos coletivos femininos, as edições independentes, a diversidade do mercado editorial, o grande número de revistas literárias e pequenas editoras e/ou selo editoriais voltados à publicação e à divulgação da literatura do feminino, entre outros fatores, têm sido pontos fortes para que avancemos; pois, nas palavras de bell hooks (1952-2021), “Solidariedade política entre mulheres sempre enfraquece o sexismo e prepara o caminho para derrubar o patriarcado”. Aí, vamos nós!
 
 
 “E nas plagas amazônicas existe uma intensa e grandiosa produção literária e cultural que precisa ser descoberta por muitos. E a obra de Marta Cortezão é um belíssimo exemplo disso”, escreveu Vânia Maria do S. Alvarez no posfácio. Como observa essa produção literária amazônida?
 
Vânia Alvarez, saudosa amiga e parceira literária que partiu para o plano superior, vitimada pela COVID-19, em junho de 2021, dias antes da defesa de sua tese de doutoramento, CRÍTICA, ENSAIO E MEMÓRIA EM ENEIDA: as interfaces das crônicas publicadas no Diário de Notícias (1951-1960) /PPGL/UFPA, deixando um sentimento de orfandade nos corações amigos. Tê-la no posfácio de minha obra é uma forma de louvar sua vida e muitos de seus apaixonados anos de docência dedicados ao ensino e à pesquisa de literatura brasileira, em especial, a de expressão amazônica produzida no Pará, pois Vânia preparava vários livros, entre eles “A Literatura Amazônica e a Cultura regional, para além das salas de aula (Um Ensaio Amoroso)”. O posfácio de Vânia Alvarez é um fragmento do artigo “Navegando pela Amazônia além das fronteiras: uma leitura do imaginário Tupeba e da poética de Marta Cortezão”, publicado em “Diálogos entre lugares II: língua(gem), educação e literatura” (Temática Editora, 2021), obra organizada pelos docentes do Grupo de Pesquisa sobre Poesia Contemporânea de Autoria Feminina do Norte, Nordeste e centro-Oeste do Brasil (GPFENNCO), da Universidade de Rondônia (UNIR).
 
A literatura contemporânea produzida na Amazônia brasileira tem ganhado cada vez mais espaços, inclusive este ano, o 63º Prêmio Jabuti, na categoria conto, foi para a obra “Flor de Gume”, de autoria da escritora paraense Monique Malcher, segunda autora a levar a estatueta para casa, a primeira foi Olga Savary (1933-2020), em 1971, entre várias outras premiações de destaque no cenário literário. O que ressalto deste processo atual que venho acompanhando com mais frequência, nestes últimos dois anos, é que a efervescência literária tem acontecido das periferias para o mundo, fazendo um movimento inverso ao de costume e alcançado novos rumos. 
 
Acredito que o Brasil está lançando um novo olhar a este universo amazônico ainda tão desconhecido e a literatura tem sido este instrumento revolucionário de mudança, aliada à crítica literária – que desviou o olhar absoluto do cânone para também direcionar à produção literária da contemporaneidade – realizada por importantes grupos de pesquisa das universidades, destaque especial para as dos estados da Amazônia Legal: Acre, Amapá, Amazonas. Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão. 
Apesar de termos ocupado relevantes espaços, sabemos que, como afirma Vânia Alvarez, por estas paragens da literatura brasileira oriunda da Amazônia, “existe uma intensa e grandiosa produção literária e cultural que precisa ser descoberta por muitos”. Não percamos mais tempo!