De repente nos ares do Centro

27/09/2021

Por: SANDRA DUTRA
 
De repente nos ares do Centro
 
Algumas vezes, aos domingos, eu saía com minha tia para alguma sorveteria do centro da cidade. Naquele tempo, minha tia já estava entregando-se à tristeza e não tinha mais aquele gosto de sair como antes. Mas, ainda assim, saíamos. As vezes que ela ia às ruas comigo era pra cumprir obrigações, como comprar material escolar, levar-me à costureira para fazer meu vestido da escola (aí, mandava fazer algumas roupas para ela), entre outros e outros compromissos. 
 
Aquele domingo do ano de 1988 não tinha nada de especial. Tinha uma criança, no caso, eu, louca pra sair de casa, conhecer o mundo, fazer algo diferente e sair daquela mesmice na qual eu me encontrava. O Centro era algo mais do que comum pra mim, já que todos os dias eu andava por ele. Era um universo pra lá de conhecido, mas, por eu conseguir me deslocar até ele, permanecia encantador aos meus olhos, especialmente quando não havia movimento nas ruas.
 
Pois bem. Estava eu com minha tia na Rua Princesa Isabel. Eu andava e olhava em linha reta, a fim de buscar meu objetivo desse passeio: tomar um delicioso sorvete de morango e creme! Ai, que sorvete bom! De repente, uma voz grita: Saaaan-draaaaaa!!!!! E desconcentra-me completamente! Quando olhei para o lado, vi aquela menina que estudava comigo, na mesma sala. Vi Fabíola! Esse era o nome dela! Ela acenou pra mim mostrando a satisfação em me ver naquele dia. 
 
Fabíola! Como adorava aquela menina! Como a presença dela me fazia bem!
 
Enquanto eu ia à sorveteria, ela ia ao cinema ver um filme que foi um grande sucesso da época: O último imperador. Ela, indo assistir ao filme; eu... ah, sim! Eu? Automaticamente, me veio uma música que, assim como o filme, estava fazendo um grande sucesso: Marina no Ar, de Guilherme Arantes. Lembram que falei que sou muito musical? As músicas vêm em minha mente como que por encanto, do nada! A melodia gostosa de Marina no Ar esquentou bastante as minhas noites de verão. Pra mim, é a canção mais gostosa do Guilherme.
 
Uma voz quente canta no rádio / I'm alone with you...
 
Ahhhh!! Quanta coisa eu tenho pra lembrar! Quantas e quantas inúmeras e lindas canções passam pela minha cabeça nos mais diversos momentos!
 
Se eu já achava as músicas do Guilherme Arantes parecidas com minha amiga Fabíola, com essa não seria diferente. Marina no Ar veio de graça, relacionando minha tia, que me ensinou a amar a boa música, à minha amiga e a um pedacinho da cidade que até hoje resiste aos percalços da vida. Ele resiste à solidão das noites escuras, esquisitas e vazias (quem conhece bem o Centro entende o que aqui escrevo), resiste ao desprezo de alguns dos governantes da cidade, seja por falta de investimento para preservar a sua memória, seja por desprezo a uma parcela de pessoas que ainda insistem – resistem – em morar lá. Confesso que, apesar de ter vivido muitos anos ali, não penso jamais em retornar a morar lá outra vez.
 
Pergunto-me: as pessoas que ainda vivem no Centro de Natal o fazem porque gostam, porque não têm outra opção, por teimosia ou por pura resistência mesmo? A resistência de um Centro que não morre? Sim, porque de dia há a plenitude de um lado para o outro de seus transeuntes. Isso é inegável. Ali pulsa vida! Mas, a partir do cair da tarde, ele vai se esvaziando para ficar no ritmo da calada da noite. Sombrio. Vazio. Medroso. Escuro. Será que essas pessoas que lá vivem têm esse medo, essa sensação?
 
Em dias de domingo, então, nem se fala. Parece que o cair da tarde fica mais denso, trazendo a muitos corações uma profunda melancolia. Confesso que gosto de dias de domingo até umas 2 da tarde. Depois disso, gosto de estar quieta, segura, apenas observando a noitinha cair. Não suporto estar fora de casa.
 
Voltando ao foco, digo que a resistência do Centro, não só aqui de Natal como de muitas cidades do Brasil, é também repleta de resignação. A resignação de que é desse jeito mesmo, sem incentivo, sem investimento e que não mudará. A vontade política de invisibilizar os centros das cidades, a fim de expandir o mercado imobiliário para outros pontos, é notável. Quem se atrairia por um lugar sem shopping, por exemplo? Por que comprar em um espaço barulhento e amontoado se é possível comprar em várias lojas modernosas e ainda, de quebra, ter o frio gostoso do ar condicionado ao seu dispor? Cá pra nós, não suporto aquele  calor que derrete meu quengo! Hoje em dia, também não sou adepta aos shoppings. Prefiro comprar a pequenos empreendedores. 
 
Como sabemos que há gosto pra tudo e “cada cabeça, uma sentença”, às pessoas que gostam de morar nos centros, meus aplausos, apesar de não querer mais isso pra mim. É página virada. Foi. Àquelas que não gostam, meus aplausos também. O que fica para mim, como já ilustrei aqui, meus queridos, são as memórias, o bom que vivi. Foram 30 anos de minha vida naquele lugar. E sim, de vez em quando, em minha mente e em meu coração, irá ecoar Marina no Ar.
 
Tudo que você quiser / quando você quiser.
 
Realmente. Marina no Ar vem sempre quando ela quer...