As delícias e os desafios da juventude que se foi

03/08/2021

Por: SANDRA DUTRA
 
Nossa linda juventude / página de um livro bom / canta que te quero gás e calor / claro como o sol raiou.
 
Ah, amigos… As maravilhas e as delícias da juventude! Como é bom ser jovem! E melhor ainda é ter saúde e energia para podermos disfrutar dessa dádiva! E como dói chegarmos a uma certa idade, olhar para trás e ver que não aproveitamos o que devíamos!
 
O que fazer quando temos que enfrentar os desafios daquela juventude que se foi para ter que assumir uma vida estável e responsável?
 
A música que coloquei, e que aqui canto com alegria e saudade, chama-se Linda Juventude, do grupo 14 Bis, grande sucesso dos anos 80 por suas lindas letras e por suas melodias cheias de beleza e sensibilidade. Como eu sempre digo, quem viveu naquela época incrível sabe os que aqueles anos representaram! 
 
E o que é a juventude, amigos? Para mim é aquele boom, sabem? É aquela chama que vem de uma maneira praticamente incontrolável e que faz você querer aproveitar todas as oportunidades que vêm na sua frente. É despertar para coisas completamente desconhecidas e ter gana de conhecer cada pedaço daquilo que interessar. Enfim, ela é uma chuva de experiências que a vida nos convida a experimentar. 
 
E quando ainda não temos a responsabilidade da vida adulta? Quando sabemos que vamos chegar em casa das baladas da vida e vamos encontrar comidinha pronta, roupinha lavada e aquela cama cheirosa pra dormir? Geeeente! Pensem num negócio excitante!!
 
Maravilha /  juventude / tudo de mim / tudo de nós...
 
Nos tempos dos meus vinte e poucos anos, eu tive tudo que alguém poderia desejar: casa, comida, roupinha lavada e outros bônus. E sim, dei tudo de mim! Dei todo o gás que pude e ainda poderia ter dado muito mais para aproveitar aquela época que passou tão depressa! Minha ânsia de sair dos portões da casa da Deodoro era maior que tudo no mundo! Fui criada entre quatro paredes, em uma avenida altamente movimentada e com pouquíssimos amigos da minha idade. Tanto na infância como na adolescência foi assim. Atravessar aqueles portões era mais do que uma mera vontade. Era um enorme desafio a ser conquistado. E eu conquistei.
 
Fui, então, escrevendo as páginas de minha juventude. A grana que ganhava trabalhando como professora era só pra mim. Sendo assim, podia tranquilamente ir às muitas baladas que fui, às festas que queria, presentear amigos e comprar o que quisesse para minha pessoa. Sem contas a pagar, sem o peso da responsabilidade dos adultos. Como era boa aquela vida! Não vou negar. Era boa, era boa e era boa!, parafraseando o poeta. Entendedores entenderão!
 
Hoje, com quase 44 anos, ainda sinto muita falta do que vivi naqueles tempos. Não fui treinada para a vida como deveria e temo que essas e as futuras gerações sejam piores. A vida é cheia de vantagens e desvantagens, e uma destas é ser privado dos desafios que ela oferece, é ser tratado eternamente como criança, é ser infantilizado. Foi assim que aconteceu e é assim que está acontecendo com muitas crianças e adolescentes dessa geração. Dá pra imaginar como vai ser quando eles crescerem, né? 
 
Quando na música do 14 Bis é cantado: maravilha / juventude / pobre de mim / pobre de nós… pobres os que não aproveitam a juventude e seus encantos; pobres também os que não são devidamente treinados para a vida adulta, a fim de assumir as responsabilidades que ela exige. Há de se encontrar o caminho do meio. Mas pensem num caminho penoso e difícil de se achar! Muitos pecam por excesso, outros, por falta. 
 
Somos multidões sagradas tentando todos os dias evoluir.
 
Ter mais de quarenta anos é ser velho? Obviamente que não, apesar de vivermos em um país que, absurdamente, quer porque quer que não sirvamos mais pra nada a partir dessa idade. Mas estamos quebrando barreiras e paradigmas. Estamos fazendo diferente. Eu não me troco por duas mocinhas de vinte e poucos anos. Hoje faço coisas que nunca pensei que faria naquela idade. O interessante, aliás, muito interessante e ideal, seria ter meus vinte com a cabeça que hoje tenho. 
 
Com relação à vida adulta, está mais do que na hora de assumir as responsabilidades que ela exige. Isso significa trabalhar, pagar contas, cuidar de uma casa, educar os filhos (se os tiver) e, sim, ser livre. A delícia de ser adulto é que, ao assumir o que se tem que assumir, a liberdade vem nesse pacote, o que não se pode ter quando terceiros pagam as nossas contas. Isso lhes dá o “direito” de se meterem na nossa vida e dizer como devemos conduzi-la. Quem nunca?!
 
O conselho que posso dar é: aproveitem a juventude da melhor forma que for possível! Brinquem, saiam, façam amigos, namorem muuuuuito! Mas também, deixa eu lhes falar uma coisa: não se esquivem das responsabilidades, pois elas virão, quer a gente queira ou não. Afinal de contas, mesmo não sendo fácil (quem disse que seria?), achar o caminho do meio para essa equação é bastante possível. 
 
Lembram que somos multidões sagradas procurando a evolução? Então? A resposta tá aí!