Adriane Garcia: ´Mulheres corajosas lutaram para que hoje mulheres escrevam`

20/05/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Poeta, escritora, teatroeducadora e atriz Adriane Garcia nasceu em 1973 em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, onde vive até hoje.  Graduou-se em História pela Universidade Federal de Minas Gerais e se especializou em Arte-Educação na UEMG. Publicou diversos livros, como  "Fábulas para adulto perder o sono" (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura em 2013, na categoria poesia), "O nome do mundo (Armazém da Cultura, 2014), "Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015), "Garrafas ao mar" (Penalux, 2018), "Arraial do Curral del Rei: a desmemória dos bois", (Conceito Editorial, 2019) e "Eva-proto-poeta" (Editora Caos & Letras, 2020).  Em entrevista ao PN Adriane falou sobre mulheres que escrevem, livros, pandemia, projetos e mercado editorial. Confira:  
 
 
Você tem formação acadêmica em História. Em que isso influi em sua produção poética ou visão da Literatura?
 
Acho que influi muito. A formação em História me ajudou a ler melhor a realidade, a lê-la criticamente, e essa crítica acaba sendo parte de nosso olhar, em sentido amplo. Penso que até mesmo na escolha de muitos de meus temas há influência da minha formação em História. Por exemplo, fiquei mais de uma década pesquisando sobre a construção de minha cidade, Belo Horizonte, para escrever o livro de poemas Arraial do Curral del Rei e o foco do livro é a população expulsa, pobre, de maioria negra, que não cabia (e não cabe ainda) dentro do nosso modelo desigual de República. Em Eva-proto-poeta muito me moveu a vontade de contar algo da história das mulheres, no caso, como o discurso judaico-cristão nos é opressor e feito para calar a nossa voz, reproduzir a violência contra nós e nos manter inferiorizadas.
 
 
Percebe-se que você é muito ativa nas redes sociais. Qual a importância das redes para quem produz literatura atualmente e quais as armadilhas que elas podem oferecer para quem escreve?
 
Sou bastante ativa nas redes sociais, às vezes até mais do que gostaria (risos), pois toma muito tempo, tira tempo de leituras importantes. Do mesmo modo, as redes contribuem como um espaço democrático para divulgação do trabalho de artistas que não possuem penetração em outros meios de comunicação como televisão, grandes jornais e revistas. Há joio e trigo. Muito joio, algum trigo - com tempo e atenção a gente vai aprendendo a separar. Hoje lido melhor com as redes, que acho que também podem causar danos emocionais, pois seus mecanismos são feitos para estimular o medo, a inveja, a impetuosidade, a competição. O algoritmo quer alimentar os posts, custe o que custar ao usuário, tem aquela história de "não existe almoço grátis". Quando eu entro e começo a implicar com excesso de selfies, Leminskis tardios, Bukowskis falsificados e Cummings sem pé nem cabeça enfiando parênteses em tudo quanto é palavra que pode ser partida eu penso: saia, hoje será um problema (risos). No dia que eu vejo que poderei partilhar de bons artigos, memes inteligentes, bons poemas de excelentes escritoras e escritores que também estão por ali, eu fico. É uma questão da gente se observar também, a gente pode não estar em um bom dia.
 
 
Você tem livros de poesia, entre eles o elogiado "Garrafas ao mar". Você pensa num livro de poesia conceitualmente ou escreve sem pensar como um todo e depois reúne a produção? Qual seu método para escrever e publicar um livro de poesia?
 
Geralmente penso em um livro conceitualmente. Foi assim com Fábulas para adulto perder o sono; Só, com peixes; Arraial do Curral del Rei; Eva-proto-poeta. Não foi como O nome do mundo, porque eu ainda estava em início de aprendizagem e não foi com Garrafas ao mar porque eu quis reunir material que considerei bom, mas que por alguma razão não coube nos outros livros. Atualmente trabalho na reescrita de A bandeja de Salomé, que sairá em edição bilíngue, na tradução de Manuel Barròs, para o espanhol. Também estou trabalhando essa tradução com ele. E escrevo um novo livro que vai sair numa coleção bacana que vem por aí. 
 
 
Você lançou o livro  ´Eva-proto-poeta com um conceito de revisitar as mulheres da Bíblia. Qual o paralelo entre as mulheres do imaginário bíblico com a condição feminina atual?  
 
O nosso imaginário é composto por essas histórias todas que atravessam as nossas ancestralidades. Essas histórias, essas mitologias nos são contadas, muitas vezes como verdades, por gerações e gerações. Em pleno século 21 ainda há mulheres que acreditam que vieram da costela de um homem, que nasceram para servi-los, que uma mulher só se realiza se for mãe, que devem se submeter por vontade divina quando, na verdade, é todo um sistema de poder chamado patriarcado que se beneficia desse imaginário. Imaginário por imaginário, preferiríamos uma deusa-mãe, queremos Lilith, queremos as que subvertem a ordem porque esta ordem que aí está (patriarcado e capitalismo) só se provou danosa e está acabando com o planeta e tudo que tem dentro.
 
 
Como vê interação entre autores e autoras de diferentes regiões? Quem escreve em Minas lê escritores do Nordeste, por exemplo? E mineiros/mineiras são lidos/lidas no eixo Rio-São Paulo?
 
Voltamos ao assunto das redes sociais e aqui emendamos com a proliferação das pequenas editoras. Acho que elas facilitaram muito esse intercâmbio. Eu leio gente de todo lugar do Brasil e muitos desses trabalhos eu só conheço por ter visto nas redes e por terem sido publicados por pequenas editoras. 
 
 
Como vê os prêmios literários para quem escreve literatura? Eles são realmente importantes?
 
Os prêmios literários são importantíssimos, principalmente aqueles para originais, sob pseudônimo. Nestes, o pequeno pode se proteger do grande e ser avaliado por seu mérito e não seu tamanho (não estamos falando de qualidade da obra, mas de construção midiática). Os prêmios podem fazer um autor conseguir uma melhor divulgação e aceitação do seu trabalho, acelera etapas que talvez sem o prêmio o escritor nunca atingisse. Quanto aos prêmios de livros editados é bom quando se ampliam e repensam suas práticas que, muitas vezes, reproduzem a falsa meritocracia existente no Brasil.
 
 
De maneira geral os homens leem literatura escrita por mulheres? E o mercado editorial, trabalha com equidade com escritoras e escritores? 
 
Hoje vejo muitas mulheres publicando por pequenas editoras, muitas têm se tornado editoras, não sei quanto às grandes Casas, como anda estatisticamente a publicação de literatura escrita por mulheres. A professora Regina Dalcastagnè, no livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado, fala sobre isso, sobre um mercado editorial de grandes editoras que privilegia um tipo de escritor, branco, sudestino (RJ, SP), classe média. E ao privilegiar um tipo de escritor acaba-se privilegiando também seus temas, narradores e personagens. Eu leio muita literatura feita por mulheres, pessoas negras, de orientação sexual diversa da heteronormatividade e muitos desses trabalhos estão nas pequenas. Esses trabalhos trazem narradores e personagens bem diversos dos que eu costumava ler na escola.
 
Pelo que observo (não tenho uma estatística sobre isso), muitos homens têm melhorado essa atenção de que é preciso ler a literatura feita também pelas mulheres, mas muitos não leem mesmo. Foi uma educação lendo homens, contendo o ponto de vista masculino, explicando o mundo pelo olhar muitas vezes machista, lendo sobre mulheres que os homens construíram. Muitos homens querem e vão continuar a ter só essa versão do mundo.
 
Nós, mulheres, também vemos o mundo, participamos dele. Foi por uma mulher que cada homem nasceu, essa é uma das nossas experiências, não é nem de longe a única. Nós temos um ponto de vista, vimos os eventos que os homens viram. Estávamos lá. E também estivemos em muitos lugares que eles não estiveram. Fomos impedidas de falar publicamente dessa nossa subjetividade. Agora, graças a mulheres que, no passado, enfrentaram os interditos à custa da vida, de serem violentadas ou internadas em manicômios, escrevemos. Mulheres muito corajosas lutaram para participar do mundo público. Os homens que não leem o que as mulheres escrevem estão perdendo metade da própria História, pois a História da humanidade não é a história dos homens.