Dos EUA, reflexões sobre educação em tempo de pandemia

11/08/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Laécio Lacerda ( University of Medicine and Health Sciences - UMHS )

 

Dos Estados Unidos da América, reflexões sobre educação em tempo de pandemia

 

Entrevista com Laécio Lacerda, diretamente dos Estados Unidos da América, sobre a configuração da educação no enfrentamento da pandemia do Covid-19. O entrevistado é estudante do campo da Medicina e pesquisador na University of Medicine and Health Sciences (UMHS), campus St. Kitts (Basseterre; Caraíbas). Na entrevista ao jornal Potiguar Notícias fala sobre aspectos adotados para a inclusão digital de estudantes do ensino superior, sobre a preocupação nacional com a escola presencial e sobre a importância da tecnologia que, em sua opinião, “é ótima e definitivamente deveria ser gradualmente integrada em nossas reformas educacionais; entretanto, por si só não irá e não deve substituir as interações físicas de aluno-professor e aluno-aluno”.

A entrevista, realizada integralmente no idioma inglês (conforme segue no final), foi traduzida para a língua portuguesa pelos autores mediadores da entrevista.

1. Como você avalia o impacto da Covid nos Estudos Unidos, tomando como exemplo o estado da Geórgia onde vive?

Enquanto escrevo sobre o efeito do Covid-19 na comunidade em que vivo, o estado conservador da Geórgia ultrapassou a marca de 197.000 casos de Covid-19, com um número de mortes de 3.921 e quase 160.000 casos ativos. Os Estados Unidos da América já registraram quase 5 milhões de casos de Covid-19, com 160.290 mortes e 2.5 milhões de cidadãos recuperados da infecção. Os distritos escolares da Geórgia reabriram na semana passada e apenas em um distrito, 260 funcionários testaram positivo para Covid-19 e foram enviados para quarentena. Essas taxas rápidas de infecções mostram como o Covid-19 está disseminado na população dos EUA.

2. Pode dar-nos ideia do impacto na situação econômica e social nos Estados Unidos?

Infelizmente, a economia dos Estados Unidos tem sofrido bastante com o aumento do número de casos de Covid-19, a falência de pequenas empresas e a desaceleração do consumo. Desde o início da pandemia, 52,7 milhões de pedidos de seguro-desemprego foram registrados nos Estados Unidos. O número de americanos sem qualquer forma de cobertura de saúde saltou de 26 milhões para algo em torno de 31 milhões de pessoas durante a pandemia de Covid-19. Os Estados Unidos é uma federação muito complexa, com cada estado funcionando como se fosse um pequeno país e ratificando suas próprias leis e regulamentos sobre como abordar a pandemia de Covid-19. Apenas para dar um exemplo, no estado de Washington, o governador democrata, Jay Inslee, assinou um decreto que torna obrigatório o uso de uma máscara em público. Já no estado da Geórgia, o governador republicano, Brian Kamp, anunciou que vai processar a prefeita da capital do estado por obrigar os moradores de Atlanta a usarem máscara em público. É muito difícil fazer previsões para o futuro até que uma vacina ou qualquer forma de imunização esteja amplamente disponível para cobrir e proteger a população americana. Tendo dito isto, os EUA anunciaram um adiantamento de $1,2 bilhões por 300 milhões de doses da vacina que está sendo pesquisada e produzida na Universidade de Oxford pelo laboratório AstraZeneca. Os Estados Unidos esperam ter uma vacina disponível para seus cidadãos já em dezembro de 2020.

3. E sobre os impactos a nível político, uma vez  que os Estados Unidos estão em vésperas do ato eleitoral para eleição do Presidente considera que esta pandemia pode ter efeitos na escolha dos americanos?

Acredito que este seja o momento mais cheio de suspense que os Estados Unidos experimentam desde o início da pandemia, porque em apenas 90 dias o país escolherá seu próximo presidente. Em 3 de novembro de 2020, os americanos decidirão se o republicano e conservador Donald Trump será reeleito para um segundo mandato ou se o democrata e centrista Joe Biden assumira o poder em Washington D.C. Dada a nossa tradição de reeleger presidentes para segundos mandatos e a imprevisibilidade criada pela pandemia do coronavírus é difícil saber o que vai acontecer em novembro. De qualquer forma, as eleições presidenciais nos Estados Unidos são eventos gigantescos que afetam o cenário nacional e internacional vastamente.

4.  Regressemos à educação, em seu entender que impactos houve na educação escolar? E para os estudantes, no contexto da pandemia?

Muitas faculdades e universidades nos Estados Unidos já anunciaram que terão apenas aulas online até o verão de 2021. Houve uma grande adaptação para implementar aulas online nos EUA. Os alunos, por outro lado, tiveram que lidar com uma mudança repentina em sua experiência de aprendizagem e, em alguns casos, uma queda na qualidade de seu aprendizado. Como explicar e ensinar uma geração jovem sobre como se distanciar e se isolar, quando a maioria deles tem o espírito ansioso e natural para valorizar a comunhão e a união? Já é fato que 2020 será composto por uma grande quantidade de mudanças e ajustes.

Como profissional de Saúde Pública, também me preocupo com a saúde mental de nossa geração jovem e da população em geral. Por quanto tempo mais seremos capazes de nos isolar sem desenvolver algum tipo de transtorno de saúde mental? Quanto tempo mais a sociedade pode suportar com tal alto número de desemprego? E quanto àqueles que, antes da pandemia, sustentavam uma ténue estabilidade para pagar as contas e viver a vida? O que fazer com milhões que precisam de consultas regulares para suas doenças preexistentes, mas não têm conseguido marcar consultas médicas devido a um sistema sobrecarregado com pacientes da Covid? Há muitas perguntas aguardando respostas, mas infelizmente apenas algumas poucas respostas foram fornecidas até o momento.

5. Que medidas foram tomadas para a implementação da educação online, a diatância, diante das contingências causadas pela pandemia?

A maioria dos estados dos Estados Unidos tem encorajado o aprendizado online em vez do aprendizado pessoal. Um excelente exemplo de programas de ensino à distância foi desenvolvido no estado de Washington. O governador de Washington lançou o Programa de Equidade de Ensino à Distância, que fornecerá $8,8 milhões adicionais para ajudar famílias de baixa renda a comprar planos de internet e atender outras necessidades de tecnologia. Um dos principais pontos que os servidores públicos e os governos regionais devem entender é a necessidade de encontrar novas maneiras de ajudar a equilibrar o sistema de aprendizado entre os diferentes níveis de renda em suas comunidades. As famílias de baixa renda devem ter certeza de que seus filhos estão recebendo a mesma quantidade de ferramentas de aprendizagem e atenção que outras famílias de classe média ou classe alta recebem; e descobrir esse ponto de equilíbrio pode resultar num ambiente de aprendizado mais equitativo para crianças de todas as idades.

6. Pode contar-nos alguma experiência educativa bem sucedida no contexto atual do isolamento social?

Como mencionei anteriormente, os investimentos estaduais e nacionais para diminuir a lacuna do acesso à educação por meio de métodos online têm sido uma das abordagens mais bem-sucedidas implementadas nos Estados Unidos durante esta pandemia. Eu dei o exemplo do Estado de Washington, que investiu $8,8 milhões para comprar planos de internet para famílias de baixa renda a fim de atender às necessidades de tecnologia em seu sistema educacional em todo o estado. Outro exemplo semelhante ao estado de Washington vem de Nova York, onde seu governador o democrata, Andrew Cuomo, assinou recentemente um acordo com Bill Gates para, como Cuomo coloca, reimaginar a educação pública no estado por meio da tecnologia. A ideia do governador Cuomo faz parte de um movimento crescente nos Estados Unidos que vê o ambiente atual da sala de aula física como desatualizado e precisando desesperadamente de uma reformulação. Por outro lado, embora alguns vejam a importância da tecnologia durante a pandemia de Covid como positiva, também há temores de que a tecnologia vá aumentar ainda mais as desigualdades no acesso e na qualidade da aprendizagem nos Estados Unidos e em todo o mundo. A verdade é que ainda estamos no meio de uma grande mudança na maneira de como costumávamos levar nossas vidas. Acredito que a resposta sobre nosso sistema educacional está entre as opções que acabo de mencionar. A tecnologia é ótima e definitivamente deveria ser gradualmente integrada em nossas reformas educacionais; entretanto, a tecnologia por si só não irá e não deve substituir as interações físicas de aluno-professor e aluno-aluno.

7. Que mensagem de entusiasmo você enviaria para a sociedade brasileira?

Por mais horrenda e devastadora que tenha sido essa pandemia, quando tudo isso acabar e nossas vidas voltarem ao novo normal, acredito piamente que iremos ter saido mais fortes do outro lado. As coisas nunca mais serão as mesmas e com certeza vamos sempre prestar mais atenção e aprender sobre o que está acontecendo a nível nacional e internacional. Também vejo a raça humana como uma raça fortemente resiliente, capaz de se remodelar, se reencontrar e se reagrupar após as tragédias que abalam suas vidas e meio ambiente. Vejo a sociedade brasileira com um imenso potencial para se preparar melhor para qualquer que seja a surpresa que a vida lhes lance no futuro. O Brasil está cheio de cientistas e profissionais inteligentes e empenhados em fazer deste país um lugar melhor e mais seguro para os brasileiros viverem. Nunca me cansarei de repetir que os brasileiros gastam muito tempo apontando os pontos negativos e muito pouco tempo apontando o que há de bom em si mesmos. As pesquisas que saem do Brasil são incríveis e o Brasil é líder mundial em áreas que vão desde agricultura até o tratamento de doenças infecciosas. Talvez essa pandemia possa nos ajudar a praticar alguma autoanálise para descobrirmos e valorizarmos quem somos e o quão longe chegamos como nação.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

Fonte: Laécio Lacerda (EUA)

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Entrevista original, em inglês

1. EUA after the covid-19 Pandemic

As I write about the effect of Covid-19 in the community I am currently living in, the conservative State of Georgia has surpassed the mark of 197,000 cases of Covid-19, with a death toll of 3,921, and almost 160,000 active cases. Nationwide, the United States of America has reported almost 5 million Covid-19 cases, with 160,290 deaths, and 2.5 million citizens recovered from the infection. Georgia’s school districts reopened last week and in one district alone, 260 employees have tested positive for Covid-19 and sent home to quarantine. These rapid rates of infections only show how spread out Covid-19 is in the US population.

2. Aspects of EUA, especially in the context of the pandemic

Unfortunately, the United States’s economy has been suffering greatly from the rising numbers of Covid-19 cases, small businesses bankruptcy, and the slowing down of consume. Since the beginning of the pandemic, 52.7 million jobless claims were filed in the United States. The number of Americans without any form of healthcare coverage has jumped from 26 million to somewhere around 31 million individuals during the Covid-19 pandemic. The United States is a very complex federation, with every state functioning like a small country and ratifying their own laws and regulations on how to approach the Covid-19 pandemic. Just to give an example, in Washington State, the democratic governor has signed a decree making wearing a mask in public mandatory; wheras in the state of Georgia, the republican governor has announced he is going to sue the State Capital’s Mayor for mandating Atlanta’s residents to wear a mask in public. It is very hard to make any predictions for the future until a vaccine or any form of immunization is widely available to cover and protect the American population. With that being said, the US has announced a down payment of $1.2 billion dollars for 300 million doses of the vaccine being researched and produced at Oxford university through AstraZeneca. The United States hopes to have a vaccine available for its citizens as early as December 2020.

3. Political aspects

I believe this is the most suspenseful moment the United States have experience since the starting of the pandemic because in only 90 days the country will choose its next president. On November 3rd, 2020, Americans will decide whether the Republican and conservative Donald Trump will be reelected for a second term, or if the Democrat and centrist Joe Biden will rise to power. Given our tradition to reelect presidents for second mandates and the unpredictability created by the coronavirus pandemic, it is hard to know what is going to happen in November. Either way, presidential elections in the United States are huge events that affect the national and international scenario.

4.  Aspects of students, especially in the context of the pandemic

Many colleges and universities throughout the United States have already announced online-only classes until the summer of 2021. There has been a great amount of adaptation in order to implement online-only classes in the US. Students on the other hand, have had to deal with a sudden shift in their learning experience and, in some cases, a drop in the quality of their study experiences . How to explain and teach an young generation about distancing and isolating themselves when most of them have the eager, natural spirit for treasuring fellowship and togetherness? It is already a fact that 2020 will be composed of a great amount of change and adjustments. As a Public Health professional, I also worry about the mental health of our young generation and the general population. How much longer are we able to isolate ourselves without developing some type of mental health disorder? How much longer can society withstand with such high number of unemployment? And what about those whom, before the pandemic, were already barely scraping the surface in order to pay their bills and live their lives? What to do with millions that need regular check-ups for their preexisting conditions, but have not been able to make doctors’ appointments due to an overwhelmed system with Covid patients? There are many questions waiting to be addressed but unfortunately only a handful of answers have been provided.

5. Orientation for education

Most states in the United States have encouraged online over in-person learning. One great example of distance learning programs was developed in Washington State. Washington’s governor have launched the Distance Learning Equity Program, which will provide an additional $8.8 million to help low income families buy internet plans and address other technology needs. One of the main points public servants and regional governments must understand is the need to find new ways to help equilibrate the learning system amongst the different levels of income within their own communities. Lower income families must be assured that their kids are receiving the same amount of learning tools and attention that other middle- or higher-class families have; and figuring out this equilibrium point can bring about a more equitable learning environment to kids of all ages.

6. Exit for education

As I have previously mentioned, local and national investments in order to decrease the gap to accessing education through online methods, has been one of the most successful approaches implemented in the United States during this pandemic. I gave the example of Washington States, which invested $8.8 million to buy internet plans for low income families in order to address technology needs within its education system statewide. Another example similar to Washington State comes from New York, where its democratic Governor, Andrew Cuomo recently signed an agreement with Bill Gates to, as Cuomo puts, reimagine public education in the state through technology. Governor Cuomo’s idea is part of a growing movement in the United States that sees the current physical classroom setting as outdated and in desperate need for a reshape. On the other hand, while some see the importance of technology during the Covid pandemic as positive, there are also fears that technology will further amply inequalities in access and quality of learning in the United States and around the globe. The truth of the matter is that we are still finding ourselves in the midst of such a great shift in the ways we used to carry on with our lives. I believe that the answer about our educational system lies in between the options that I have just mentioned above. Technology is great and should definitely be gradually integrated into our educational reforms; however, technology alone will not and should not substitute the physical student-teacher interactions.

7. Message for Brasil

As horrendous and devastating this pandemic has been, I strongly believe that we will come out stronger on the other side, when all of this is over and our lives go back to the new normal. Things will never be the same again and we will definitely pay more attention and read about things happening at a national and international level. I also see the human race as a strongly resilient race, capable of reshaping, reencountering, and regrouping themselves after the tragedies that shake their lives and environment. I see the Brazilian society with an immense potential to better prepare itself for whatever life throws at them in the future. Brazil is full of smart scientists and professionals committed to making of Brazil a better and safer place for Brazilians to live in. I will never get tired to repeat that Brazilians spend too much time pointing out the negatives and too little time pointing out the good about themselves. The researches that come out of Brazil are amazing and Brazil leads the world in areas ranging from agriculture to infectious disease treatments. Maybe this pandemic can help us to practice some self-analysis into discovering and valuing what we are and how far we have become as a nation. 

 

 

Fonte: Laécio Lacerda ( University of Medicine and Health Sciences - UMHS)