Em Moçambique / África, educação escolar durante o estado de emergência

27/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Ms. Anacrista Milicinho (Universidade do Minho)

De Moçambique/África, reflexões sobre os constrangimentos do ensino remoto

Entrevista internacional com Anacrista Milicinho sobre a experiência educativa de ensino remoto em Moçambique motivada pela pandemia. Anacrista Milicinho é Mestre em Ciências da Educação, na especialidade de Tecnologia Educativa, pelo Instituto de Educação da  Universidade do Minho em Portugal. É professora do ensino secundário geral (9ª e 10ª classes) em escola da cidade de Tete, localizada no centro do país (Moçambique). Neste entrevista fala das consequências que o encerramento das escolas pode ter, pois “quanto mais tempo as crianças ficarem fora da escola, menor é a probabilidade de elas lá voltarem, aumentando o risco de caírem no analfabetismo”. Embora no seu caso pessoal, como professora do ensino secundário (médio) em escola da cidade de Tete, considere a experiência boa, pois sempre teve o sonho de trabalhar com plataformas online no sistema de ensino, considera que, no geral, há diversos constrangimentos pois o retorno (feedback) dos estudantes é frágil, daí que entenda que nestes casos se está perante uma aprendizagem “muda” (silenciosa), ficando difícil para os professores perceberem se em casa os seus alunos se estão dedicando ao estudo. A concluir, entende que não há um único caminho certo para o ensino e aprendizagem,  que para os professores e alunos, e sociedade no geral, o caminho é de olhar para frente, com esperança, “se nunca desistirmos a vitória ficará mais perto”.

 

1. Professora Anacrista Milicinho inicialmente gostaríamos que falasse as consequências do isolamento social para a educação escolar em Moçambique.

A pandemia afetou os sistemas educacionais em todo o mundo, levando consigo o interromper geral das aulas, também assim foi no meu país, Moçambique, que, desde 23 de Março, levou 14.970 escolas a encerrar, incluindo universidades e faculdades, afectando mais de 8,5 milhões de estudantes com o interromper de escolas em resposta à pandemia. O meu país encontra-se em quarentena, e as medidas de proteção são o uso obrigatório das máscaras, o reforço da vigilância de lavagem constante das mãos que envolvem cuidados pessoais e isolamento social. Quanto mais tempo as crianças ficarem fora da escola, menor é a probabilidade de elas lá voltarem, aumentando o risco de caírem no analfabetismo.

2. Quais as alternativas encontradas para a educação escolar durante o estado de emergência em Moçambique?

Houve  transferências das aulas e outras atividades pedagógicas para plataformas digitais, aulas pela televisão, envio de brochuras digitais aos alunos usando as redes sócias (WhatsApp), aulas nas rádios comunitárias para as zonas rurais, e, para aqueles que não possuem aparelhos moveis, os encarregados  de educação são os únicos permitidos a levantar os matérias físicos para os seus educandos nas escolas. Estas foram as alternativas encontradas pelas instituições de ensino primário e secundário geral, durante o estado de emergência, prorrogado até 29 de julho, mas não são inclusivas pois deixam de fora, na sua maior parte, os estudantes que vivem nas zonas rurais.

3. Que sentimentos lhe despontaram, como professora do ensino secundário na cidade de Tete, aquando da suspenção das atividades escolares presenciais?

Foi de grande espanto com a repentina paragem e de pensar como seriam as aulas, dois dias depois fui adicionada ao grupo de WhatsApp e comecei a enviar material didático, exercícios e testes de avaliação, foi difícil porque os alunos, como os professores, não estavam preparados para esta situação de ensino remoto, principalmente porque sucedeu de forma repentina.

4. Houve constrangimentos e obstáculos nessa transição do ensino-aprendizagem presencial para o remoto?

Houve muitos obstáculos para a aprendizagem pois muitos estudantes não possuem telemóveis, tablet e, pior ainda, não têm acesso a internet. Para a instituição onde leciono, esta prática de ensino remoto dificultou (e dificulta) bastante no processo de aprendizagem. Apenas vinte por cento (20%) dos alunos retornam com seu feedback, assim fica difícil de entender se o aluno está a se dedicar ao estudo em casa. Estamos perante um processo de aprendizagem “muda” (silenciosa) pois não há qualquer retorno de muitos estudantes.

5. Em relação aos professores, que leitura se pode realizar de suas reações?

Para os professores, esta experiência tem sido complexa, neste período incerto, é fundamental que os professores possam receber uma visão geral da sua atuação, pois este processo poderá mudar todo o sistema educacional, podendo não voltar a ser o mesmo.

6. E para si,  como professora com pesquisa no campo da Tecnologia Educativa,  qual foi o sentimento vivenciado com este experiência?

Na minha opinião, desde o início da quarentena, a experiência de ensino remoto está sendo boa, sempre foi um sonho trabalhar nas diversas com plataformas online no sistema de ensino, o feedback é positivo e participativo, apesar de alguns estudantes levarem de ânimo leve.  

Entendo que não há um único caminho certo para o ensino e aprendizagem, Para professores e alunos, e sociedade no geral, o caminho é de olhar para frente, com esperança. Se nunca desistirmos a vitória ficará mais perto.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Ms. Anacrista Milicinho (Universidade do Minho)