Ignorantes com privilégios

21/07/2020

Por: Beth Olegario
 
«Cidadão não! Engenheiro Civil formado. Melhor que você». Esta frase viralizou nas redes sociais no dia 06 de Julho de 2020. Treze dias depois, isto é, no dia 19 de Julho de 2020 ao ser abordado por descumprir a regra do uso de máscaras em público o desembargador Eduardo Siqueira humilhou e ameaçou um guarda municipal. «Você vai ver com quem está se metendo», «Você sabe ler?», «Estou aqui com um analfabeto». Estas foram algumas das agressões do desembargador dirigida à equipe da guarda municipal, em Santos (SP).
 
Parece-me que ter estes discursos filmados tem um outro impacto é que eles não são novos. Há 110 anos sem smartphone mais com caneta e folhas de papel Afonso Henriques de Lima Barreto denunciava o fetiche pelos títulos e criticava veementemente as «doutoridades» e à doutorice da República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Dizia ele que « De todos os graus de nosso ensino, o pior é o superior [...]”, porque “[...] sendo o menos útil e o mais aparatoso, tem o defeito essencial de criar ignorantes com privilégios»
 
Desembargador e Engenheiro Civil estas eram as profissões dos cidadãos que faziam parte da aristocracia doutoral da República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Lima Barreto dizia que esta aristocracia era «constituída pelos cidadãos formados nas escolas, chamadas superiores, que são as de medicina, as de direito e as de engenharia». Dizia que em qualquer país os cidadãos que obtinham tais títulos iriam exercer uma profissão como outra qualquer. Mas na Bruzundanga, não. Dizia que «Uma pessoa da plebe nunca dirá que essa espécie de brâmane tem carta, diploma; dirá: tem pergaminho»
 
«Sou filho de fulano», «Você sabe com quem está falando?», «Cidadão não! Engenheiro Civil formado. Melhor que você». Estes discursos filmados que agora andam a escandalizar o povo brasileiro também eram proferidos no país fictício criado por Lima Barreto. «Há casos tão escandalosos que, só em contá-los, metem dó. Passando assim pelo que nós chamamos preparatórios, os futuros diretores da República dos Estados Unidos da Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do que quando para lá entraram. São esses tais que berram: "Sou formado! Está falando com um homem formado!»
 
Estas reactualizações discursivas violentas «são apenas continuações modernas das distinções sociais típicas de sociedades oligárquicas». Elas evidenciam que a educação no Brasil e na Bruzundanga foi/é um instrumento de perpetuação das desigualdades.
 
A sociedade brasileira possui, actualmente, 209,3 milhões de habitantes. Destes apenas 15% têm acesso ao ensino superior. As chances de entrar em uma universidade diminui de acordo com três quisitos: cor, renda e região. Em uma breve consulta nos dados do IPEA, descobri que mais de 60 % porcento dos jovens das regiões Norte e Nordeste, em 2010, não possuíam o quesito base para entrar no ensino superior, isto é, não tinham concluído o ensino médio, e 35 % porcento não havia concluído o ensino fundamental. Os dados apontam que as chances de um jovem que nasce no Distrito Federal de cursar uma universidade, com idade entre 18 e 24 anos, em 2010 era de 33 % porcento , enquanto no Maranhão 8 % porcento. Já segundo a (OCDE-2015) 53% porcento da população brasileira com idade entre 24 e 64 não concluiu o ensino médio, quesito base para o ingresso no ensino superior.
 
A universidade brasileira é um campo em permanente disputa. E a luta pela democratização do ensino superior no Brasil sempre foi uma luta de classes. Lembremos o que disse no dia 30 de Janeiro de 2019, o Ministro da Educação Ricardo Vélez Rodriguez « A Universidade “não é para todos”, mas “somente para algumas pessoas»
 
CIDADÃO NÃO!
 
É a consciência de que somos cidadãos que nos assegura ao nascer uma série de prerrogativas sociais ,isto é, nos assegura uma série de direitos. O direito à vida, a moradia, a saúde, a educação. O direito ao acesso e permanecia aos mais altos graus do saber.
 
No entanto, a «elite brasileira não quer direitos, quer privilégios custe os direitos de quem custar». E é em prol
da manutenção dos privilégios que ela acredita que ter um título académico pode legitimar todos os tipos de escrúpulos. Vejo a perpetuação secular destes discursos como uma prova de que não existe cidadania no Brasil. Nascer neste país é estar destituído das prerrogativas sociais. A cidadania, aqui, é sistematicamente mutilada. Milton Santos costumava dizer que nos países terceiro-mundistas há diversos tipos de cidadãos: Os que são mais cidadãos, os que são menos cidadãos e os que nem mesmo ainda o são. Talvez pertençamos a terceira categoria. Afinal, a «consagração da cidadania só acontece quando se respeita os indivíduos».
 
Como pode haver cidadania em um país cuja «elite» sempre se preocupou com a manutenção e a legitimação dos seus privilégios? Como falar em cidadania em um país em que a universidade pública é paga pela classe trabalhadora e quando esta classe consegue a duras penas estar na universidade o discurso corrente é que o povo povo está realizando um sonho, e não exercendo um direito?
 
Vendo os discursos destas «doutoridades» fico pensando no mal estar que a intelligentsia tupiniquim sentiu ao ver um operário ocupar a presidência da República e ter uma gestão que foi referência no mundo. Fico pensando no mal estar de certas «doutoridades» ao ver, nós, os filhos da classe trabalhadora ocupando, repensando, (de)formando este espaço que sempre foi nosso.