O Facebook e as Fake News

18/07/2020

Por: Homero Costa
 
 
No dia 01 de julho de 2020 foi publicada no Deutsche Welle  (emissora internacional da Alemanha  que segundo seu site “produz jornalismo independente em 30 idiomas”)  uma matéria informando que nos Estados Unidos o Facebook anunciou o  fechamento de centenas de contas, grupos e páginas de rede ligada ao movimento antigovernamental Boogaloo (trata-se um grupo de extrema direita, que se organizou inicialmente na internet com o objetivo de “derrubar o governo dos Estados Unidos”). O nome é uma referência a um jogo de videogame criado em 1984 chamado breakin 2: eletric boogaloo (e adaptado também para o cinema) e segundo seus organizadores e seguidores se preparam para uma Segunda Guerra Civil Americana (conhecida também como Guerra da  Secessão – que significa ato de separar – que foi um conflito ocorrido no país entre 1861 a 1865 no qual os Estados Confederados do Sul  defendiam os direitos dos estados para manter a escravidão. Foram derrotados   e estimava-se mais de 900 mil mortes).
 
Segundo a matéria, foram fechadas 220 contas, 106 grupos e 28 páginas, além de 95 contas no Instagram. Esta decisão “coloca o Boogaloo na mesma categoria que organizações como o ‘Estado Islâmico’ e ‘Supremacistas Brancos’, que também foram banidos do Facebook”. A justificativa foi a de que os conteúdos difundidos nas redes  eram racistas e de extrema direita, que feriam  as diretrizes da empresa.
 
Entre outras características do movimento, além da pregação da violência, racismo e culto às  armas, tem sido a participação de seus apoiadores  em protestos contra as medidas de isolamento social adotadas no país por causa da pandemia de covid-19 e também em atos racistas, em defesa da “supremacia” branca.
 
O fechamento de contas como parte de ações contra a rede de mentiras e discursos de ódio pelo Facebook também ocorreu em outros países. No Brasil, dia 8 de julho de 2020,  foi anunciado o cancelamento de 88 contas, 35 contas, 14 páginas e um grupo (de 350 pessoas), além de 38 contas no Instagram ligadas ao Partido Social Liberal (PSL) e a gabinetes de dois filhos do presidente da República (o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o senador Flavio Bolsonaro) e integrantes do chamado “gabinete do ódio”, seus filhos e pessoas ligadas ao PSL, além de dois deputados estaduais do partido do Rio de Janeiro.. Segundo o  Facebook,  as contas utiliza  robôs para disseminar notícias falsas, que incluíam ataques virtuais a adversários políticos do presidente,  Fake News  que serviam tanto para espalhar conteúdo favorável ao governo como para atacar os seus opositores. Consta que estas páginas tinham em torno de 1,8 milhões de seguidores. 
 
Segundo nota divulgada  pelo Facebook as contas operavam desde as eleições de 2018 e agiam sem declarar sua origem e identidade.  Do total, no Facebook, havia 883 mil seguidores e 917 mil as contas no Instagram. E afirma que  foram removidas “quatro redes distintas por violação de nossa política (...) e por “comportamento inautêntico coordenado”.  
 
A nota afirma ainda que “Em cada um dos casos, as pessoas por trás da atividade coordenaram entre si e utilizaram contas falsas como parte central de suas operações para se ocultar, e é com base nessa violação de política que estamos agindo” e que a maioria dessas redes estava ligada a entidades comerciais e pessoas associadas a campanhas políticas ou gabinetes de políticos com mandato.
 
O esquema utilizava contas duplicadas e falsas (um dos casos era uma pessoa com sete perfis), com o objetivo de evitar a fiscalização, publicando conteúdos em páginas que simulavam a atividade de veículos de imprensa. Foram encontrados também, ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) por meio das hashtags #STFVergonhaNacional e #STFEscritórioDoCrime.
 
Mas não foi apenas em 2020. No ano passado,  no dia 31 de janeiro, a plataforma anunciou o fechamento de 783 páginas do que considerou como uma “extensa campanha de manipulação” feita pelo Irã, detectadas em 26 países. 
 
A questão é: Por que o Facebook tem agido dessa forma? Uma resposta possível é que talvez seja pelo êxito de uma campanha iniciada nos Estados Unidos por entidades da sociedade civil para que houvesse um boicote publicitário de anunciantes  contra a plataforma por admitir esses grupos em suas páginas. Como informa a matéria  do Deutsche Welle  empresas como Coca-Cola, Verizon, Adidas, Starbucks, Ford e Unilever suspenderam seus anúncios no Facebook, com significativo impacto financeiro, além do desgaste perante à opinião pública.
 
No livro Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque publicado em 2019 nos Estados Unidos e em 2020 no Brasil  (Editora Harper Collins) Brittany Kaiser mostra como uma empresa britânica, a Cambrigde Analytica, teve um papel importante e talvez decisivo para a vitória de Donald Trump na eleição de novembro de 2016, manipulando informações, contando com a ajuda de dados de pessoas do Facebook. Para a autora revelou, entre outros aspectos “como a política intencionalmente relaxada do Facebook e a falta de leis que regulamentem a coleta de Big Data permitiram que essas empresas conhecessem a fundo a população, separando  pessoas em grupos estatísticos para que pudessem manipulá-las mais facilmente”.
 
No prólogo, Brittany Kaiser, que trabalhou na empresa e participou ativamente da campanha eleitoral  “tanto para adquirir dados sobre o maior número possível de cidadãos norte-americanos quanto para utilizá-los de modo a influenciar o comportamento deles na hora de votar”  afirma que  “também vi como as negligentes políticas de privacidade do Facebook e a total falta de supervisão do governo federal sobre dados pessoais permitiram que os objetivos da Cambridge se concretizassem. Mas, acima de tudo, entendi como a Cambridge se aproveitou de todas essas forças para ajudar a eleger Donald Trump”. 
 
Artur Sinaque Bez,  professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp/Marília, no artigo Muito além do cidadão Goebbels  - Steve Bannon e as eleições fake publicado no jornal Le Monde Diplomatique Brasil no dia  23 de outubro de 2018  afirma que a Cambridge Analytica foi fundada em Londres em 2013 e imediatamente passou a compor o Strategic Communication Laboratories (SCL) e que “em seu site afirma promover  ‘programas de mudança comportamental’ em países de todo o mundo, por meio de ‘operações psicológicas’ que visam uma ‘dominância informativa’.
 
 Nos Estados Unidos em 2016, visando às eleições presidenciais e a possibilidade de influenciar os eleitores 50 milhões de perfis no Facebook foram invadidos “a partir dos quais localizaram-se as mensagens com potencial de engajamento de pessoas e grupos em prol de um posicionamento político de extrema-direita”. 
 
E um dos seus principais articuladores, que assessorou a equipe de Donald Trump foi Steve Bannon. No artigo, Artur Bez faz referência à participação dele nas eleições presidenciais do Brasil em 2018 afirmando que seu envolvimento com a campanha de Jair Bolsonaro  tornou-se público a partir da postagem de uma mensagem no Twitter  de um dos seus filhos e então candidato à deputado Federal (RJ) Eduardo Bolsonaro. A mensagem foi no dia 4 de agosto de 2018 e dizia que “Foi um prazer conhecer Steve Bannon, estrategista da campanha presidencial de Donald Trump. Nós tivemos uma ótima conversa e compartilhamos da mesma visão de mundo. Ele disse ser um entusiasta da campanha de Bolsonaro e estamos certamente em contato para unir forças, especialmente contra o marxismo cultural”. 
 
Segundo matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo no dia 25 de outubro de 2018 “Cérebro por trás de ascensão de Trump, Bannon quer espalhar marca pelo Brasil e o mundo” ele havia se reunido em agosto de 2018 em Nova York com Eduardo Bolsonaro e afirma que “o quanto o americano aconselhou a campanha bolsonarista não é claro, mas há semelhanças entre a estratégia de comunicação adotada pelo brasileiro e aquela usada por Bannon com Trump”.
 
Entre as mais usadas, estão a desqualificação dos adversários e manipulação de informações. No artigo Muito além do cidadão Goebbels  - Steve Bannon e as eleições fake  o autor cita um fato e seus desdobramentos que certamente teve impacto eleitoral:  foi quando da realização “do maior ato antifascista da história do país”, organizado por diversas entidades de mulheres, o Ele não. No dia seguinte às manifestações “surgiram montagens de vídeos que mesclavam imagens dos eventos realizados em todo o país com imagens provenientes de outros protestos, por exemplo: vídeos de mulheres semi-nuas profanando crucifixos, vídeos de pessoas vestidas de vermelho atacando pessoas vestidas com camisetas da CBF, vídeos de feministas radicais europeias gritando com pessoas ‘de família’ etc. Foi muito usado especialmente por segmentos evangélicos que apoiavam Bolsonaro e ajudou no processo de  desqualificação dos atos.
 
Mas, diferente dos Estados Unidos, a principal plataforma utilizada nas eleições de 2018 não foi o Facebook mas o WhatsApp. Numa matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo no dia 18 de outubro e 2018 por Patrícia Campos de Mello “Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp”, afirma que houve contratos de R$ 12 milhões e que era ilegal, por ser uma prática que violava a lei uma vez que a doação não havia sido declarada. 
 
Segundo a matéria, empresários teriam bancado o disparo robótico de Fake News para centenas de milhares de grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro, com difamações a seus adversários políticos.
 
Mesmo com as denúncias e repercussão da matéria, não houve desdobramentos jurídicos, como uma possível cassação da chapa vitoriosa,  embora quase dois anos depois da eleição, continue a  haver diversas ações sob investigação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), assim como também está sob investigação na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News no Congresso Nacional ( instalada no dia 4 de setembro de 2019, quase um ano depois da eleição e que no dia 3 de abril de 2020 foi prorrogada por mais 180 dias).
 
 Um dos questionamentos é justamente a forma como foram conduzidas à propaganda eleitoral em prol do candidato vencedor. Das oito ações de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão que tramitam no TSE, quatro tratam de uso de notícias falsas na campanha eleitoral de 2018.
 
E não se resumiu às eleições. Quase um ano depois, em setembro de 2019 o jornal O Estado de S. Paulo revelou que no terceiro andar do Palácio do Planalto, próximo ao gabinete do presidente da República, havia sido montado um núcleo de “assessoramento de comunicação” composto por ex-assessores parlamentares ligados a dois filhos do presidente e blogueiros que participaram ativamente da campanha eleitoral de 2018, criando perfis e páginas nas redes sociais. Esse grupo ficou conhecido como sendo integrantes do “gabinete do ódio”. 
 
Nesse sentido, o fechamento de contas pelo Facebook de integrantes desse gabinete revela a forma como tem atuado, embora não seja novidade porque tanto a existência como a sua forma de atuação já eram conhecidas. O importante são seus possíveis desdobramentos, como além de limitar ou impedir o uso e alcance de ofensas e das informações falsas  e destruição de reputações,  também  as conseqüências tanto no TSE como   na CPMI das Fake News e  no inquérito que apura a atuação desse grupo contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e seus ministros.
 
Cassação da chapa vitoriosa parece ser improvável, mas de qualquer forma, há desdobramentos importantes, cujos resultados são imprevisíveis, como a autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) para que a Polícia Federal solicite  acesso aos dados do Facebook que fechou as já referidas contas, como parte do processo que investiga atos antidemocráticos e ataques à instituição.
 
Resta saber qual será o seu resultado.