Mil cento e setenta e nove

20/05/2020

Por: THÉO ALVES
 
Menos de um mês atrás, em 21 de abril para ser mais preciso, escrevi uma crônica sob o terrível impacto de termos chegado a 106 pessoas mortas por Covid 19 em Manaus num único dia. O meu horror se dava ante à insensibilidade que havia nos acometido, que fazia parecer termos nos tornado incapazes de empatia, de comoção frente a algo tão desolador.
 
Ontem, 19 de maio, ultrapassamos pela primeira vez a marca de mil mortos por essa doença em um período de 24 horas. Segundo o boletim do Ministério da Saúde – ocupado por um ministro interino cujo nome deve ser dito, não para que nos lembremos dele, mas para que não esqueçamos de cada um dos responsáveis pela absurda carnificina que vivemos: Eduardo Pazuello – 1.179 histórias de vida foram encerradas. 1.179 pais, mães, filhos, filhas, avôs, avós, amigos, amigas, colegas de trabalho, familiares de alguém morreram devido ao Corona vírus. 
 
Mas uma coisa precisa estar clara: a responsabilidade por cada uma dessas mortes também deve pesar sobre os ombros de muita gente: do presidente do país e de seus asseclas, que continuam transformando o horror dessa pandemia em um campo de batalha política; seus eleitores; os negacionistas que seguem minimizando a tragédia deste momento e espalhando notícias falsas, sem o menor constrangimento. 
 
Também são responsáveis por este recorde triste (convém repetir na esperança vazia de que alguém se sinta mal por estes números que representam gente: 1.179 mortos) os que contribuíram para a criação do caos instalado sobre nós: da imprensa aos poderes executivo, legislativo e judiciário, cada um dos que alimentam o discurso do ódio e desprezo pela vida, aos que não se dão conta de que cada um destes mortos é também um de nós.
 
Verdade que anunciar a morte de mais de mil brasileiros em um único dia, por uma única causa, é assustador, triste, desolador. No entanto, é pior ainda pensar que amanhã anunciaremos um número maior e, no dia seguinte, outro maior ainda até sabe-se lá quando. São 1.179 pessoas mortas – sem contar seus familiares, de certo modo, um pouco mais mortos por dentro também – dividindo o noticiário nacional com o flerte do presidente e de clubes de futebol, que querem voltar a disputar seus campeonatos. 
 
O futebol é uma festa, uma celebração, um momento de catarse e comemoração. Mas não há o que ser comemorado hoje, não há absolutamente nada a ser celebrado. Honestamente, não consigo pensar em algo mais insensível do que ver os presidentes do país, Vasco e Flamengo reunidos no dia de hoje enquanto 1.179 brasileiros são enterrados sem cerimônia, sem a despedida dos que lhes eram queridos.
 
E o que dizer da piadinha feita pelo presidente: “quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”? Grotesco. Essa criança grande absurdamente sem graça, horrenda, monstruosa, inaceitável.
 
Hoje é mais um dia para a infinita lista de horrores e vergonhas nacionais. Infelizmente, só mais um dia.