Ensaio sobre a solidão

06/05/2020


 
"Soledad
 Aquí están mis credenciales
 Vengo llamando a tu puerta
 Desde hace un tiempo
 Creo que pasaremos juntos temporales
 Propongo que tu y yo nos vayamos conociendo"
                                                          Soledad, Jorge Drexler
 
 
 "O segredo de uma boa velhice nada mais é do que um pacto honesto com a solidão" arremessa Gabriel García Marquéz. Bom, estamos a envelhecer, ininterruptamente. Não tem um dia em que o tempo deixe de arrancar uma lasca da nossa pele. Todavia, ainda me restam algumas décadas para tentar colocar em prática o segredo de uma boa velhice indicado pelo velho Gabo. Por hora não preciso de pacto honesto com a solidão. Quando quero, a chamo para cá. Sem compromisso algum, sem acordos pré-estabelecidos. E só quando quero. Acontece que uma pandemia atravessou e o sinal agora está sempre vermelho. Tudo parou na cidade. Já não há mais cidade! Pelo menos a cidade das minhas memórias. Dos bêbados dos becos, dos ombros esbarrados no tumulto comercial, dos PF baratos, dos moços e moças a me convencer sobre a importância da compra do chip celular de uma tal operadora. Já não posso mais passar todo o trajeto de volta do ônibus para casa a pensar na desculpa que me convença estacionar meu corpo no bar esbarrado e tomar apenas uma cerveja, a mais gelada que tiver. Na verdade, nunca foi preciso algo mirabolante. Os bares no caminho de casa são absurdamente atraentes. Mesmo ali, sentando sozinho naquela mesa amarela, nunca estive só. O bar sempre estava cheio. Sempre tem gente com calor e com sede nessa cidade. Os bares fecharam. Agora, o Ministério da Saúde adverte que abraçar ou qualquer contato físico é perigoso, e quem fizer, corre risco de vida. Aí voltei para Gabo e fui obrigado a fazer um pacto honesto com a solidão. Por um lado, me vi completamente nu. Sem as câmeras dos olhos a me vigiar, sem a necessidade de me vestir, era sou eu, somente eu. Ah! Tem os livros, o violão. Mas, eles apenas indagam, não respondem quando confrontados, não se irritam, nem sorriem com minha piada estúpida e sem graça. No entanto, andam remexendo os tecidos do meu estômago. Isso é bom. Um desses livros da minha solidão, "A inconstância da alma selvagem" do Eduardo Viveiros de Castro fala sobre a ideia de reclusão na cosmologia dos yawalapatí e o seu papel central na ideia de pessoa. É através da reclusão, do descanso do desempenho público na aldeia que os jovens em transição a puberdade, descobrem aquilo que os identifica. Castro chamou de processo geral de humanização, contra-metamorfose. A sabedoria xinguana afirma que a reclusão é necessária para mudar de corpo, formar e reformar a personalidade. Aqueles que não seguirem as regras alimentares e sexuais da reclusão pubertária, por exemplo, tornam-se ipuñoñori-malú "gente ruim". A pandemia não nasceu do inesperado. Ela é produto da inesgotável ganância e egoísmo dos humanos do Ocidente. Espero que a solidão desses dias nos conecte com aquilo que realmente nos identifica. E que a falta, a saudade, o desejo, construam novas pontes entre aquilo que jamais devia estar separado de todas nós. A natureza é uma só.
 
Felipe Nunes é historiador, poeta, cantor, compositor e mestrando em antropologia social. Escreve em https://medium.com/@palavrearfelipenunes
Instagram: https://www.instagram.com/umfelipenunes/