Das coisas que a gente não vê

05/11/2017


Todos os dias, para ir trabalhar, pego um ônibus. Em média, o trajeto entre minha casa e meu trabalho dura mais de uma hora. Sou, quase sempre, uma das primeiras a entrar no coletivo. Seja indo, seja voltando. Alguns daqueles rostos anônimos já são como velhos conhecidos. Pessoas que, todos os dias, fazem o mesmo percurso que eu, no mesmo horário, sentados nos mesmo assentos.

 

E, todos os dias, eu presto muita atenção e tudo. Aquela alma jornalística que nada me tira, né?! Reparo nas roupas das pessoas, no gestual alheio, na forma como ignoram o trocador ou destratam o motorista, no mau humor matutino em quase todos os rostos, no ar de cansaço ao fim do dia... vejo os cochilos demorados, ouço assuntos inusitados, sinto o sol queimando meu rosto branco, presto muita atenção às paisagens que se formam no caminho.

 

Todos os dias, uma mesma rotina. Pouca coisa muda. Mas, dia desses, precisei voltar para casa num horário diferente do que eu estou acostumada. No meio da tarde, entro no ônibus e não sou uma das primeiras. Pelo contrário: tinha muita gente ali dentro. Achei um lugar vago junto à janela e sentei. Olhei discretamente em volta e comecei o meu exercício diário de detalhamento do movimento alheio.

 

Duas paradas depois, um rapazinho de uns 17 anos entrou no ônibus. Ficou em pé, pois não tinha lugar para sentar. Uma mocinha sentada ao seu lado, por volta de seus 15 anos, ofereceu - gentilmente - para carregar a mochila dele. Ele, automaticamente, tirou o peso das costas e, sem olhar para ela, colocou a mochila em seu colo. Inevitavelmente seus olhares se cruzaram. O sorriso que o rapaz abriu era radiante.

 

A menina mal percebeu. Mas para ele, aquele momento pareceu de êxtase. E ele tratou de aproveitar: manteve o sorriso no rosto, abaixou-se para ficar na altura da menina e agradeceu olhando diretamente nos olhos dela. Deu para ver a reação surpresa daquela mocinha com tamanha atenção! Ela sorriu de volta. E, ali, ambos iniciaram uma conversa olho-no-olho que só se encerrou quando ela teve que descer.

 

Obviamente, não prestei atenção em mais nada! Foi tão singela e instintiva a forma como eles se reconheceram e se trataram que me senti fascinada. Há tanta coisa que a gente não vê quando olha apenas para o próprio umbigo, presos nas nossas rotinas exaustivas, concentrados em nossos problemas. Momentos de leveza e alegria existem, a gente só tem que começar a reparar!