Lígia Limeira: "Ficamos surpresos com a aceitação do Setembro Cidadão no RN"

08/10/2014


Advogada, servidora da Justiça Eleitoral, Ligia Limeira é articuladora do Setembro Cidadão, que mobilizou o RN. Em entrevista aos repórteres Tiago Rebolo e Gustavo Guedes no Alpendre do PN, ela falou sobre o projeto e seus desdobramentos. Confira:

Como você avalia o mês de atividades que tivemos com o “Setembro Cidadão”?
Nós ficamos muito surpresos com a aderência aqui no Rio Grande do Norte. Quando Jarbas Bezerra e eu começamos a pensar nisso, nós estávamos trabalhando na ponta do processo democrático e de cidadania, que é o processo eleitoral, ele como juiz e eu, advogada e servidora da Justiça Eleitoral. No decorrer do tempo, fomos percebendo que as pessoas, muito embora estejamos avançando, não têm conhecimento do processo eleitoral. Se nós vivemos uma cultura viciada na questão do voto, ao ponto de uma pessoa vender o voto por uma dentadura, é porque não existe conhecimento. Então, nós chegamos à inevitável conclusão de que precisávamos trabalhar com uma base, e essa base precisava começar da mais tenra idade. Decidimos começar o trabalho no Ensino Fundamental, a partir dos 6 anos de idade, que é quando a criança tem amadurecimento o suficiente para aprender o que é respeito, tolerância e outros conceitos.

O acesso mais facilitado à informática e às mídias sociais oportunizou às crianças o acesso à informação muito precocemente. Isso ajuda no processo?
Esse elemento foi importante na escolha da idade das crianças, sim. O que nós percebemos foi o seguinte: no período ditatorial, os militares impuseram disciplina a fim de fazer nascer, de uma forma fundada, o amor pela pátria. Nós tínhamos a Educação Moral e Cívica e a OSPB (Organização Social e Política Brasileira). Com o ingresso do regime democrático, as disciplinas foram retiradas de sala de aula. Nesse caminhar, à escola foi confiada toda a educação das crianças. E a escola, na verdade, tem uma importância “complementar” na educação, porque o objetivo maior dela é o ensino. Com isso, nós passamos a ostentar o vergonhoso patamar de sermos o país mais violento do mundo com relação aos professores. Esse problema acontece porque nós não temos o conceito trabalhado dentro da sala de aula. E por isso que eu fiquei muito feliz com a adesão que tivemos, pois não temos o hábito da cultura, de valorizá-la, e a gente precisa resgatar isso. É importante destacar, dessa forma, o apoio que tivemos do Governo do Estado, da Prefeitura de Natal, do Sesc e do CEI Romualdo Galvão.

Todas essas mobilizações desconstroem o conceito de que cidadania se resume ao ato de votar?
Desconstruir esse conceito é um desafio, porque os adultos são mais inflexíveis. Nossa ideia está sendo trabalhada no processo de formação do indivíduo para mudar essa história e mostrar para as crianças e adolescentes (e que eles contaminem a sociedade de uma forma generalizada) que cidadania não é só o ato de votar e ser votado. Cidadania é algo que deve promover o bem-estar de todos. Por isso, deve ser trabalhado em todas as esferas possíveis e imagináveis. E foi assim que surgiram nossos dois personagens – Edu (de “Educação”) e Cidinha (de “Cidadania”). O trabalho se dá de uma forma lúdica, por meio de uma cartilha – se chama “Cidadania de A a Z”, onde ela vai construindo os conceitos junto com o corpo docente em sala de aula com os alunos. A criança é uma esponja – ela vai absorvendo e depois disseminando os conceitos.

Fonte: Potiguar Notícias