Haroldo Gomes:

25/04/2013

Por: Potiguar Notícias

 

Como foi o processo de pré-produção da Paixão de Cristo?
Esse é um espetáculo já tradicional na cidade. Este ano tivemos pouco tempo de preparação, apenas dois meses. Essa preparação envolveu, além da Fundação Parnamirim de Cultura,  também a Associação Cultural Dom Nivaldo Monte, que tem a coordenação da irmã Maria Luzia. O elenco foi formado, em sua grande maioria, por estudantes da rede pública de ensino de Parnamirim - alguns com certa experiência teatral. Montamos esse grupo, tivemos todo um processo de visitas às escolas e convites. Organizamos quatro oficinas: de teatro, preparação de voz, maquiagem e coreografia. A partir destas oficinas é que o espetáculo foi montado sob a direção de André Batista, um jovem profissional da Fundação que já tem boa experiência tanto com teatro quanto com dança. O espetáculo foi o resultado do trabalho dele em cima do texto da irmã Luzia.
 
O espetáculo nos anos anteriores já tinha o mesmo modelo que o adotado esse ano?
Houve um período em que ele foi feito dessa forma. Depois, ele retornou para um formato mais tradicional em 2010, onde foi feito em dois palcos que se revezavam. No ano passado é que foi retomada a ideia de envolvimento do público, e o espetáculo ocorreu em quatro bairros: Passagem de Areia, Cohabinal, Parque Industrial e Pirangi do Norte. Em 2013, acrescentaram-se mais duas comunidades: Nova Esperança e o Vida Nova, totalizando seis bairros. Para nossa surpresa o espetáculo teve ótima repercussão, com o público requisitando que a Fundação pro­movesse outros eventos do tipo. Como é uma história antiga, mas muito forte, é o momento em que a fundação se aproxima com quem não tem tanta familiaridade com o teatro, mas se identifica com a história. O espetáculo, então, é uma ferramenta de aproximação dessas comunidades que geralmente não possuem acesso ao teatro. É um momento de formação de plateia. 
 
Existe algum outro projeto desenvolvido pela Fundação que possibilite essa mesma oportunidade?
Existe um projeto chamado de “Cultura nas Comunidades” que surge a partir da experiência com a Paixão de Cristo. Na comunidade de Vida Nova, por exemplo, tivemos um momento interessante quando os meninos do Hip Hop se apresentaram antes do espetáculo. Você observa que existem grupos com produção cultural nas comunidades. Quando levamos esse tipo de evento a elas, esses grupos aparecem, há o diálogo, e a abertura de espaços para fazer esse trabalho com a gente. Essa interface que a Fundação faz com a comunidade é muito interessante, já que é de lá onde aparecem as manifestações culturais. 
 
Além do espetáculo, houve também atrações musicais. Foi assim em todas as apresentações?
Não. As apresentações musicais ocorreram em duas comunidades. Antes estava prevista apenas uma, em Pirangi. Mas tivemos problemas com a iluminação na praça, e não foi possível a apresentação dos Meirinhos do Forró. A partir dessa situação foi que nos reprogramamos e pusemos apresentações no Parque Industrial e no Vida Nova, com show de Stácio Lee e banda Alfa, que teve também uma ótima repercussão. Nem sempre dentro da Paixão de Cristo é possível por atrações musicais, até pela natureza religiosa do evento. 
Além dessas comunidades, houve apresentação também no Município de Baía Formosa. Como foi a experiência?
Ano passado já tínhamos recebido o convite por parte da Prefeitura, e este ano não foi diferente. O convite foi renovado. Foi um momento de premiação do grupo. Fomos de manhã, o pessoal passa o dia na praia, a região é muito bonita. À noite foi a apresentação com grande público, com grande recepção. A cidade entra muito no espetáculo.
 
O espetáculo também foi requisitado para se apresentar no Tribunal de Justiça no ano que vem. Como se deu esse convite? 
O convite foi oficializado pelo Tribunal de Justiça, solicitando que agendássemos com antecedência uma apresentação para 2014 na praça em frente à Assembleia Legislativa em Natal. Isso muito nos orgulha e anima o grupo, pois são meninos e meninas dessas comunidades distantes que muito se alegram em fazer parte de um evento que vai tão longe. O espetáculo tem um envolvimento muito forte, o grupo está muito unido e prosseguiremos com ele através das oficinas. 
 
O Dezembro Multicultural que ocorreu recentemente também foi muito bem recebido. Será um evento que marcará o calendário cultural da cidade?
Nós estamos com o propósito de fazer as atividades a partir do dia 17 de dezembro, data de emancipação de Parnamirim. Pretendemos montar uma proposta de calendário com cerca de 30 dias a partir da segunda quinzena de dezembro, que se estende até a prévia de Carnaval. Nós vamos apresentar o projeto à Lei Rouanet. Iremos retomar o espetáculo “Nas asas da história”, que este ano provavelmente, irá homenagear o Mestre Elfidio, um mestre de Boi de Reis aqui, da cidade, já falecido, que possui um grupo cultural historicamente reconhecido, que possue uma comenda Djalma Maranhão. Vamos tentar trabalhar com a história dele. Será um espetáculo muito bonito, que ocorrerá também no mês de dezembro. Tentaremos fazer uma apresentação já no nosso Teatro Municipal, se possível, e queremos também fazer a experiência de levá-lo às comunidades, como a Paixão de Cristo.
 
Quais as principais dificuldades na montagem dessas apresentações itinerantes?
São 80 atores, 26 pessoas na equipe técnica. Então, a logística para todo material cenográfico e de transporte é a parte mais difícil, até porque o período em que a fundação mais trabalha é nos fins de semana, período de folga do restante da prefeitura. Essa é uma dificuldade sempre de agrupar o pessoal em uma proposta que vai além do trabalho, do aspecto profissional. Por outro lado há acolhida do pessoal das comunidades que é muito compensador. Diziam que não conseguiríamos fazer o espetáculo em Nova Esperança, que íamos sair debaixo de bala, que não iam deixar acontecer. E pelo contrário, nos receberam muito bem e a apresentação ocorreu normalmente.
 
Isso mostra que há certo preconceito com as regiões periféricas da cidade. Como a Fundação trabalha com isso?
Existem alguns bairros “carimbados” pela população como sendo problemáticos, mas nem sempre é assim. Quando chegamos à Nova Esperança, um adolescente nos perguntou: “Que parada vai rolar aí?”. Um dos meninos do grupo respondeu que era a Paixão de Cristo. Então, o garoto reagiu dizendo que “ia trazer a mãe para essa parada aí”. Há um ambiente que de certa forma é difícil, é duro, mas nos misturamos com a comunidade e é acolhedor. Não tivemos brigas, nem assaltos ou roubos. Tudo transcorreu na tranquilidade. O poder público não pode ficar de fora dessas comunidades. Pelo contrário, é nela que temos que chegar. O prefeito Maurício Marques insiste muito nesse tipo de trabalho, que tem que chegar às pontas, onde a população não tem oportunidade e acesso a esse tipo de espetáculo. É muito bom sentir que a comunidade recebe bem. Isso é uma ferramenta necessária até mesmo para acabar com o preconceito que sofrem essas regiões.
 
Existe apreensão pela inauguração do Teatro Municipal. Quais as informações sobre as datas de inauguração?
Estamos na fase de conclusão do Projeto de Mecânica Cênica. Toda a parte estrutural está montada, chegamos à fase de acabamento. É a parte mais difícil, pois envolve organização de palco, cochia, etc. Isso envolve material e pessoal muito especializado. A prefeitura está trabalhando duro para que nos próximos 30 dias já possamos oferecer o projeto de mecânica cênica. Com ele em mãos, é que o prefeito partirá para o processo de aquisição de material e de serviços.