Valério Mesquita: "Devemos fazer a ressurreição da história de Natal"

05/04/2013

Por: Potiguar Notícias

Escritor com 15 livros publicados, articulista de diversos jornais (incluindo este PN), intelectual, ex-prefeito de Macaíba, ex-deputado estadual, tendo sido recentemente presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Valério Mesquita assumiu há poucos dias a presidência do Instituto Histórico e Geográfico-RN (IHG-RN). Ele concedeu entrevista aos repórtesres José Pinto Jr. e Cefas carvalho, para falar deste novo desafio. Confira:

 

 

  Qual a diferença principal entre sua ação no Tribunal de Contas e sua ação no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN)?
O Tribunal de Contas é uma instituição oficial que conta com um breviário a ser seguido, a lei orgânica e seu regimento interno com as dificuldades de relacionamento de aplicação da legislação de contas dos municípios com o governo do Estado. E o IHGRN é um órgão da sociedade civil e um iminente cultural de preservação histórica. Ambos têm seus desafios. No TCE consegui muitos avanços, como implantar uma nova lei interna, fizemos mutirões sucessivos e derrubamos das prateleiras quase trinta mil processos, além de dar uma nova feição ao órgão com a prestação de contas preventiva, evitar gastos desnecessários e o desperdício de quase 200 milhões de reais, tudo isso em apenas dois anos. Com relação ao IHGRN, estamos diante de uma veneranda entidade criada em 1902 e em 1905. O então governador Tavares de Lira fez a doação do prédio sede. O instituto fará em 29 de março 111 anos, o qual não poderemos comemorar no mesmo dia por se tratar de uma Sexta-Feira Santa. Então transferimos a data para abril.
 
Hoje, qual o principal problema do IHGRN?
Sem dúvida o problema de maior impacto é a sede em dificuldade. Tanto é assim que nossa posse não se realizou na sede do órgão. A cerimônia foi realizada na Academia Norte-riograndense de Letras. Foi uma solenidade muito concorrida que nos deixou bastante satisfeitos.  A comemoração do aniversário de 111 anos também não será realizada na sede devido seus problemas estruturais - será no auditório principal da Assembleia Legislativa. Aproveitamos a abertura da AL para angariar recursos para o instituto, pois a renda atual vem da mensalidade de R$ 10,00 que cada confrade paga ao mês, ainda assim a inadimplência chega a 70%. A Assembleia tem estimulado o IHGRN a decolar. Para isso falei com todos os deputados e eles colocaram na emenda coletiva um orçamento de R$ 200 mil para este ano. Quando o governo do Estado vetou o orçamento da AL, da Câmara, do Tribunal de Justiça e etc., o nosso também foi vetado - foi junto na descida da cachoeira. Nós voltamos lá e conversamos com os deputados, que foram muito sensíveis com o caso e derrubaram o veto da governadora e recuperamos os R$ 200 mil.
 
O que está sendo feito para conseguir mais recursos?
Estou em contato direto com pessoas que podem fazer o IHGRN se reerguer. Convidei o deputado Ricardo Motta para nos fazer uma visita de cortesia e aproveitei para pedir alguns apoios. Ele teve um grande desprendimento.E foi até lá, visitou todos os compartimentos do nosso instituto e viu in loco a nossa situação. Também importante fazer convênios com o Poder Legislativo, que tem um importante braço cultural. 
 
O prédio é tombado pelo Patrimônio Histórico, o que impede muitas mudanças estruturais. O que vai ser feito para recuperar o prédio sem ferir a sua história?
O salão principal de reuniões está sem condições de uso, havia um enorme tapete que cobria o chão, mas este teve que ser arrancado porque o mosaico antigo, de mais de cem anos, estava completamente danificado e tem que ser recuperado como tal. Nós não podemos mudar nada, tem que ser restaurado. Além disso, precisamos montar uma estrutura que conserve documentos importantíssimos que têm mas de trezentos anos, assim como sesmarias, a legislação do período imperial, colonial e republicano; temos decretos de leis dessa época, é a história do nosso Estado. O CREA já nos deu um laudo do que pode ser feito para restaurar a estrutura física do prédio resguardando o tombamento histórico. Também pedimos a interferência do Corpo de Bombeiros para examinar a rede elétrica porque o que guardamos ali é de uma importância sem tamanho e não podemos nos dar ao luxo de perder esse patrimônio valiosíssimo devido um incêndio e também armazenar de forma adequada esse tesouro histórico. Devemos chamar a atenção da sociedade, dos governantes e das empresas privadas para ajudar, porque estamos guardando ali o patrimônio público, do povo, a história do RN. Por que devamos ser olhados com uma certa desfaçatez? Existem tantas empresas privadas que patrocinam coisas tolas e fúteis? O instituto tem condições de funcionar melhor e chama a sociedade, o alunado, os acadêmicos, turistas com perfil diferenciado que querem conhecer a parte histórica da sociedade.
 
Já foi pensado alguma parceria com a UFRN?
Fomos à UFRN para buscar uma parceria para informatizar todo nosso material. Queremos digitalizar o material para disponibilizar on-line e todos terem acesso ao que guardamos no instituto. 
 
O IHGRN está situado no Centro Histórico de Natal, que conta muito da história arquitetônica e cultural da cidade...
O Instituto não tem apenas uma visão introspectiva, não olha só para si. Nós estamos em um local rodeado por pontos culturalmente importantes. Estamos próximo ao Convento de Santo Antônio; mais para o lado está o antigo QG, onde foi a tesouraria da província e hoje é o Memorial Câmara Cascudo. Saindo dali você encontra a antiga Catedral, a primeira igreja de Natal, onde dizem que nas suas cercanias tem até cemitério, pois naquele tempo as pessoas eram sepultadas próximo à igreja. Andando mais um pouquinho encontramos o Palácio do Governo, que foi construído por Alberto Maranhão no período republicano. Também nessa proximidade há a praça André de Albuquerque, que guarda o marco de construção da cidade e também o museu Café Filho, o primeiro sobrado de Natal. Mais adiante a casa do padre João Maria e a Prefeitura. Esse é um corredor cultural importante e nós defendemos uma intervenção do Governo do Estado com a prefeitura e o apoio do Governo Federal para essa área que é histórica e devemos levantar essa bandeira. Ali é um chão de antepassados. Devemos fazer a ressurreição desses ambientes antigos.
 

Fonte: Potiguar Notícias