Alfredo Neves

26/05/2020
 
Dorian Gray Caldas - Um dos mais completos artistas plásticos da terra de Poti
 
Em entrevista realizada por Thiago Gonzaga, para a Revista Kukukaya de No 08, revista onde fui diretor-fundador, e Thiago editor-chefe, Dorian Gray disse que nasceu precisamente no finalzinho da avenida Deodoro, em Natal-RN, no dia 16 de fevereiro de 1930. O nome foi escolhido pelo seu pai em homenagem ao escritor irlandês Oscar Wilde, retirado do livro “O Retrato de Dorian Gray”. Tempos depois foi morar na rua Ana Neri, no bairro de Petrópolis. Nessa casa, onde também funcionava o seu ateliê por toda uma vida, Dorian Gray Caldas morou até o seu falecimento em 23/03/2017, aos oitenta e sete anos de idade. O nome dos seus pais são: Elói Caldas e Nympha Rabelo Caldas. Dorian Gray tem dois filhos, Adriano Gray Caldas e Dione Caldas. Dione que também é artista plástica pude recentemente escrever sobre a sua biografia e a sua arte aqui nesta coluna.
 
Dorian Gray foi tapeceiro, escritor, ceramista, desenhista, pintor, escultor, poeta, ensaísta e cronista. Foi membro da cadeira de No 9 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, que tem como patrono Almino Afonso e o fundador da cadeira Nestor Lima.  Foi agraciado em vida com diversos prêmios e títulos, dentre eles o de Doutor Honoris Causa da UFRN. Como muitos artistas da sua geração, Dorian Gray Caldas pode viver os tempos áureos tanto da literatura como das artes visuais no Rio Grande do Norte, tendo sido contemporâneo de Newton Navarro, Câmara Cascudo, Zila Mamede, Sanderson Negreiros, Manoel Onofre Júnior, Diógenes da Cunha Lima, Iaperi Araújo, Vicente Serejo e tantos outros que escreveram e ainda escrevem a história cultural do Rio Grande do Norte. Podemos dizer que Dorian Gray Caldas é um dos precursores do modernismo na terra de Poti.
 
Ao ser perguntado sobre o surgimento do seu amor pelas artes plásticas, Dorian Gray disse que foi na infância aos seis anos de idade durante a II Grande Guerra Mundial em 1940. Dizia que já exercia um certo domínio do desenho, e fazia com carvão, pois ninguém acreditava no artista que ele viria a ser tempos depois. “Eu usava o carvão de cozinha da mamãe, o fogão era a carvão, eu usava o carvão para riscar o chão, eu riscava na (rua) Felipe Camarão... Eu riscava o chão e as pessoas ficavam indignadas com aquilo, porque eu riscava metros e metros de desenho, principalmente os figurantes das histórias em quadrinhos estavam todos lá riscados no chão. (Gonzaga, 2014, Revista Kukukaya, p13-17). Depois recebeu lápis crayon e começou a fazer trabalhos em caderno escolar e em papel canson, e a fazer retratos de figuras da História do Brasil e alguns da América Latina. 
 
Em 1950 o poeta e artista plástico Dorian Gray se destacava no I Salão de Arte Moderna de Natal, ao lado de Newton Navarro e Ivon Rodrigues de Albuquerque. Influenciado pelo modernismo, e com as novidades trazidas por Newton Navarro do Recife entre 1948 e 1949, e da amizade que cada vez se fazia forte, Dorian disse que Newton o convidou e ele começou a pintar em função da modernidade. Bem antes, o seu tio Moura Rabello, que era pintor clássico, retratista e paisagista em Natal e residiu no Rio de janeiro durante muitos anos, retratava com maestria a cidade de Natal. Por ser um artista clássico, teve forte influência na arte de Dorian Gray Caldas, no que se refere a esse estilo pictórico. 
Na área literária o seu primeiro livro foi de poesia com o título “Instrumentos do Sonho”, lançado em 1961. Dorian Gray falou que começou na literatura influenciado pelas ilustrações que fazia para muitos poetas como Walflan de Queiroz, Sanderson Negreiros, Berilo Wanderley, e diversos outros que faziam literatura no Rio Grande do Norte. Era admirador de escritores modernistas como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, além de Jorge de Lima, Murilo Mendes e Vinicius de Morais. O seu mais recente trabalho literário, já em minhas mãos, intitulado: “Do Outro Lado Da Sombra – Poesia Quase Completa, Vol 1 e 2, lançado em 2015 pela Editora do IFRN, é uma coletânea onde vários de seus poemas já publicados são transcritos, dentre eles: “Campo Memória” 1966; “O Signo e Seu Ângulo de Pedra”, 1976; “Feiras e Feirantes – Desenho e Texto”, 1982; “O Ataque de Lampião a Mossoró”, 1984; “Os Dias Lentos”, 1997; “Canto Heroico”, 1998; “Geografia do Medo”, 2001; “Carta Aberta para a Muito Amada Cidade de Natal”, 2010; “A Necessidade do Mito”, 2012 dentre outros. 
 
O estilo de Dorian Gray Caldas é expressionista. Em visita ao artista, onde através do Projeto de Imagem e Som, realizada em 2016, onde Thiago Gonzaga, eu, Manoel Onofre Júnior e João Andrade fomos até a sua residência para entrevistá-lo, ele deixou claro que a sua arte é expressionista e revela através delas, de forma magistral, as belezas naturais, imateriais e do cotidiano da cidade e do estado. Na oportunidade pude presentear o pintor com uma tela minha. Fiquei emocionado e ao mesmo tempo orgulhoso em relação aos elogios do artista quanto a tela, onde na oportunidade ele disse que ficaria em sua coleção particular. Maior ainda foi a nossa emoção e surpresa, quando em meio a nossa conversa, veio se juntar à nossa reunião, mesmo que muito rápido, onde estávamos conversando com Dorian, a sua querida esposa dona Wanda Dione Barros Caldas. Uma senhora atenta e cuidadosa que fazia questão de lembrar dos remédios, de datas, dos detalhes na hora de fazer a fotografia e do orgulho em estar ao lado de um ser maravilhoso e genial como Dorian Gray Caldas. 
 
Sobre o expressionismo pude detalhar em artigos anteriores aqui na minha coluna. Pessoas interessadas poderão recorrer a eles para verificar maiores informações. Na medida que for surgindo algum outro movimento estético que ainda não citei irei aqui detalhar.  No entanto, cabe aqui ressaltar, que apesar do artista Dorian Gray Caldas se identificar com este estilo vanguardista que nasceu na Europa no início do século XX, pude ver em diversas de suas telas que ele singra por outros movimentos sem muitas dificuldades. O Abstrato, o figurativismo, e o paisagismo são apenas algumas de suas leituras que balizam com leveza a sua arte inovadora, popular, erudita e atual. 
 
Das suas telas e trabalhos artísticos, destaco: “Barcos e Barqueiros” (xilogravura), 28 cm x 38 cm; “À Margem” (pintura), 33 cm x 47 cm; “Lunares” (pintura), “Sobradões” , 96 cm x 66 cm; “Marinha” (pintura), 121 cm x 84 cm; Casario entre Verdes” 47 cm x 32 cm; Tela em Homenagem a Cascudo, 3m x 2m.   Na tapeçaria Dorian Gray Caldas tem diversos trabalhos no Rio Grande do Norte, no Brasil e espalhados em vários lugares do mundo, como “Barcos” 135 cm x 165 cm; “Apanhadores de Algodão” e “Bumba meu Boi” 2,73 cm x 3,96 cm. Os seus painéis gigantes, também são vários, como os localizados na antiga sede da OAB na Cidade Alta, o do IFRN Campus Central, “Motivos Folclóricos”, medindo 360 cm x 980 cm, painel-mosaico, na fachada do prédio do IPASE, na Ribeira, dele e Navarro, e diversas esculturas, dentre elas “Monumento à Amizade” e “Monumento às Mães”
Foram várias as exposições, como as individuais: 
 
1952 - Brasília DF - Individual, patrocinada pela revista Letras
1956 - Brasília DF - Individual, na Loja Maçônica 21 de Março
1967 - Olinda PE - Individual, na Galeria Sobrado 7
1967 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Goeldi
1968 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Azulão
1969 - Brasília DF - Individual, na Galeria do Hotel Nacional Mezzanino, sob o patrocínio da Fundação Cultural do Distrito Federal
1969 - Olinda PE - Individual, no MAC/Olinda
1970 - Natal RN - Individual, na Biblioteca Pública do Estado
1982 - Brasília DF - Individual, no Hotel Nacional/Fundação Cultural do Distrito Federal
1985 - João Pessoa PB - Individual, na Galeria Archedi Picado
Outras Coletivas:
1950 - Natal RN - Salão de Arte Moderna, na antiga sede da Cruz Vermelha (considerado o marco da modernização das artes plásticas no Estado)
1952 - Natal RN - Salão de Arte Moderna, na antiga sede da Cruz Vermelha
1955 - Natal RN - Salão de Arte Moderna, na antiga sede da Cruz Vermelha
1958 - Natal RN - Coletiva, na Sociedade Brasil-Estados Unidos
1958 - Natal RN - Salão Permanente de Arte do Rio Grande do Norte
1964 - Natal RN - Mostra, no Salão Nobre do Palácio do Governo
1973 - Natal RN - Mostra, na UFRN
1973 - João Pessoa PB - Mostra, na UFPB
1973 - Washington (Estados Unidos) - Mostra, no Inter-American Development Bank of Washington
1975 - Natal RN - Retrospectiva 25 Anos de Pintura, no Sesc
1980 - Buenos Aires (Argentina) - El Arte de La Tapiçaria en Brasil, no Museu Nacional de Arte Decorativa
1987 - Rio de Janeiro RJ - Pintores Norte-Riograndenses, na ABL e tantas outras realizadas no Rio Grande do Norte e pelo Brasil.
 
Encerro este artigo com um poema belo e lírico de Dorian Gray Caldas:
 
DE TUDO O QUE ME RESTA 
 
De tudo o que me resta
a paz dos campos se a tenho,
a sombra sobre o pátio se a vejo,
os olhos tremulam à sombra que se perde
e que retenho.
Outro dirá de mim
se fui poeta,
refúgio incompleto e doce encanto:
já não sou.
Não mereço a rima nobre nem o arrependimento;
o verso é lasso
e já nada escrevo
nem prendo ao laço
a rima que me prende
ou que sirva de conforto ao pensamento.
Amparo-me nestes versos que faço
e que me explicam,
em dois espaços.
 
 
Boa leitura e até a próxima terça-feira.
 
Fonte de Pesquisa: 
Caldas, Dorian Gray. Do Outro Lado da Sombra – 2015. V. 1 e 2.
Gonzaga, Thiago. Revista Kukukaya No 08, p13-17 - 2014
Medeiros, Arilene Lucena de. Dorian Gray Caldas: A trajetória Biográfica de um Artista Precursor de uma Identidade Potiguar (1950-1989) – 2017
Fonte oral: Dorian Gray Caldas (2016)