Andrea Nogueira

25/01/2020
 
Liberdades
 
 
Consultando um dicionário, podemos extrair o conceito de liberdade. Assim, "é a condição daquele que é livre; é a ausência de submissão e de servidão". A liberdade, portanto, parece ser algo bom. Mesmo assim, gozar da capacidade de agir por si mesmo não é desejo de todos. Isso porque as pessoas desejam o direito, mas rejeitam parte de suas consequências.
 
Ao longo dos anos lutou-se por liberdade de expressão, mas muitos benecificados não esperavam ser julgados ou mesmo condenados socialmente pelo usufruto deste direito. Lutou-se pela liberdade sexual sem contar com os olhares atravessados para o sujeito livre. Lutou-se pela liberdade de escolha esperando que não houvessem fuxicos e perda de "amizades".
 
Essas lutas resultaram no reconhecimento legal do direito a determinadas liberdades. Contudo, o reconhecimento social sempre demora mais a consolidar-se.
As mulheres, por exemplo, conquistaram o direito à escolha de casar-se ou permanecer solteira; a liberdade de vestir-se com muita ou pouca roupa e mesmo assim não ser apalpada por pessoa desautorizada; a liberdade de fazer sexo antes do casamento ou manter-se virgem até o final da vida; a liberdade de cursar faculdade; votar; sentar num bar sozinha; assinar seus prórios contratos de compra e venda; dirigir; colorir seus cabelos; relacionar-se etc. Foram muitas conquistas. Mas as "novas" liberdades ainda estão em fase de adaptação social e por isso as mulheres ainda são socialmente condenadas.
 
Há quem tenha imaginado que as liberdades de ação viriam acompanhadas da aceitação social e até de incentivos. Porém, a sociedade ainda está aprendendo a conviver com tantas "novidades" que desabrocham a ausência de submissão da mulher ao homem. Nesse bailar, pessoas parecem ser conduzidas à uma instabilidade social, revoluções e até à perda de direitos já estabelecidos.
 
De fato, o direito devidamente positivado decorrente de várias nuances e situações que eram inimagináveis no século passado não está no mesmo rítimo da sociedade a quem se impõe seu respeito e obediência. A sociedade não acolhe verdadeiramente o direito enquanto não se acostuma com ele. Daí a necessidade do convívio com as diferenças e com os diferentes.
 
Toda essa falta de aceitação social pesa sobre os novos livres.
 
Como dizia o orador irlandês John Philpot Curran (1750-1817), "o preço da liberdade é a eterna vigilância". Uma casadinha perfeita com o ensinamento de Simone de Beauvoir (1908-1986): "basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos (das mulheres) sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” 
 
Quanto mais o ser humano faz uso de sua liberdade, mais ele a desafiará. Quem muito usufrui da ausência de submissão corre o risco de ser incompreendido, julgado e pressionado a voltar à incapacidade de agir por conta própria. Por isso o exercício do livre arbítrio deve ser perene e perseverante. Afinal, direitos podem ser questionados. Os novos direitos, assim copreendidos aqueles com 50 anos ou menos, certamente serão questionados, combatidos e desafiados até o próximo século.