Daniel Costa

30/11/2018
 
Tempo de comprar
 
Ainda não acabou novembro, mas a cidade já está tomada por luzes e estrelinhas brilhantes. Os shopping centers floreiam na decoração em busca de compradores de todos os tamanhos e idades. Na sociedade de consumo, seja nas propagandas de televisão, na internet, ou nas lojas, o Natal começa mais cedo. Com isso, a referência de tempo parece se transformar.  A ideia de começo, de meio e de final de ano é conspurcada.
 
Se antes, querido leitor, tudo relativo aos festejos natalinos acontecia em meados de dezembro, próximo ao dia do nascimento de Cristo e relacionado a um ritual de celebração da família, hoje - longe das igrejas e das orações - já estamos em pleno mês de novembro enfronhados nas gôndolas de supermercados, e nas filas das lojas, à procura de vinhos, de queijos e de presentes. Lembrando Carlos Drummond, éramos "homens-etiquetas", sem identidade e sem capacidade de escolher. Agora, bombardeados à exaustão pelas propagadas e pelos enfeites, tornamo-nos, também, prisioneiros do tempo imposto pelo mercado.
 
A sensação, dessa maneira, é a de que o ritmo de trabalho parece ser outro. Os prazos e projetos precisam ser concluídos até novembro. O desejo por férias se antecipa. O movimento nos cafés aumenta, assim como o trânsito nas proximidades dos shoppings e a quantidade de indivíduos nos magazines. As pessoas ficam mais ávidas pelo prazer de comprar, nascendo a partir daí a ansiedade de ter que se adequar a esse novo ritmo; o que pode se transformar numa grande frustração, em ataques de raiva e de pânico, a depender da quantidade de dólares que se tenha no bolso.  
 
Nessa ditadura do tempo, na qual não nos é dada a opção de escolha, na medida em que o mercado condiciona o nosso psicológico através de estudos e estratégias de marketing, o próximo passo parece ser o do aumento do ócio. Afinal de contas, é preciso alargar as ocasiões que se têm para obter cada vez mais produtos.
 
Na condição de zumbis, assim, só nos resta ficar felizes e sorrir à frente das árvores e dos bonecos de Papai Noel, esperando o momento em que as propagandas televisivas, adornadas com presépios e renas, se iniciarão logo depois do carnaval, quando então o ano inteiro será um eterno dia de Natal.