Andrea Nogueira

07/07/2018
A protagonista
 
A busca por igualdade de oportunidades e tratamento dentro do conceito de isonomia vem sendo intensificada pelas mulheres, dia após dia. Muito já se alcançou, mas a luta não tem prazo ou previsão para acabar.
 
Para não confundir essa luta tão significativa com uma mera disputa de gêneros, é importante reconhecer que a desigualdade é real.
 
Os conceitos sobre o feminino, formados na sociedade ao longo dos anos, contribuiu significativamente para a persistência dessa desigualdade tão combatida. Mas o problema nunca foi do feminino, mas do olhar da sociedade (dos homens e das mulheres) sobre o feminino. Sob este olhar, construído por homens, já que eles eram os historiadores, os escritores, os filósofos, os influenciadores de opinião, era quase impossível conhecer a realidade de outra forma, pois não tínhamos uma influência do pensamento feminino na
construção da nossa história e na formação do contexto social.
 
A mulher tratada como o "sexo frágil" está em extinção.
 
Com a revolução feminina, já é possível encontrar historiadoras, escritoras, filósofas e mulheres influenciadoras de opinião. Assim, também é possível reconhecer um olhar feminino sobre o feminino, mesmo por parte dos homens.
 
Para entender a diferença dessa forma de olhar, julgar, compreender e analisar fatos, vamos fazer uma releitura de uma conhecida história, mas bastante influenciadora dos conceitos de homem e mulher no contexto social e familiar. Independentemente de sua formação religiosa, a maioria das pessoas conhecem a história que será analisada aqui:
Conta-se que no início dos tempos, após criar tudo o que existe no mundo, o Criador resolveu ater-se ao ser mais sublime e perfeito para administrar todas as coisas criadas: o homem. Conta-se que o homem foi criado a imagem e semelhança do seu Criador e assumindo o cargo de administrador e comandante de toda a criação, era também o mais inteligente, o mais preparado, o mais capacitado para tal função. Imaginem que o homem era o ser mais sublime de toda a criação e que acima dele só estava o seu Criador. Ele era tão importante e precioso aos olhos do seu Criador, que merecera uma companheira. A mulher foi “um presente” para o homem. A história não narra, em nenhum momento, a importância dessa companheira para a criação, deixando apenas ressaltada a importância da mulher para o homem (olhar masculino, especialmente embasado na cultura da época). A narrativa da história também culpa a mulher pela destruição do mundo perfeito que após provar um fruto proibido, simplesmente o oferece para o homem após convencê-lo, sem muito esforço, de que também deveria comê-lo.
 
Mas quem diria que uma criatura colocada pelo historiador num patamar de segunda relevância fosse a grande protagonista da mudança do curso da história? É possível enxergar esse protagonismo, sem uma característica depreciativa, porque é possível enxergar a mulher como pessoa tão importante para a criação quanto o homem, tudo isso através de um olhar feminino sobre o feminino.
 
Na verdade, as histórias que ouvimos durante longos anos posicionavam as mulheres em um papel secundário ou especialmente definido para o seu lar e cria, deixando para os homens o papel principal e de administrador de todo o restante. Ainda hoje, uma grande quantidade de mulheres acredita nessas versões. Mas elas precisam descobrir que também são protagonistas e não coadjuvantes. Precisam reler as histórias com um olhar feminino até se convencerem que poderão permanecer somente em seus lares por uma questão de opção e não por falta de alternativa.
 
A partir do momento em que a mulher se reconhece protagonista, ocupa sua posição de líder nata e multifuncional, passa a integrar a sociedade como alguém que provoca mudanças sociais, estruturais e políticas. Não ultrapassa o homem, mas assume os mesmos postos, cargos, profissões e lugares, numa verdadeira construção da igualdade.
Esta nova mulher vem derrubando tabus, revolucionando tradições, marcando presença em lugares antes restritos aos homens. Ela ajuda a escrever a história, diversificando o olhar sobre o feminino que antes era ímpar.