O vírus mais recorrente no Brasil é a fome

13/09/2021

Por: Jessyanne Bezerra
Foto: Reprodução

 

No Brasil de Bolsonaro, o negacionismo se tornou comum diante de uma doença que dizimou a população mundial com a justificativa de que era um “vírus chinês”. Enquanto milhares de brasileiros morriam diariamente para o Covid, o presidente não se atentou para a atual pandemia e nem para um outro vírus que já era recorrente no Brasil: a fome.

"A fome é uma tragédia a conta gotas, silenciosa e escondida, tão escondida que o Brasil que come não enxerga o Brasil faminto. E, com isso, a fome vira apenas um número, estatística, quando na verdade são nomes, histórias e vidas a serem perdidas". Essa fala é do jornalista Marcelo Canellas, na reportagem de 2001 sobre a fome no Brasil, mas que até hoje, 20 anos após, ainda se mostra presente na sociedade brasileira.

A pandemia agravou a fome no Brasil, segundo dados do IBGE, 84,9 milhões de pessoas estão com fome ou em insegurança alimentar. A falta de alimentos e o aumento da extrema pobreza se tornaram realidade para 14,5 milhões de famílias brasileiras. O número de famílias na miséria registrado em abril de 2021 é o maior da série histórica do Ministério da Cidadania, iniciada em agosto de 2012.

Mas apesar da situação do novo coronavírus, a fome no Brasil já era uma realidade frequente. Antes da pandemia, em fevereiro de 2020, já havia 13,4 milhões de famílias nesta situação.

São 19 milhões de brasileiros em situação de fome no Brasil, segundo dados de 2020 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). A comparação com 2018 (10,3 milhões) revela que são 9 milhões de pessoas a mais nessa condição. 

Voltando para 2018, quase 25% da população, cerca de 50 milhões de pessoas, vivia em situação de pobreza, e cerca de metade disso, 12,5% do total de brasileiros, na extrema pobreza. Isso significa que um quarto das pessoas no país sobreviviam com R$ 387,07 mensais, quando pobres, e com R$ 133,72 por mês (valores da época), quando extremamente pobres.

E apesar dos alertas, assim que assumiu a presidência, Jair Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (consea) que tinha como objetivo propor ao governo federal diretrizes e prioridades da política de segurança alimentar e nutricional.

Uma pesquisa realizada em novembro e dezembro passados com 2 mil pessoas mostrou que 15% estavam em insegurança alimentar grave, e 12,7% em insegurança alimentar moderada, o que significa que corriam o risco de deixar de comer por falta de dinheiro. Em relação à população brasileira como um todo, isso equivaleria a 58 milhões de pessoas. 

Segundo a pesquisa, portanto, 59,4% da população enfrentava no final do ano passado algum grau de insegurança alimentar, o equivalente a um total de 125 milhões de pessoas.

Com isso, os números da fome, que já vinham aumentando, superaram os registrados no início da década passada, quando foi criado o Bolsa Família.

A insegurança alimentar está de volta a realidade do brasileiro, agora presente não somente nas ruas, mas nos lares de quem viu a vida mudar ora pelo vírus, ora pela fome. Devido a crise econômica, a inflação, desemprego e a queda histórica do PIB brasileiro, a população se vê refém de um auxílio emergencial para pagar aluguel, gás, contas de energia, água e se sobrar, comprar comida. Para se ter uma noção mais expressiva, o número que representa os brasileiros em situação de insegurança alimentar equivale a 59,3% da população do país.

Em 2001, após sete anos de FHC, uma criança morria a cada cinco minutos por causa da fome. 20 anos depois, essa realidade voltou ao Brasil e mais explícita do que nunca. Diante da situação atual, o brasileiro se vê à frente de dois algozes: a fome e o Covid. A questão é que ambos são evitáveis quando se tem um governo que se importa com sua população.