Inspirações para adiar o meu fim de mundo

23/11/2020

Por: EVA POTIGUAR
 
Inspirações para adiar o meu fim de mundo 
 
No início da pandemia, eu senti uma angústia que alimentou minha ansiedade e logo eu percebi que estava me tornando uma pessoa muito ansiosa e entediada. Achei mais saudável sair ou silenciar vários grupos de WhatsApp para pensar o que estava acontecendo ao meu redor e como eu estava reagindo a este novo contexto pandêmico. Isso também foi por amor próprio e por respeito as pessoas de meus contextos literários e sociais.
 
Os poucos grupos que mantive ativos foi basicamente por necessidade de trocas, de compartilhar desde simples "figurinhas fofas", a diversas mensagens informativas sobre a pandemia. Mas, as angústias do distanciamento social, me sufocavam. De repente, não havia saraus, rodas literárias, abraços e sorrisos para vivenciar com quem eu dividia as rotinas cotidianas dos "rituais" artísticos e sociais. Eu tinha todo o tempo do mundo e nada para fazer do que eu amava. 
 
Meu espírito irrequieto e acostumado as turbulências prazerosas de criação, pedia arte para respirar. Nada parecia ser satisfatório. Resolvi desenhar, pintar e até arrisquei pegar no violão que estava no "bisaco" quase há uma década. Muitos nem sabiam que eu "mexia" com outras Artes além da poesia e da contação de histórias. Eu também não me lembro de ter informado a ninguém.
 
Enquanto eu desenhava esboços e pegava no violão, sem nenhum compromisso, fui me inspirando a mudar de foco, de percepção e em maio, iniciei as lives de contação de histórias no meu Instagram com a "cara e a coragem", mas com sede de brincar e explorar as emoções.
 
Escolhi um tema voltado para o amor materno e curti muito revirar conceitos como: gratidão, mãe, mulher e inspiração.
 
Depois disso, nesse processo de empreendedorismo individual, fui construindo um caminho de dentro para fora. Não era uma alternativa profissional, mas, sobretudo, de abraço afetivo comigo, com meus sonhos e minhas "inspirações para eu adiar o meu fim de mundo".
 
Fui amenizando a minha ansiedade e a angústia existencial, na medida que fui me desprendendo de esperar do outro a solução ou atenção especial que eu devia e podia dar para mim. Então, fui me permitindo a recriar novos micros contextos dentro deste macro sistema pandêmico.
 
O lúdico sempre esteve vivo em minhas memórias, a criança que subia nos cajueiros queria saltar e eu deixei. Iniciei uma série de contação de histórias com bate papo Literário no Instagram @Evapotiguar e isso se tornou numa brincadeira gostosa, sem nenhuma pretensão de conquistar algo mais que o meu próprio encantamento e deixar o riso literalmente no ar para quem desejasse também se achegar.
 
Era também um "pretexto" delicioso, de rever amigos e amigas que tanto eu queria abraçar e brincar numa roda de "travessuras".
 
Mesmo que fosse em janelas virtuais, rever essa gente linda, era uma forma de "retroalimentação". Uma chave que eu pude girar em função de autopoieses saudáveis, com momentos de ludicidade e de prosa.
 
Foi assim que vivi uma crescente ciranda com escritoras e escritores que admiro, que me inspiram, com os quais me sinto coautora desta aventura chamada vida.
Até setembro de 2020, vivi esses movimentos sociais de trocas, ri muito e chorei também de emoções, me reinventei sob diversas perspectivas e aprendi muito nesse jogo lúdico e autopoiético. Foram mais de 25 lives, que se iniciaram no Instagram, exigiram mais tempo e adaptações constantes e transferiram para o canal de youtube e do Facebook até o mês de outubro.
 
Neste ritmo, fiz amizades que sinto que estaremos conectados até meus últimos dias aqui nesta terra. Também fiz outras amizades, que me lembraram que sempre haverá almas adversárias no caminho e que elas vêm para desafiar os meus medos, a minha dignidade e a rever minhas possibilidades de não corresponder ao ódio e a inveja que os seus atos expressam.  
 
Foi nesse instante, que a vontade de viver quase me disse adeus, quando eu pensei em desistir, quando eu achei que seria incapaz de me levantar perante julgamentos maldosos, falsas amizades e discriminações machistas e atitudes patriarcais irraizadas até em mulheres que eu tanto estimava.
 
Mas, não eram essas pessoas que tinham de mudar para eu superar essas adversidades.  Eu que tinha que mudar. Esperar do outro, era sofrer ainda mais, pois ninguém muda ninguém.  Cada um tem sua própria "chave" para dar a ignição em sua forma de viver. Respeitar esse processo individual e intransferível, foi vital para eu transcender e foi aí, que novamente a menina que aprendeu a não ter medo da escuridão, que acredita nas estrelas por trás das nuvens, decidiu enfrentar os seus "demônios" mesmo com lágrimas e dores profundas que feriram a sua alma. Tudo isso contribuiu para eu transmutar, me refazer e ressignificar padrões de comportamentos e priorizar mudanças ainda latentes em contínua autopoiese.
 
Sou grata pela oportunidade que o universo me concedeu, pelas vozes dos seres iluminados que me guiaram, pelos desafios e dificuldades no caminho, pelas companhias benditas e difíceis que tive nas janelas virtuais, por cada crítica, olhar e sorrisos ofertados.
 
Hoje avalio com lucidez e gratidão, o quanto foi crucial o investimento na minha espiritualidade e amadurecimento nesse processo. Não fiz riqueza material e não ganhei nenhuma moeda em troca das atividades produzidas.
 
Porém, nunca me senti tão enriquecida de esperança e de gratidão, de ternura e de diferentes culturas. Conheci diversos parentes de várias etnias e hoje tenho muitos pontos geográficos para visitar esses novos amores depois desta pandemia.
 
Essa história que começou sem roteiros, sem pretensões, talvez por isso, foi além de meus medos e inseguranças.
 
Hoje, o mundo segue em pandemia, a espera da tão desejosa vacina contra a COVID19, a massa humana está tão ansiosa por esse advento, que pouco rever suas "máscaras" egoístas e hipócritas perante a vida social e a Terra Mãe. Querem reviver um "normal" que nunca existiu para o bem comum, feito de abusos a fauna e a flora, de desperdícios com a saúde espiritual em função da vaidade e da ganância material.
 
Enquanto isso, decido ligar a chave desta autopoiese que a Mãe Natureza aponta a todos os seus filhos e filhas. Aquilo que toda criança, todo bicho, toda árvore, toda flor, pássaro, gota d’água e raio solar sabe: servir doando o seu melhor, em prol da beleza de nossa casa, de nossa vida neste meio ambiente.
 
Inspirada na criança que vive em mim, seguirei com novas inspirações, com mais coragem de enfrentar as circunstâncias e mais aberta para continuar aprendendo, revendo minhas "verdades". Dando um passo de cada vez e sem pausa, porque o nosso mundo, é uma ciranda que inicia dentro de nós, no ritmo singular de autopoiese de cada brincante.
 
Aguyjevete!