Divanize Carbonieri: "A literatura precisa se abrir para as diferentes visões"

29/08/2020

Por: CEFAS CARVALHO
 
Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Divanize Carbonieri é paulista de Sorocoba mas mora há anos em Cuiabá, capital de Mato Grosso. Tem diversos livros publicados, como “Entraves” (Poesia, Carlini & Caniato, 2017), agraciado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura, “Grande depósito de bugigangas” (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2017, “A ossatura do rinoceronte” (2020) e “Furagem” (2020), além da coletânea de contos “Passagem estreita” (2019), selecionada pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2018. No Prêmio Off Flip, foi finalista na categoria poesia nas edições de 2018 e 2019, e segunda colocada na categoria conto na edição de 2019. Também foi finalista no 3o Concurso da Editora Lamparina Luminosa em 2016. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto e integra o Coletivo Maria Taquara, ligado ao Mulherio das Letras de Mato Grosso. Também é bastante ativa nas redes sociais. Confira entrevista que ela concedeu ao Portal PN falando sobre processos literários, tempos atuais e literatura em geral.
 
 
Como é o seu processo de criação e como a pandemia e o isolamento o afetaram ou alteraram?
 
Meu processo de criação é meio caótico, cada dia acontece de um jeito, tem dia que nem acontece. Então, se num dia eu escrevo muito, não significa que no outro vou render o mesmo. As mudanças que acontecem comigo de um dia para o outro às vezes são intensas, principalmente em termos de disposição, não só para escrever, mas também para outras tarefas, e até para insights. 
 
Além disso, acho que os períodos ociosos, por mais que me angustiem, são necessários. Como bem percebeu Domenico de Masi, o ócio é criativo. É nos momentos ociosos que surgem ideias criativas, resoluções de problemas. Que escritora/escritor já não empacou num texto e, de repente, quando foi dar uma caminhada ou até tomar um banho, conseguiu visualizar um caminho para a sua escrita? 
 
Uma pessoa que se dedique, na maior parte do seu dia, a ser produtiva, conforme entendemos produção no sistema capitalista, provavelmente vai se sentir embotada em termos de criatividade. Claro que o ser humano é sempre surpreendente e, mesmo em situações adversas, pode criar. Mas, se podemos falar em ideal, o ideal é ter tempo para bem elaborar as ideias criativas. 
A pandemia nos deu isso, tempo, pelo menos a princípio, quando ainda não tínhamos substituído as atividades presenciais por lives, aulas e reuniões online. Mas como o emocional está abalado, nem sempre é possível criar. Não escrevi tanto quanto gostaria, mas isso acho que nunca vai acontecer, sempre vou achar que poderia ter feito mais. 
 
 
Como vê atualmente e qual a importância de ações como o coletivo Mulherio das Letras, da qual faz parte, e movimentos de mulheres que leem mulheres? Aproveitando a deixa para uma pergunta clichê, mas, necessária: Existe uma literatura essencialmente feminina?
 
O Mulherio das Letras é um movimento literário feminista em que o que prevalece é a horizontalização. Enquanto o patriarcado se dedicou de certa forma a criar pirâmides, com o chefe, o líder, o mais apto, o “melhor” sempre na ponta, uma visão propriamente feminista entende que essa estrutura tem que se achatar, que todas e todos devem ter as mesmas oportunidades para desenvolver suas potencialidades. 
 
Não existe simetria entre homens e mulheres no Brasil no trabalho, na política, no social. E, na literatura, não ia ser diferente. Os homens acabam tendo mais espaço no mercado editorial e têm mais redes de apoios masculinos para se estabelecer. Nós, mulheres, ainda estamos formando as nossas redes. 
 
O Mulherio das Letras, que foi inicialmente concebido por escritoras como Maria Valéria Rezende, Conceição Evaristo, Alice Ruiz, Maria José Silveira, entre outras, hoje reúne, no grupo do Facebook, quase sete mil integrantes. A gente acaba entrando em contato com escritoras, editoras, professoras de literatura do Brasil inteiro e vamos tentando construir espaços juntas, incentivando e ajudando umas às outras.
 
Em relação à segunda parte da pergunta, acredito que sempre é um problema pensar em termos de “essência” quando estamos falando de seres humanos. Não existe esse ser humano essencial, que viria da natureza ou da divindade já com atributos específicos prontos. Então, não existe uma mulher essencial, assim como não existe literatura “essencialmente” feminina. 
 
Vamos lembrar de Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher, mas torna-se”. O tornar-se mulher é um processo de socialização, um processo cultural, portanto. Nesse sentido, as pessoas que são designadas ao gênero feminino desde o nascimento irão ter experiências diferentes daquelas vividas por pessoas cuja designação é o gênero masculino. Se temos experiências diferentes, teremos perspectivas diferentes.
 
Dessa forma, podemos falar em literatura feminina ou produzida por mulheres como aquela que traz essas perspectivas diferentes que a socialização como mulher provocou numa pessoa. E, como não existe apenas o gênero, mas outras questões, como classe social, etnia ou raça, orientação sexual, faixa etária, deficiências físicas ou cognitivas, essas perspectivas serão diferenciadas, dadas pelas várias intersecções entre esses aspectos. A literatura precisa se abrir para essas diferentes visões, para que a gente tenha um conjunto de narrativas e poéticas mais condizente com a multiplicidade que existe em qualquer sociedade.
 
 
Você já venceu e foi finalista de prêmios importantes. Qual sua opinião sobre os prêmios literários?
 
Acho que os prêmios literários acabam sendo um incentivo, não só pelo reconhecimento do trabalho, mas também pelos recursos financeiros que muitos deles (embora não todos) proporcionam. A existência dos prazos dos editais funciona ainda como uma alavanca para procrastinadoras profissionais como eu. Tendo uma deadline, consigo me organizar para produzir alguma coisa. E, de inscrição em inscrição, posso ir aprimorando o texto. 
 
Participei de mais prêmios em que não fui selecionada do que o contrário. Costumo dizer que, para cada sim, se recebe pelo menos o quádruplo de nãos. Não faço dos prêmios o centro da minha vida ou da minha criação. Até porque sou uma escritora que demorou a encontrar o seu caminho, o que tenho como foco agora é me aprofundar cada vez mais no que sinto necessidade de escrever. Se os prêmios vierem, muito bem. Mas se não vierem, vou continuar com meu trabalho, tentando encontrar vias de divulgação para ele.
 
 
Como é fazer e divulgar literatura em Cuiabá, distante do chamado eixo cultural convencional (Rio-São Paulo)? Quais os desafios?
 
Em Mato Grosso, encontrei oportunidades favoráveis para me desenvolver em várias áreas. Foi aqui que finalmente consegui me estabelecer na carreira acadêmica, me tornando professora universitária. E também foi aqui que minha carreira literária aconteceu.
 
Meus três primeiros livros foram financiados por recursos advindos das esferas estadual e municipal de Mato Grosso e Cuiabá. Neste ano, fui selecionada num novo prêmio estadual que vai me possibilitar publicar meu primeiro livro infantojuvenil. Então, existem políticas públicas locais e regionais para o fomento do livro. Claro que a gente sempre acha que poderia haver mais e luta para que haja mais, mas temos que reconhecer o que já existe. 
 
Mato Grosso está passando, nesse momento, por uma grande efervescência na literatura. Muita gente boa está publicando e inclusive ganhando prêmios importantes a nível nacional. A UNEMAT, que é a Universidade do Estado de Mato Grosso, vem conduzindo pesquisas sobre as literaturas produzidas aqui, além de organizar eventos para a promoção de escritoras e escritores.
Revistas literárias digitais sediadas em Mato Grosso, como a Ruído Manifesto, da qual faço parte, estão se tornando conhecidas também no restante do país. Acredito que são principalmente as revistas e as redes sociais que estão nos ajudando a vencer o nosso maior desafio, que é ser vista e lida por pessoas de outros estados.
 
 
Como vê o mercado editorial brasileiro atualmente e quais os desafios para ser publicado?
 
Acho que é mais fácil para uma pessoa ser publicada hoje do que era há uns dez anos. As editoras independentes proliferaram e cresceram por todo o país. O aumento de mulheres que publicam vem muito disso, desse fortalecimento das editoras independentes, já que as grandes editoras ainda focam principalmente nos autores homens, brancos, heterossexuais, de classe média. 
Algumas editoras independentes têm se destacado inclusive em premiações importantes, que antes eram dominadas pelas editoras comerciais. Em Mato Grosso, temos duas editoras independentes que se destacam (há outras em processo de crescimento): a Entrelinhas e a Carlini & Caniato, que publicou quatro dos meus livros. 
 
Consegui publicar meu primeiro livro porque recebi o recurso do Prêmio Mato Grosso de Literatura. Muitas vezes os concursos e editais são oportunidades para que autoras e autores não conhecidas(os) consigam publicar. Em certa medida, o prêmio também projeta o nome da escritora ou escritor, variando, é claro, de prêmio para prêmio. 
 
Muitas autoras e autores financiam os próprios livros. Isso é uma prática comum, uma vez que hoje as tiragens são menores do que no passado e as tecnologias de impressão baratearam bastante o produto final. E, claro, também existem os e-books, que são mais acessíveis do que os livros impressos.
 
Uma coisa que só descobri mais tarde é que há editoras que publicam sob demanda, ou seja, não cobram um pagamento por parte da autora ou autor. Fazem uma pequena tiragem e vão vendendo praticamente livro a livro. Caso a primeira tiragem se esgote, é feita outra e assim sucessivamente. Então, existem muitas formas de ser publicada.
 
 
Qual a importância das redes sociais para a literatura atualmente?
 
As redes sociais se tornaram um importante meio de divulgação da literatura. Eu, que tinha um pouco de resistência com o Instagram, por achá-lo chato em comparação com o Facebook, mudei de posicionamento quando vi que é um excelente canal para a poesia. Desde então, tenho publicado poemas nessa rede, além do Facebook, que já usava antes.
 
No Facebook, além de publicar os mesmos poemas que publico no Insta, ainda escrevo minicrônicas da vida cotidiana. Na verdade, são comentários rápidos mesmo, postagens de redes sociais sobre diversos assuntos. Uma amiga minha, a Graziela Maria Lisboa, que também é escritora e professora de literatura, diz que o que estamos fazendo na atualidade é uma microliteratura de rede social, um gênero que não existia antes, que a gente não sabe como vai ficar no futuro. O Facebook armazena as nossas postagens e esses arquivos certamente serão usados em pesquisas nos próximos anos.
 
Mas também é preciso dizer que as mídias sociais tomam um tempo precioso, que poderia ser usado para a escrita. E são altamente viciantes, podendo tirar muito da capacidade de concentração de uma pessoa. Para nós, que estamos na editoria de revistas digitais, não há muita escapatória porque as redes sociais acabam sendo imprescindíveis para a divulgação dos conteúdos veiculados em nossos sites.