Para quê brigar com a China?

08/04/2020

Por: Fernando Alves
 
 
Há quase dez anos, Henry Kissinger, secretário de estado e diplomata do governo norte-americano, sob o mandato do presidente Richard Nixon (de 1969 a 1974), publicou um interessante livro de história e política internacional, chamado “Sobre a China”. Nesta obra, de certo teor jornalístico, mas forte caráter filosófico e científico, Kissinger demonstra as peculiaridades da cultura chinesa, sua história milenar, e, principalmente, as idiossincrasias e características políticas do Estado chinês. Comparando a China com os Estados Unidos, não há sombra de dúvida de que ambas as duas maiores potências em atividade hoje no mundo, e suas decisões políticas, econômicas e militares, com toda certeza, afetarão a humanidade inteira.
 
Entretanto, Kissinger alertava em seu livro que, diferente dos Estados Unidos, com seu mito do “destino manifesto” e  crença de que a pátria, simbolizada pela águia americana, devia pairar sobre o mundo como uma espécie de guardião ou espírito protetor da humanidade, com seus ideais de liberdade, a China está bem longe disso. Na Antiguidade, mesmo antes do apogeu da civilização grega, além da Cordilheira do Himalaia,  os chineses já tinham estabelecido um império, e longe de querer conquistar territórios, mantinham convivência respeitosa com seus vizinhos, enviando emissários, muito mais interessados em trocas comerciais do que em dominar outros povos. O empreendedorismo chinês é citado pelo ex-diplomata como uma das grandes virtudes da China, assim como os Estados Unidos da América, com seu liberalismo econômico, pois ambos, na história recente, sempre tiveram, cada um a seu modo, o  interesse em prosperar no capitalismo e se empoderar nos mercados. Essa é a lógica principal da relação entre dois rivais históricos: prosperidade econômica e disputa de mercados.
 
Sabe-se que o governo de Jair Bolsonaro é altamente vinculado aos interesses norte-americanos. Funcionando não só como aliado, mas como bajulador, o presidente brasileiro busca seguir à risca as orientações de seu ídolo confesso, o presidente Donald Trump. Apesar de tratativas comerciais nem sempre muito atrativas ao Brasil, Bolsonaro segue com sua fidelidade a agenda econômica e diplomática dos yankees, chegando a imitar os trejeitos populistas de seu mestre do topete loiro, num discurso muitas vezes descortês com o rival chinês do gigante norte-americano. Afinal de contas, se fosse somente por conta da ideologia, o militarista e anticomunista Bolsonaro desejaria léguas de distância da China, liderada pelo partido comunista chinês, de Xi Jinping. Entretanto, tal ruptura não é tão simples assim.
 
Sabe-se que descortesia não se confunde com agressão. Diante da pandemia do coronavírus, que trouxe a enfermidade da COVID-19 a partir de um mercado público na cidade de Wuhan, na China, representantes do governo Bolsonaro ou de sua entourage política insistem em atacar e difamar a China por meio das redes sociais, valendo-se de argumentos, gravuras e postagens toscas, premeditadamente colocadas no ar tão somente para serem retiradas depois, logo após já terem causado o estrago da polêmica. Trata-se de um método sorrateiro, com objetivos próprios: primeiro, o de agradar a potência norte-americana e seu presidente, neste momento muito ocupado para conter o avanço do coronavírus nos Estados Unidos, com um número recorde de mortos, estimulando a guerra comercial entre rivais, a favor de um e em detrimento do outro; segundo: desviar a atenção da opinião pública do claudicante governo Bolsonaro, que no âmbito interno não consegue agregar e nem obter respaldo político, eclipsado pela ação diligente de um ministro da saúde que não se curva a um presidente autoritário, que quer negar o óbvio: que a expansão do contágio pandêmico do coronavírus só poderá ser controlada por meio do isolamento social. Diante do negacionismo presidencial, só resta ao bolsonarismo tentar chamar atenção por meio da política internacional.
 
Estratégia temerária e de poucos efeitos a curto, médio ou longo prazo, uma vez que o governo chinês limita-se por hora a repudiar em notas (e com razão), as agressões oriundas dos filhos do presidente brasileiro e de seus ministros. Primeiro, tratou-se de uma publicação do filho zero três do presidente, o deputado federal, Eduardo Bolsonaro, culpando a China pela virus hoje espalhado por todo o mundo, chamando o coronavírus de “vírus chinês”, uma vez que, segundo ele, o governo chinês seria uma ditadura que teria escondido do mundo a existência da doença, até o vírus ter se alastrado. A publicação gerou revolta na diplomacia chinesa, culminando com a exigência feita pelo embaixador chinês de um pedido de desculpas público. O ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, meteu-se no meio da discussão, e como um lacaio do chefe em Brasília, tomando as dores do filho do presidente, reforçou a agressão, dizendo que quem teria que pedir desculpas ao Brasil seria o governo chinês.
 
Apagado o primeiro incêndio pelo próprio presidente (que não se retratou), a vida parecia seguir para ambos os governos, o brasileiro e o chinês, na condução da crise do coronavírus, até que o ministro da educação, Abraham Weintraub, publicou também em suas redes sociais uma postagem ofensiva a China, desta vez agindo infantilmente através de um comentário jocoso em torno de uma gravura, de um personagem das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica, junto com um urso panda, na muralha da China. A agressão tosca, com ares de falta de desenvolvimento mental, teria passado despercebida se o citado filho do presidente não tivesse voltado à tona, reforçando as agressões. Já se conta diversas publicações nos meios de comunicação, dando conta de que se há continuar nesse baixo nível de relação, as trocas comerciais entre Brasil e China podem até ser interrompidas.
 
Não se sabe até que ponto a ameaça do governo chinês de romper relações não se trata de bravata no calor dos acontecimentos. O que é certo, porém, é o que o Brasil parece não ganhar nada com integrantes do governo bolsonarista querendo agredir o parceiro asiático. Além de ser o maior parceiro comercial do país, a China fornece também equipamentos médicos, e na intensa crise social trazida pela pandemia, com a iminência de um colapso no sistema de saúde, é fundamental a compra de respiradores, que a China tem aos borbotões, por conta de sua capacidade industrial. Será que com mesmo isso, o bolsonarismo irá remar contra à realidade, e além de deixar doentes do coronavírus sem hospitais, vai deixá-los também sem recursos médicos?
 
Sobre os equívocos em série cometidos pelo governo Bolsonaro em suas relações diplomáticas, cabe aqui uma sábia fala de Confúcio, filósofo chinês do século IV a V antes de Cristo,  que pode auxiliar na manutenção de uma relação tão proveitosa quanto a do Brasil com um parceiro econômico tão poderoso: “não corrigir as próprias falhas é cometer a pior delas”.