Cefas Carvalho

31/03/2022
 
Pai, por que me abandonaste?
 
Dor... Que sabem estes infelizes sobre a dor? Não me venham com as dores da alma, as dores do espírito... Estas são curáveis com o tempo, com uma palavra doce, com uma recordação dos dias felizes... A dor que conta é a gerada pelos cravos entrando na carne, dilacerando veias e ossos... Uma dor que começa funda, intensa, depois vai diminuindo e se tornando estranhamente estável, como uma anestesia, só que à base de dor. Depois vem o cravo, um só, que entra nos pés entrelaçados, com uma única martelada, potente, decidida. A dor dos pés é mil vezes mais intensa que a das mãos e é possível ouvir os ruídos dos ossos estilhaçados pelo ferro... Que sabem eles sobre dor, portanto? Não há dor que se assemelhe a esta. Não existe chibata ou espinhos em forma de coroa que possam gerar mais dor que os preços a grudar um corpo em dois pedaços de madeira a fazer – da carne e da madeira – uma maldita cruz, que nada tem de sagrado. É um método de infligir dor e morte a um homem, que deixa de sê-lo após pregado na madeira como um animal. Passam as horas e a dor nem aumenta e nem diminui, apenas se modifica. Vem em ondas, em camadas. Uma dor aguda, latejante, que quase leva à inconsciência, mas, infelizmente, não é forte o suficiente para trazer o sono ou tirar a vida com rapidez. Dor... Que sabem ou saberão tantos milhões de infelizes sobre a dor? Só sabe sobre a dor quem tem três cravos imensos mesclados ao corpo e vê àquela desgraçada mulher que teve a má sorte de me parir chorando ao chão poeirento ao testemunhar, com os olhos que a terra há de comer, o filho maldito pregado em uma cruz de madeira.  O que, em meio a tanta dor, eu poderia gritar para o mundo, senão Pai, por que me abandonaste?