Cefas Carvalho

03/03/2022
 
Em tempos de guerra, rever ´Hair` remete à utopia antimilitar e pacifista
 
Assisti "Hair" entre 15 e 16 anos, em VHS, meses após ter visto "Veludo azul" e "Jesus Cristo Superstar", os três filmes que me mudaram, me impactaram e pautaram muito que penso e vivo até hoje, além do efeito temático/estético.
 
Mas, no caso de "Hair" (Milos Forman, 1979), que conta a história de um grupo de hippies que conhece um rapaz do interior que chega em Nova Iorque para se alistar, convocado que foi para lutar na Guerra do Vietnam, o impacto foi comportamental e ideológico. Por causa desse filme deixei o cabelo crescer (o que mantive até os 22 anos) e comecei a usar roupas bem mais despojadas. E, me tornando pacifista, criei ojeriza à instituição militar pelo que representava (historicamente, inclusive) e pelos "valores" cultuados. 
 
Decidi então que jamais entraria no serviço militar - já estava perto dos 18 anos - e antes de obviamente ser dispensado como excesso de contingente pela miopia braba que ainda tenho, o medo de ser convocado me levou a com um amigo a formular um projeto utópico de fuga para Cuba. Após o filme também pesquisei sobre os horrores da Ditadura Militar, enfim, e decidi lutar da forma que me fosse possível para que jamais aquilo acontecesse novamente. Mantenho essa luta até hoje.
 
Tudo isso porque revi o filme em tempos de guerra, com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Geopoliticamente compreensível, mas, moralmente inaceitável! . E ainda considero a cena final, com a canção "The flesh failures", o libelo mais forte a mostrar o horror e o absurdo da guerra. Com os soldados e George Berger (que finge ser soldado para ajudar um amigo) cantando com a consciência que estão indo para a morte no Vietnam (os EUA invadindo outro país, por sinal...) Como diz a letra, "encaramos uma nação agonizante" e "sentimos cheiro de laboratório", afinal, nas guerras, os Putins e Bidens nem sequer estão na frente de batalha, quem sempre morre são os jovens, além das mulheres, crianças, pobres, minorias étnicas. "O resto é silêncio", como vemos na letra, citando Hamlet. Que acabe a guerra, afinal, sempre sabemos quem a perde.