Fabio de Oliveira

25/10/2021
 
Entre imagens abstratas e sensações concretas
 
 
Entre tantas tarefas que eu tive para executar na semana passada, consegui ir até o rio, driblando os ponteiros do tempo. Antes de uma reunião começar no Gamboa, lembrei-me de umas fotografias que faria no mangue, então, coloquei minha câmera no ombro e pedi licença às senhoras e senhores da mata para caminhar pelas trilhas até às margens do Jaguaribe. Temos todes um mal hábito de deixarmo-nos tomar pela constante produtividade? 
 
Até retornar para começar a reunião, restava-me apenas cerca de quarenta minutos para reconectar-me um pouco neste pedaço da Mata Atlântica e fazer as fotografias para este trabalho. Afinal, nem sempre poderemos ter esse benefício de (re)conectarmo-nos à natureza percebida e zelada por poucas pessoas.
 
Há uma sútil diferença entre o olhar físico e o olhar da lente fotográfica. Embora o mangue, as árvores, as folhas, o movimento das águas e as garças estejam sempre ali, do outro lado da margem do rio, percebo algo de novo nesse ambiente. Vai além da visão estática dos enquadramentos e dos planos captados pela câmera. Por mais paradoxal que seja, é um olhar invisível aos olhos.
 
Naquele momento, eu tinha tudo para descarregar e renovar minhas energias, conciliando os dois olhares, como sempre fiz. Mas fiquei tão preocupado com tantas demandas para realizar, que não consegui estabelecer um diálogo entre meus olhares concretos e abstratos, a fim de ter como resultado uma fotografia satisfatória.
 
Resolvi, diante dessa divergência, descansar meu equipamento sobre uma canoa estacionada, para recompor-me nas águas tranquilas do Jaguaribe – mesmo sabendo que nos próximos minutos, após o descanso, estaria em mais uma tarefa. Nesse meio tempo foi possível tecer e identificar esses aspectos que, provavelmente, eu não perceberia em outro momento.
 
Não recebemos um manual ou somos ensinados a gerir essas sensações de mais um dia cheio de afazeres e pressões do nosso cotidiano. Se externamos ou não esses conflitos em nossas subjetividades, fazem-nos mal de todo jeito. Muitas vezes nós mesmos precisamos aprender a lidar com tantas situações, sem nos afetar ou afetar as pessoas ao nosso redor.