O artista potiguar durante a pandemia e o isolamento: Esso Alencar

18/09/2020

Por: CEFAS CARVALHO
 
Cantor e compositor potiguar, Esso Alencar desde os anos 1990/2000 se destaca no cenário musical natalense, onde começou na cena roqueira e depois migrou para um estilo próprio de MPB com pegada regional. Inquieto e ativo nas redes, vem divulgando há tempos tranalhos diversos e se manteve produtivo durante o isolamento social. Confira entrevista com ele:
 
 
Como está sendo produzir música e arte em geral nestes tempos de pandemia, isolamento e tensão?
 
Do ponto de vista técnico, produzir música, que é o que faço, ficou meio alterado. Parte do que é feito para ser dividido com o público presencialmente teve que ser adaptado às transmissões instantâneas, para se cumprir as recomendações do confinamento. Parte do que é feito intelectualmente, criando, continuou sendo possível realizar tal qual antes, eventualmente até com mais intensidade. Em ambos estes cenários o que houve foi a chegada de uma gigantesca nuvem de sombras, que já estava a nos cobrir por aqui e se alastrou pelo globo afora. Os dias do mundo em 2020 estão sendo cinzentos, doentes, tediosos e repletos de uma banalidade que naturaliza ainda mais as atrocidades políticas e a própria escalada de mortes provocadas pela pandemia aqui.
 
 
Você é bem atuante nas redes sociais, onde divulga seus trabalhos. Como vê as redes neste período?
 
Há uma ambiguidade inerente às redes costuradas pelos relacionamentos virtuais: elas possibilitam uma melhor velocidade de comunicação mas esgarçam o tecido dos seus conteúdos, talvez justo por essa dinâmica acentuada no trânsito muito rápido. É como um esqueleto sem musculatura, sem consistência, ...  não se sustenta, é muito passageiro, corrido, vexado. Isso transforma quase tudo em nada, dissolve as texturas frágeis das teias sociais, desmancha conceitos culturais e faz desmoronar modelos estruturados em bases mais sólidas, o que não é de todo ruim em alguns casos. Óbvio que as gerações mais novas, que já estão nascendo sob esses signos e valores, não vão sentir os mesmos efeitos de quem ainda viveu os tempos analógicos, mas o meu sentimento é um pouco esse em relação ao que você me perguntou, sendo bem abrangente. No tocante a esse período especificamente a utilidade dessas ferramentas é inquestionável.
 
 
Como acha que será o cenário de shows ao vivo e eventos musicais no pós-pandemia?
 
Creio que tudo deverá voltar ao normal, não necessariamente ao que era antes, mas pode ser bem parecido. O difícil agora é fazer alguma previsão de quando aos poucos isso irá acontecendo. Mas se tivermos uma vacina em breve, e as mutações do vírus não se alterarem tanto, provavelmente em até 3, 4 ou 5 anos, é possível que tenhamos retornado aos nossos ritos anteriores: o Grafitão na Arena Itapetinga, na zona norte, e o Fagner ou o Waldonys no Largo da Ribeira. Não creio que haverá mudanças profundas nessas tradições, e embora o músico venha sendo um elemento essencial nessa travessia, é fácil ver que eles continuarão sendo enxergados pela sociedade como um bando de desocupados e vagabundos, pouco valorizados em seu trabalho e explorados até o fim.
 
 
Você fará uma live chamada Instinto Dissonante, na qual vai analisar letras de Renato Russo. Qual sua expectativa?
 
Basicamente minha intenção é manter a lembrança viva do vocalista da Legião Urbana, ampliando os sentidos do que ele corajosamente expôs à época em que atuou. Mesmo que sua obra tenha ganhado grande projeção nacionalmente, o conteúdo de suas canções continua muito atual diante da exacerbação do ambiente político nos últimos anos no país, com o crescimento das fobias e essa escalada protofascista que vem sendo adubada com o atual estado brasileiro. Além disso, algumas de suas músicas que carregam críticas mais aguçadas e profundas não foram, naturalmente, até os alto-falantes das rádios, e merecem novas interpretações à luz do Brasil a que chegamos em 2020. A Fonte, que está no repertório desta apresentação, é uma delas.
 
 
Como vê a situação dos músicos potiguares neste período?
 
Considero que temos uma produção musical muito boa, desde há muito. A cidade sempre foi inspiradora, e isso é perceptível na paixão impressa pelos artistas do passado. O problema, a meu ver, agora e sempre, reside na ausência de uma política pública que dê suporte ao desenvolvimento de uma melhor relação da comunidade com a música que é feita aqui. Para além do mercado e do populacho, claro. Uma música de apelo comercial esculachado, como o Grafith faz, por exemplo, mostra que é possível viabilizar uma carreira. Mas, e quem não quer fazer assim? Como ficam Luiz Gadelha, Júlio Lima, Pedro Mendes, Sílvia Sol? E os novos talentos? Como achar um caminho para a renovação da cena local, que envelhece também, né? Tem ainda os cantores e compositores para além da capital. Então são todos esses desafios com que lidamos desde o começo, e a partir de 2010 com a criação da Rede Potiguar de Música, que continua em busca de saídas para essa condição de dificuldade, em parte, procedente da própria desorganização dos seus agentes.
 
 
Sua obra e sua postura nas redes mostram uma forte preocupação sócio-política. Qual o papel da arte em tempos turbulento como estes?
 
O papel da arte é, em princípio, dar vazão ao novo. Etimologicamente arte quer dizer justamente criação. É fazer aflorar a beleza, até a mais estranha. Depois é que esta se insere em ambientes distintos, alcançando outras esferas, como o lazer, e inclusive o ativismo. No meu caso, dediquei esta última década à luta por uma maior consciência do artista em relação ao seu papel como vetor de modificação do seu entorno, sintonizado com sua realidade, amplificando seu quintal, dando voz à coletividade, quando for o caso. Há em mim um engajamento inerente à minha condição de cidadão, que não consigo dissociar da minha atuação artística. Havemos de evoluir, aprender a descartar corretamente o lixo, saber se defender das armadilhas da politicagem partidária, insistir na defesa dos nossos direitos, participar de modo mais ativo da construção de um mundo mais justo e solidário, independentemente das pandemias. É preciso deslocar os eixos de rotação do pensamento velho e arcaico, tradicional, baseado em falsas crenças. Veja o que as igrejas neopentecostais estão causando, usando os fiéis indulgentes. É preciso que a sociedade adote o entendimento de que a arte é uma atividade laborativa tanto quanto outra qualquer. Enfim, ...  sou adepto da arte como um veículo estético, mas também como um elemento fundamental para a educação, a ousadia e a revolta. E é por isso que ela sempre foi tão perseguida e marginalizada.