O artista potiguar durante a pandemia e o isolamento: Thiago Medeiros

04/09/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Foto de Diogo Ferreira
 
Poeta, escritor, ator, militante cultural, Thiago Medeiros é um artista inuieto e incansável. Um dos criadores e coordenadores do bem sucedido Insurgências Poéticas, Thiago não pára durante o período de pandemia e confinamento e vem investindo em lives e chegou a lançar um livro em plano isolamento. Confira bate papo com ele sobre isso tudo e muito mais: 
 
 
Você é um dos coordenadores do Insurgências Poéticas, projeto que aglomerava muita gente e tinha justamente o encontro direto como meta. Como está sendo fazê-lo de maneira virtual, como lives?
 
Acredito que esse momento tem nos trazido aproximações com artistas e poetas de outras partes do país que, possivelmente, não teríamos a mesma oportunidade dentro de nossas rotinas tão agitadas. São encontros que nos estimulam a esperança de ter esperança em meio a tanta dor e a tanto caos. Convidamos algumas desese artistas pra gravarem poemas em vídeo e disponibilizar diariamente em nossas páginas para que a poesia seja o abraço que não podemos dar nesse momento. Até agora, mais de 30 artistas de algumas partes do país estão nesse juntêro. Esse momento nos diz sobre reinvenção humana e profissional.   Ter nossas apresentações registradas em vídeos para livre acesso é muito importante, já que nem sempre temos essa possibilidade. Desde o início de nosso sarau, em 2016, o público é importante para o nosso trabalho. Hoje, quando abrem seus lares e suas rotinas para que nossa poesia chegue, quando investem financeiramente ou quando partilham nossos poemas e cartazes em suas redes sociais, fazendo com que a poesia chegue a outros olhares e mãos, retroalimentam a  esperança  de que não estamos sozinhos nesse tempo tão dolorido. Muitos de nós que compomos o sarau insurgências poéticas pertencemos a grupos de risco e sempre preparamos essas aparições com muito amor e carinho tentando levar esperança e saúde aos lares que abrem suas portas para nós. E, até que tenha uma vacina ou um remédio para o covid19, nossas atividades permanecerão online.
 
 
Durante o isolamento, você lançou um livro novo, o Ardência. Como foi lançar um livro em meio a uma pandemia/isolamento e como está sendo esse processo?
 
Foi um afago em meio a tanta dor. Saber que não estou sozinho é uma das maiores dádivas de me exercitar no mundo enquanto artista: desde o financiamento coletivo que possibilitou a impressão de ardência, à equipe tão generosa e afetiva que trabalha comigo desde meio-dia. A partir desses encontros virtuais, tenho conhecido escritores incríveis: o que acaba tornando possível que Ardência chegue a outras regiões do país e do mundo, já que existe uma versão digital do livro. Eu sou um artista e um ser humano emocionado. Tudo isso me humaniza para que ache esperança e força dentro de mim. Para que eu consiga ter mais coragem de não desistir da vida, do meu trabalho e de acreditar ser possível um mundo melhor. Assim como todes os trabalhadores autônomos, não possuo outra fonte de renda, além do meu trabalho com a arte.
 
 
Está conseguindo produzir poesia nestes tempos de isolamento?
 
Eu encaro a literatura e o teatro como meu trabalho. São 14 anos de dedicação exclusiva a essas duas linguagens, além da produção cultural. Tento estimular meu corpo e raciocínio para escrever, tecer e tentar possibilidades. Nesse momento, mais do que nunca, a arte e o tratamento psicológico têm sido os elos mais importantes entre eu e o mundo. Temos feito, semanalmente no Instagram, eu e a cantora e compositora norte-americana Haley Peltz, o Sarau Me Atravessa. Nesse projeto, que possibilita ler em voz alta poemas de minha autoria e outros escritores, nos interessa refletir e a sonhar um mundo com mais saúde, amor e esperança. São encontros emocionantes que nos fazem rever os amigos, ouvir outras vozes e  acreditar na importância da coletividade e da arte em tempos difíceis.
 
 
Como acha que será a dinâmica dos saraus e encontros literários no chamado pós-pandemia/novo normal?
 
Para mim, não é possível tratar "um novo normal" sem que se pese e problematize de modo sério a morte de 121.381 pessoas que se foram em decorrência de um vírus que como a apatia pode ser letal em muitos sentidos. De toda forma, acredito na arte como uma das maiores responsáveis pela reconstrução humana do mundo. Esse tempo de ausência dos abraços, esse tempo de tanta perda, de nos sentirmos sós -  só a arte e o afeto para nos levar a lugares como a esperança. Para esses “novos encontros” o mundo pede de nós pensamentos e ações de preenchimentos sem egocentrismo,  em humanidade e reconstrução. Estou à disposição do mundo para essa reconstrução que exigirá muito de nós. Acredito que diante desse “novo normal" há que se pensar e acolher também os trabalhadores e trabalhadoras da classe artística, no que diz respeito à saúde mental e suas questões econômicas. Conheci Vinícius Baldon, através de uma rede social, que produziu um trabalho falando assim: “a arte te salva, mas você salva o artista?” acredito que esse “novo normal” só será possível se ele for afetuoso, amoroso e coletivo para todos os exercícios de saúde.
 
 
 Como analisa a situação dos artistas que dependiam justamente dos eventos e contatos diretos para viabilizar sua arte e sobreviver, como é o seu caso, como você aponta nas suas redes sociais?
 
Estamos enfrentando a pior crise desse século: humana, sanitária e econômica. Quando observamos o cenário econômico de trabalhadoras e trabalhadoras da classe artística, a situação é desesperadora. Primeiro que em nossa construção, me parece que não somos considerados ou, em algum momento, não nos reconhecemos enquanto trabalhadoras e trabalhadores. Quando visualizamos a situação de Natal, já que é aqui que eu me exercito como ser humano e trabalhador, os editais ofertados para a classe são mínimos e não garantem que nossos compromissos financeiros sejam honrados. Como trabalhador autônomo, não tenho como parar de pensar e ofertar meu trabalho prezando a qualidade com que é realizado em edições ao vivo. O público têm sido o financiador direto dele, semanalmente penso em sorteios, rifas, venda de livros para que não falte em minha mesa o alimento e que possa pagar serviços básicos como água, luz e aluguel. Conheço uma dezena de nossas e amigos que estão buscando possibilidades através das redes sociais com ofertas diárias de serviços de artesanias, alimentícios e outros artefatos que garantam o básico em suas rotinas. Agradeço ao público que se mantém preocupado e atento a isso, seja abrindo seus lares para receber nossos trabalhos, seja adquirindo nossos produtos e compartilhando nossas coisas em suas redes. E reforço o pedido ao público que não desista de nós, trabalhadoras e trabalhadoras autônomos, pois estamos nos esforçando para ter esperança e não abandonar a nós mesmos nesse momento: não nos abandonem!