De Cabo Verde, reflexões sobre as transformações no ensino e o uso de tecnologia

25/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Lionilda de Sá Nogueira (Universidade de Cabo Verde)

Entrevista com Lionilda de Sá Nogueira, “De Cabo Verde, reflexões sobre as transformações no ensino relacionadas ao uso das tecnologias”

Entrevista internacional concedida ao portal de jornalismo Potiguar Notícias por Lionilda de Sá Nogueira, professora da Faculdade de Educação e Desporto da Universidade de Cabo Verde, cursando doutoramento em Ciências da Educação na especialidade de Desenvolvimento Curricular no Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Braga/Portugal, autora do livro “Gestão da Qualidade da Formação de Professores” (edições académicas, 2019). A professora e pesquisadora reflete sobre as transformações no ensino relacionadas ao uso das tecnologias na Faculdade de Educação e Desporto da Universidade de Cabo Verde, considerando ter sido um desafio para os docentes e estudantes. Para o futuro, considera que os docentes devem continuar a ensinar seja por que modalidade for, visto que a educação é a via de desenvolvimento pessoal, social e de melhoria das condições de vida da população.

1. Para início da entrevista, gostaríamos de uma contextualização do país Cabo Verde.

Cabo Verde é um pequeno país insular situado em frente à costa africana. É país jovem e com fracos recursos naturais. Desde sempre foi reconhecido o seu povo pela resiliência às condições adversas do clima, marcado por ciclos de seca.

2. Situando-nos nestes tempos de pandemia, quais seus efeitos sociais e econômicos em Cabo Verde?

A pandemia não parece ter pressa em se retirar nem de Cabo Verde e nem do mundo. O que nos resta é tentar uma convivência pacífica. Cabo Verde tem vindo a se adaptar às novas regras de convivência social. Economicamente, o país se ressente. Tivemos dois meses de confinamento, funcionando apenas os serviços mínimos. Um país com fragilidades económicas ter agora reflexos da depressão económica mundial não se afigura ser fácil de se gerir. Por outro lado, essa pandemia gerou ondas de solidariedade desde instituições públicas a pessoas individualmente. O projeto MAE (Movimento de Apoio aos Estudantes) foi implementado na Uni-CV (Universidade Pública). Foram apoiados estudantes com disponibilização de telemóveis, internet, cesta básica. As operadoras de telecomunicação disponibilizaram megas para clientes enfim o tão reconhecido djunta-mon (solidariedade) do povo das ilhas.

3. E como o ensino se configurou nesse período do isolamento social?

No início confessamos que nos sentimos bastante desconfortáveis. O facto de não poder ver os estudantes, perceber pelos gestos faciais se estão acompanhando ou não. No entanto, à medida que devolvíamos as atividades pedagógicas, elaboradas com bastante rigor, tornamo-nos menos ansiosos. Consideramos ter sido desafiante para os docentes e estudantes.

De regresso às aulas presenciais, os estudantes testemunharam ter sido interessante, uma vez que foi desafiante pois tiveram que apreender os conteúdos didáticos sem a exposição do professor. As aulas online obrigou-os a ler mais e a tentar compreender as ideias dos autores dos manuais didáticos sem a mediação do professor. Sentem-se agora mais capazes e, por este motivo, acreditam que cresceram como pessoas.

4. Sendo docente da Universidade de Cabo Verde, que orientações houve para o ensino ao longo do isolamento social?

A 20 de março a Universidade Pública de Cabo Verde anunciou a suspensão de aulas devido a pandemia da Covid-19 e regulamentou o ensino online. Foi disponibilizada a plataforma moodle sem, contudo, ser imposta. A universidade concordou que os docentes utilizassem meios que melhor se adequassem. O diretor do Núcleo de Apoio ao Ensino à Distância, por livre iniciativa, disponibilizou aos docentes vários tutoriais de suporte ao uso da plataforma moodle. Atualmente está a disponibilizar-se formação aos docentes.

5. Em relação às atividades desenvolvidas pelos estudantes no ensino online qual a constatação dos professores?

Inicialmente, solicitávamos atividades aos estudantes, mas não definíamos o prazo de entrega pois desconhecíamos o ritmo de trabalho dos outros docentes que lecionam as mesmas turmas. Considerando que havia muita disparidade ao nível da entrega, optamos por definir prazos, mantendo-nos disponíveis para eventual receção tardia de trabalhos.

Os atrasos verificados na devolução das atividades foram justificados pelos estudantes com diversos motivos, designadamente condições financeiras para aceder à net, falta de energia em localidades no interior da ilha, inexistência de aparelho móvel, ficando nesse último caso à mercê de empréstimo, por compaixão alheia.

6. Gostaríamos de conhecer algumas experiências exitosas relacionada às práxis da educação que ocorreram neste contexto de isolamento social. É possível esse relato?

Verificamos que houve uma melhoria na escrita bem como na organização de ideias por parte dos estudantes. Relativamente aos encontros do Conselho Diretivo da Faculdade com docentes, no início foi um desafio! Foi utilizada a plataforma Teams para o encontro, mas conseguir instalá-la e utilizá-la não se revelou tarefa fácil, mas conseguimos adaptar. Por pertencermos à geração do presencial, foi difícil ouvir os colegas e o presidente do conselho sem poder visualizá-los. Foi necessário fazermos um trabalho connosco mesmo, de autoaprendizagem.

7. Para o desfecho desta entrevista, da sua experiência como docente, e pesquisadora no campo da formação de professores, que mensagem pode compartilhar para seus colegas, os professores, em geral, e em particular os professores e professoras do Brasil?

Depois da pandemia não seremos mais os mesmos. Vivemos em um contexto “do novo normal”. Mas o ser humano tem demonstrado ser resiliente. Cremos que vivemos uma nova etapa de ensino. Assim, é necessário que nós, docentes, continuemos a ensinar seja por que modalidade for, visto que a educação é a via de desenvolvimento pessoal, social e de melhoria das condições de vida da população.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias (https://www.potiguarnoticias.com.br/) integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e impacto social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br. O link do Projeto de extensão e desta publicação também será socializado por meio do portal eletrônico do PPGEP/IFRN (https://portal.ifrn.edu.br/ensino/ppgep/paginas/entrevistas), bem como, por meio do portal eletrônico da Faculdade FAMEN (https://www.editorafamen.com.br/entrevistas/).

 

Fonte: Lionilda de Sá Nogueira (Universidade de Cabo Verde)