De Angola/África, reflexão sobre a educação à distância de emergência

14/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Manuel Teixeira (Universidade do Minho)

De Angola/África, reflexão sobre as condições tecnológicas para o Ensino à Distância na Educação Básica e Superior

Entrevista internacional com Manuel Teixeira sobre as condições tecnológicas e de Ensino a Distância no Ensino Geral e Superior em Angola, continente Africano. Manuel Teixeira é licenciado em Informática Educativa pela Universidade Agostinho Neto em Angola e Mestre em Ciências da Educação, na especialidade de Tecnologia Educativa, pela Universidade do Minho em Portugal. É docente universitário na categoria de Assistente no Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla. Vive em Angola na província da Huíla, Cidade do Lubango. Fala-nos das condições tecnológicas nas escolas em Angola, da forma como está a decorrer a transição da educação escolar presencial para uma educação a distância de emergência, face à pandemia, e dos requisitos para que o retorno à educação escolar presencial ou online, ainda durante os tempos de pandemia, ou mesmo pós pandemia, seja efetuado para que haja um processo de ensino-aprendizagem de qualidade.

1. Pode descrever-nos alguns aspectos relacionados ao estado de emergência, em função do Coronavírus, para o campo da educação em Angola?

No período de estado de emergência em Angola decretou-se a suspensão das aulas presenciais, no dia 20 de março de 2020, referentes ao ano lectivo 2020, tendo as instituições escolares optado por utilizar as redes socias, sobretudo o Facebook e o WhasApp, para o envio do conteúdo aos alunos. Contactando os pais via chamadas telefónicas, no caso de instituições do ensino primário, os próprios alunos no caso de instituições de ensino secundário e superior, para levantar os conteúdos na secretária da escola. As pessoas da minha geração presenciaram, no país, pela primeira vez, a transmissão das aulas via Televisão pública de Angola para o ensino primário, e Via Rádio Nacional de Angola para o ensino secundário.

2. Temos conhecimento que na sua dissertação de mestrado pesquisou sobre as interações online com uso do facebook. Pode falar, de forma breve, sobre o objetivo da sua pesquisa?

De facto, esta forma de ensinar e aprender, trabalhando com as redes sociais, articula-se à minha dissertação de Mestrado em Ciências da Educação, especialidade de Tecnologia Educativa, apresentada em 2018 no Instituto de Educação da Universidade do Minho, onde abordei o tema: “O Facebook e as interações online entre alunos na aprendizagem de Informática Aplicada” (pode ser consultada clicando neste link: http://hdl.handle.net/1822/57811). A questão central da investigação foi: Como intensificar, através do Facebook, as interações entre alunos no processo de ensino e aprendizagem na disciplina de Informática Aplicada?

3. E quais foram os principais resultados obtidos na dissertação de mestrado?

Os resultados obtidos com a investigação realizada no mestrado permitiram-nos perceber que a intensificação das interações entre alunos numa extensão de sala virtual (usando o Facebook) supera as interações somente na sala de aula presencial. Com efeito, verificou-se que o Facebook, em articulação com a estratégia de sala de aula invertida e b-learning, altera a ação dos alunos no sentido de interagirem com outros alunos e buscar aprendizagem por meio da rede, em qualquer hora e em qualquer lugar, e também navegar pela rede em busca de informações que depois transformam em conhecimentos.

4. Sendo, então, perito na forma de ensinar e aprender via (online), que avaliação faz do processo que está a decorrer em Angola?

A transição da aula presencial para a aula a distância (online), nestes tempos de pandemia, está a ser feita de uma forma bastante tradicional e obsoleta, pois baseada sobretudo na 1ª geração do Ensino a Distância (correio manual) e 2ª geração do Ensino a Distância (rádio e televisão), apesar de também se utilizarem meios tecnológicos de informação e comunicação digitais, responsivos ou instantâneos, e que permitem diversas formas de comunicar, sejam elas feitas em tempos diferentes (comunicação assíncrona) ou em simultâneo (comunicação síncrona). Do modo como o processo está a ser implementado fica a ideia de que ensinar a distância basta planificar ou preparar o conteúdo e enviar ao aluno, e de facto não é assim, mesmo para as aulas transmitidas via TV e Rádio baseadas numa abordagem expositiva.

5. O que fazer para que a transição do presencial para o online decorra com a qualidade exigida?

Para que de facto se construa um ensino a distância baseado na 4ª e 5ª gerações tecnológicas, usando as redes Web (4ª geração, e-learning) e as tecnologias móveis (m-learning, 5ª geração), nas quais se concretizam a interação, colaboração e construção do conhecimento por meio das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação e Ambientes Virtuais de Aprendizagem, é necessário garantir algumas condições, tais como: a aplicação das ideias da teoria construtivista e da abordagem conectivista; a aplicação de metodologias activas e respectivas estratégias de ensino e aprendizagem, sobretudo a sala de aula invertida que se tem revelado eficaz; o domínio das literacias digitais por parte dos professores e dos alunos; planificar o processo de ensino e aprendizagem para a sala virtual; é necessário, ainda, conhecer as ferramentas de avaliação e traçar critérios de avaliação online, bem como manter presença virtual orientando a aprendizagem mediante feedback, incentivo e motivação.

6. Em Angola, quais foram os principais problemas de ordem social, econômica e pedagógica que ganharam evidência por afetarem o cotidiano de escolas, professores e alunos?

Segundo informações das mídias do país, o COVID-19, em Angola, trouxe à tona os problemas que existem na maior parte das escolas, dos professores e dos alunos. A nível das escolas, ficaram bem visíveis os problemas ligados à falta de água canalizada, luz elétrica, falta de salas de aulas suficientes, latrinas e meios tecnológicos, sobretudo o computador e a internet. A nível dos professores, os problemas articulados à formação a nível das literacias digitais e de práticas com as tecnologias digitais para atuar na Educação a Distância, bem como o elevado número de alunos para cada docente. A nível dos alunos, identificaram-se os problemas ligados à falta de um computador ou um smartphone na família, a falta de recursos para acesso a internet em casa, e a falta de literacia digital. Enfatizo a opinião de alguns alunos que têm os meios tecnológicos, mas a região ou localidade onde vivem não tem cobertura da internet e luz eléctrica, impedindo-os de participar na aula online. Todos estes problemas levantados mostram a fragilidade das escolas, dos professores e dos alunos, do país, em geral, para que o “novo normal” da educação escolar, para o reinício das aulas no lectivo 2020, e sobretudo, no próximo ano letivo (2021), haja as condições para um ensino-aprendizagem de qualidade.

7. Em seu entender, em Angola, que pontos podem ser considerados centrais para que nas escolas se possam desenvolver atividades com maior lastro de inclusão e de desenvolvimento humano?    

Para isso, seja na docência presencial seja na docência online (a distância), as escolas precisam de ser apetrechadas com as condições básicas de higienização, luz eléctrica, mais espaços de salas de aula e com meios tecnológicos, com destaque ao computador, datashow, internet, plataformas de ensino, bibliotecas e repositórios digitais; os professores devem estar formados em literacia digital e metodologia de ensino a distância e trabalharem com menos alunos para que haja possibilidade de uma pedagogia de proximidade; os alunos precisam possuir os meios tecnológicos e internet e passarem também por aulas de ambientação articuladas às Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação e aos Ambientes Virtuais de Aprendizagem.

8. Para terminar, sugere algumas medidas que podem ser tomadas ou articuladas pelos responsáveis pelas políticas educacionais em Angola para o alargamento da inclusão digital no país?

Há necessidade do país optar por Projectos Tecnológicos Pedagógicos que vão ao encontro das reais necessidades das escolas, dos professores, dos alunos e encarregados de educação. Que se criem estratégias de diminuição dos preços dos computadores e das tarifas de internet, fazendo que seja acessível para todas as classes sociais, criando formas de inclusão digital para que alunos e professores possam aceder à informação, formação e conhecimento.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Manuel Teixeira (Universidade do Minho)